Mortalidade infantil aumenta e distritos com menos médicos apresentam piores indicadores
17 mar, 2026 - 22:41 • Anabela Góis
Aumento da mortalidade infantil registado entre 2022 e 2024 em várias regiões do país. Distritos com maior carência de médicos apresentam piores indicadores de saúde materno-infantil.
O Sindicato dos Médicos da Zona Sul diz que há uma clara associação entre os distritos com maior carência de médicos e o aumento da mortalidade infantil entre 2022 e 2024.
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A Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano registou a taxa mais alta, com quase o dobro da média nacional. As ULS do Arco Ribeirinho, que inclui o hospital do Barreiro, e de Almada-Seixal também estão entre as que tiveram piores indicadores.
Em declarações à Renascença, André Gomes, presidente do Sindicato dos Médicos da Zona Sul, diz que pode não estar provado que exista uma relação direta de causa e efeito, mas considera evidente a associação entre os indicadores e os constrangimentos no acesso à saúde materno-infantil.
“Os relatórios são muito claros relativamente às zonas do país onde a mortalidade é mais elevada, nomeadamente nas regiões da zona sul. Se falarmos das áreas de abrangência da ULS Amadora-Sintra, do Alentejo e de algumas zonas da chamada margem sul, verificamos que existe uma associação com o facto de existirem poucos médicos e, nomeadamente, se falarmos nas condições da saúde materna ou infantil, pior ainda. Portanto, o número elevado de partos em ambulâncias e o encerramento das urgências de obstetrícia. Não podemos afirmar que há uma causa e efeito, mas há uma clara associação”, diz.
André Gomes, que também preside à Federação Nacional dos Médicos, alerta o Governo para a necessidade de averiguar se o aumento da mortalidade está, de facto, relacionado com a carência de médicos e defende que, se essa ligação se confirmar, devem ser tomadas medidas para manter os serviços em funcionamento.
“Nós não podemos continuar, nomeadamente na zona da margem sul, que é uma das zonas com maior natalidade do país, a encerrar serviços. Portanto, aquilo que cabe ao Governo é fortalecer o Serviço Nacional de Saúde para que possamos reverter este aumento da mortalidade, caso exista esta ligação direta”, afirma.
Os últimos dados da Direção-Geral da Saúde mostram um aumento da mortalidade fetal e infantil entre 2022 e 2023, com grandes disparidades regionais.
Situação considerada muito preocupante pelo presidente do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos. Ricardo Jorge Costa admite que estes indicadores podem apontar para dificuldades no acesso de mulheres e crianças a cuidados de saúde, nomeadamente no Litoral Alentejano e na região de Setúbal, incluindo Almada e Barreiro.
“O mais preocupante é exatamente isso: a discrepância que existe entre várias ULS. Há duas ou três regiões do país em que neste momento temos de ter alguma atenção sobre estes números e perceber porque aparecem de forma um bocadinho diferente da média nacional, alguns deles até bastante elevados, o que faz pensar que relativamente à equidade dos cuidados de saúde materno-infantis poderão não ser os mesmos e haver alguma dificuldade de acesso em algumas regiões do país”, diz Ricardo Jorge Costa, presidente do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos.
Ricardo Jorge Costa sublinha que os distritos com piores indicadores na mortalidade infantil são também zonas com grande concentração de população migrante. Este pode ser outro fator a ter em conta, para além dos problemas no acesso a serviços de obstetrícia e pediatria.
“Sabemos que o acesso aos cuidados perinatais tem sido diferente e com alguma dificuldade na orientação dessas pacientes durante a gravidez e mesmo no início do trabalho de parto, nomeadamente na definição de onde vão ter os seus bebés. Encaminham-se sucessivamente para várias maternidades que estão abertas ou fechadas e isso pode ter sido uma das causas, embora não se possa comprovar neste momento. Sabemos também que a população migrante nessa zona é extremamente elevada e é uma população de alto risco em termos de morbilidade. Muitas chegam já com gravidezes bastante adiantadas e não vigiadas, o que aumenta o risco materno, fetal e neonatal”, afirma Ricardo Jorge Costa, presidente do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos.
Na mortalidade fetal, relativa a fetos com 22 ou mais semanas, os piores indicadores registaram-se nas ULS da Guarda e do Alentejo Central, sobretudo em mães muito jovens ou em idades mais avançadas.
“Temos vários fatores. Um deles é a patologia materna. Se analisarmos os dados, essa mortalidade ocorre sobretudo em mães muito jovens e em mães com idade mais avançada para ter os seus filhos. Pode estar associada a dificuldades, por vezes até recusa, na vigilância da gravidez, sobretudo nas mães mais jovens. São situações muitas vezes associadas a patologia materna que pode não ter sido detetada precocemente, como hipertensão ou diabetes, e isso pode repercutir-se no feto e aumentar a mortalidade fetal”, diz Ricardo Jorge Costa.
No triénio 2022-2024, a taxa de mortalidade infantil foi de 2,8 óbitos por mil nados-vivos. A mortalidade fetal situou-se em quatro óbitos por mil nascimentos. Nesse período morreram 55 mulheres, metade das quais devido a distúrbios hipertensivos da gravidez, parto e puerpério.
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