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Reportagem Renascença

A canábis já não é o que era. Vozes, delírios e psicose com uma droga cada vez mais perigosa

20 mar, 2026 - 07:00 • Miguel Marques Ribeiro

É a droga ilegal mais consumida em Portugal e na Europa. Percebida pela maioria da população como uma droga leve, de risco mínimo ou nulo para a saúde, a canábis pode provocar psicoses tóxicas que evoluem, em pelo menos 25% dos casos, para esquizofrenia. Um projeto articulado entre a FMUP e o Hospital de São João procura perceber o papel da genética no aparecimento destes surtos, que estão a aumentar de forma "brutal" e são capazes de provocar um "sofrimento tremendo".

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Durante duas décadas, Sandro consumiu haxixe com "prazer" e "paz espírito", até que um dia começou a ouvir vozes dentro dele.

"Tive de ir trabalhar e me relacionar com os meus amigos e familiares mais próximos tendo sempre uma voz dentro de mim a orientar-me em coisas absurdas”, recorda o homem de 43 anos num testemunho, entre vários, de antigos consumidores de canábis — que a Renascença recolheu e apresenta neste artigo sob nomes fictícios.

Sem se aperceber, Sandro estava a ter um surto psicótico induzido pela famosa planta, um estupefaciente normalmente considerado leve. Consumiu-o sem suspeitar que poderia ser afetado por “alucinações visuais e auditivas” que duraram meses a desaparecer.

“Nunca considerei que um dia fosse passar por uma situação destas”, desabafa. “Pensava que apenas com o consumo de outro tipo de drogas é que poderia chegar a esse ponto.”

"A descarga emocional foi tanta que um dia comecei a ouvir vozes", conta Célio

Esta deterioração do seu estado de saúde, que lhe provocou “angústia” e um “sofrimento tremendo”, foi agravada por delírios, em que a “sensação de perseguição” era constante.

“Sentia que as pessoas estavam focadas em mim, a observar todo aquele comportamento estranho que eu estava a ter.”

Experiência paranormal

Célio sofreu algo semelhante. Tudo aconteceu durante a pandemia, numa altura em que foi obrigado a mudar de vendedor. Deixou de adquirir o produto a um amigo, num ambiente que considerava descontraído e controlado, e passou a comprar num local que lhe parecia “super suspeito” e que vendia menores quantidades pelo mesmo preço, o que o obrigava a sair de casa mais vezes.

A partir dessa altura, a ansiedade associada à compra e consumo do haxixe não parou de aumentar. “Andava sempre stressado e paranoico, porque tinha medo que a polícia aparecesse”, recorda. “A descarga emocional foi tanta que um dia comecei a ouvir vozes”, relata.

Não eram apenas sons ou palavras soltas, faz questão de esclarecer. Eram “conversas inteiras” que o punham “a falar como se estivesse a conversar telepaticamente”.

Normalmente, essas alucinações incluíam ameaças relacionadas com o local onde ia adquirir a droga. “As vozes diziam: ‘Só podes comprar neste sítio, porque se compras noutro sítio vamos a tua casa e matamos-te’.”

Célio compara o que lhe aconteceu com uma experiência "paranormal". Era como se estivesse a viver um filme em tempo real. “Pensava que eram detetives privados” que o vigiavam até chegar a casa.

"Ninguém consegue viver assim, a gente sobrevive, mas não vive", desabafa Sandro

Chegou mesmo a ter alucinações visuais: “Numa altura em que estava todo chapado [sob o efeito da droga], vi dois senhores no meu carro. Basicamente, estava paranóico”. Uma fase da sua vida que espera não voltar a viver: “Não desejo a ninguém. É mesmo muito agressivo.”

O “lado negro” da canábis

Este tipo de delírios paranoides, persecutórios, são muito típicos da canábis, confirma a professora Maria Augusta Coelho.

“A pessoa acredita que está a ser perseguida por alguém, sente-se vigiada, as câmaras estão a olhar, os telemóveis estão a gravar o que nós pensamos, o que nós sentimos”, esclarece a docente e investigadora de Farmacologia e Toxicologia na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).

Em geral, acrescenta esta especialista, a psicose surge associada a uma “alteração da percepção”, a uma “perda da noção da realidade”, estado mental que Sandro descreve como um “horror”.

“É muito complicado viver assim. Aliás, ninguém consegue viver assim, a gente sobrevive, mas não vive”, resume o paciente, que está a recuperar há quatro anos de um diagnóstico de psicose.

“Há um lado negro da canábis”, resume a professora Maria Augusta Coelho, que tem um longo percurso de investigação na área dos canabinóides e coordena a unidade de Farmacologia e Terapêutica do Departamento de Biomedicina na FMUP.

Nas últimas décadas, “em quase todos os países desenvolvidos verificou-se um aumento de doenças psiquiátricas associada ao uso da canábis, em especial da psicose tóxica”.

"A canábis é a 'droga ilegal mais consumida nas classes jovens. É um pouco assustador'”, sublinha Maria Augusta Coelho, psiquiatra e investigadora

No caso de Portugal, o crescimento de diagnósticos aumentou de forma “brutal” entre 2000 e 2015. “Havia 20 doentes por ano, passou a haver [cerca de] 600 doentes por ano internados em situações agudas e graves, com psicose de canábis.”

A especialista garante que há “muita gente preocupada com esta questão” por toda a Europa.

Droga ilegal mais consumida

Não é possível prever a evolução de uma crise psicótica provocada por canábis. Nos casos mais graves, pode converter-se numa esquizofrenia e noutras doenças mentais.

Só no Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ), no Porto, estão a ser seguidos, neste momento, 63 doentes com problemas relacionados com o consumo de canábis, 53 dos quais sofreram psicoses tóxicas. O número total é de 213 internamentos entre 2018 e 2025.

Em articulação com a Faculdade de Medicina, o serviço está a desenvolver o projeto CAPSI, que investiga e acompanha casos de utentes do centro hospitalar que sofrem deste problema.

As conclusões apontam para que pelo menos um em cada quatro doentes tenha desenvolvido esquizofrenia nos três anos seguintes ao diagnóstico, número que poderá “estar subestimado”, por se perder o rasto a muitos utentes.

Isto num país em que a canábis é a substância ilícita preferida e também a “droga ilegal mais consumida nas classes jovens". "É um pouco assustador”, sublinha Maria Augusta Coelho.

Estes dados justificam-se, em parte, por uma diminuição da percepção do risco, nota a psiquiatra e investigadora. Desde 1995, a percentagem de pessoas que considera que fumar canábis representa um risco mínimo ou nenhum risco para a saúde mais do que duplicou, superando 50% dos inquiridos.

"Posso dizer que há 20 anos a canábis era muito mais fraca, muito mais leve", assegura Sandro

O uso da droga está também a tornar-se mais problemático. Segundo os dados oficiais mais recentes do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), cerca de 10% dos utilizadores entre os 13 e os 18 anos consome diariamente.

O consumo diário e precoce do estupefaciente é precisamente um dos principais fatores que potenciam o desenvolvimento de psicoses.

Manipulação genética da planta

Outro catalisador “é a própria planta” da qual se extrai a droga no formato de haxixe ou erva. A canábis dos anos 60, altura em que o movimento hippie a tornou popular, era muito diferente da que é produzida e vendida atualmente.

Ao longo dos anos, a planta foi manipulada, até do ponto de vista genético, de forma a aumentar os valores de Tetrahydrocannabinol (THC), a componente propriamente psicoativa da planta, que provoca efeitos estupefacientes ou psicotrópicos no consumidor (a chamada "pedrada").

Isto torna-a também mais perigosa para a saúde, pois o THC é “o composto mais potente para provocar psicose”. Na droga de alta potência, chega a atingir 30% da composição do produto: “uma proporção substancial dos primeiros episódios psicóticos poderia ser evitada se esse tipo de canábis não estivesse disponível”, refere a equipa do CAPSI.

Uma ideia confirmada por Sandro. “Posso dizer que há 20 anos a canábis era muito mais fraca, muito mais leve”, reconhece o paciente do Serviço de Psiquiatria. “Com o passar do tempo, o teor de THC aumentou significativamente.”

Paralelamente, estão a ser introduzidas “substâncias sintéticas muito mais potentes”, denominadas de spice. “Pode ser tabaco, uma planta normal seca, que está impregnada por um composto sintético altamente potente, mil, dez mil vezes mais potente que o THC. E essas spices levaram à morte já de vários adolescentes”, alerta Maria Augusta Coelho.

A investigadora defende ainda que a introdução da canábis medicinal gerou equívocos na opinião pública. “Se uma coisa pode ser um medicamento, provavelmente não é assim tão má”, realça Maria Augusta Coelho.

"A canábis é uma dependência, como as outras, mas é uma dependência difícil de tratar, também por causa desse tal síndrome motivacional", alerta Maria Augusta Coelho, psiquiatra e investigadora

No entanto, a canábis recreativa e a canábis medicinal têm composições completamente distintas, nomeadamente na quantidade de THC, que é muito baixa na planta para uso terapêutico.

Por outro lado, diz a docente, os benefícios médicos da canábis continuam a carecer de validação científica definitiva. Um estudo recente da revista Lancet questiona o uso de canábis para tratar diversos problemas mentais. Cepticismo partilhado por Maria Augusta Coelho, que aponta para “alguns interesses económicos” por detrás do uso da canábis para efeitos medicinais.

Apatia e falta de motivação

Os problemas associados ao consumo da canábis não se reduzem à situação aguda de uma intoxicação psicótica.

“A canábis é uma dependência, como as outras”, garante Ana Sofia Machado, médica psiquiatra do CHUS, e também é “difícil de tratar”, devido ao que se designa de "síndrome amotivacional": “A motivação é muito reduzida numa pessoa que consome canábis cronicamente. A pessoa parece que deixa de ter projetos de vida”, explica a investigadora do CAPSI.

Sandro, que nunca consumiu outras drogas, recorda “a falta de objetivos, o desleixo, a falta de concentração, a existência até de uma certa apatia”, que caracterizou a sua vida durante os 20 anos em que consumiu. "A canábis rouba-nos muito, tira-nos muito da vida, daquilo que poderíamos ser", afirma. “Consigo perceber hoje em dia que era tudo causado pelo consumo da substância”.

Maria Augusta Coelho sublinha que os consumidores de canábis se caracterizam por um “isolamento social marcado” e que se “consome cada vez mais cedo”, ainda na “fase da adolescência”, quando “o cérebro está em desenvolvimento e é mais sensível ao efeito de todas as drogas”.

"Eu não consigo estar completamente em silêncio quando vou dormir. Isso já não dá para mim. Tenho sempre música a tocar", conta Célio

Quem fuma passa “a estar parado, deixa de estudar, deixa de trabalhar, fica em casa, não sai, isso é muito comum e os jovens não falam sobre isso”. A isto juntam-se outros problemas psicológicos, como “crises de ansiedade” e de “pânico”. A canábis, alerta ainda a investigadora, “é péssima em termos metabólicos”, pois “aumenta o apetite e o risco de doenças metabólicas” como as diabetes e lipedemas.

A abstinência é crucial

O tratamento que é prestado aos utentes do Serviço de Psiquiatria do centro hospitalar de São João permite ultrapassar muitos problemas, mas há marcas da psicose que perduram para a vida. “Eu não consigo estar completamente em silêncio quando vou dormir. Isso já não dá para mim. Tenho sempre música a tocar”, admite Célio.

O jovem de 33 anos foi acompanhado primeiro no Magalhães de Lemos, no Porto, onde esteve internado mais de um mês. As vozes que passou a escutar devido à psicose foram desaparecendo aos poucos. Mesmo assim, teve de suportar a continuação dos efeitos secundários da doença enquanto procurava voltar à normalidade. “Durante dez meses, estive a trabalhar num call center e a ouvir vozes na mesma”, conta.

No seu caso, a recuperação não foi absoluta. “Quando estás a pensar nas coisas do dia-a-dia ou nos problemas que tiveste, alguns resquícios das vozes podem voltar — muito ao de leve, quase que não se ouve”, nota Célio.

Sandro também admite que não é fácil olhar para trás. “Só o facto de me estar a lembrar disso, já deixa aqui uma certa angústia, um certo sentimento de mau-estar”, assegura.

Outro utente, Aníbal, teve os primeiros episódios de psicose aos 22 anos, quatro anos depois de começar a consumir.

Um percurso que encaixa no perfil típico dos utentes que recorrem aos serviços de psiquiatria, explica a enfermeira Júlia Pereira.

“Por norma, são doentes jovens que têm muita dificuldade em entender que estão a ter um problema de saúde, a entrar por um caminho que pode ser bastante grave.”

Ao chegar, mostram-se, por vezes, “bastante agressivos” e mesmo “hostis”, acrescenta a profissional de saúde.

“Muitos não trabalham, não fazem nada, têm o sono invertido, gostam de dormir de manhã. Às vezes é preciso trabalhar [com eles] muito, muito devagarinho.”

"A terapia consiste não só em medicação, mas também em ter um acompanhamento, quase uma reabilitação social", explica Aníbal

Os doentes são predominantemente jovens, do sexo masculino — na proporção de um homem para 20 mulheres — com "consumo diário de doses de elevada potência e, muitas vezes, uma história familiar de doença mental", sublinha Maria Augusta Coelho.

Para assegurar a sua recuperação, a abordagem terapêutica inclui a prescrição de antipsicóticos e sessões de psicoterapia, “porque a abstinência é crucial” para travar a evolução da psicose, explica a psicóloga Vânia Rocha. O objetivo é identificar os “gatilhos associados ao consumo de canábis e as respostas subsequentes a esses gatilhos”.

Assim, todo o processo “consiste não só em medicação, mas também em ter um acompanhamento, quase uma reabilitação social”, testemunha Aníbal.

“Ajuda-nos a ter uma interação social muito maior, a tentar praticar uma atividade física, a tentar reintegrar-nos no trabalho — porque eu trabalhava, eu toda a minha vida trabalhei”, destaca o utente do CHUSJ.

Canábis provoca alterações epigenéticas

A possibilidade de uma recuperação é real, mas há muitas questões a que a equipa de investigadores da FMUP ainda tenta responder.

Porque é que algumas pessoas desenvolvem psicose e outras não? E porque é que, entre aqueles que têm psicose, alguns evoluem para esquizofrenia enquanto outros recuperam a normalidade?

A resposta poderá estar no património genético. Através da recolha de sangue dos utentes que aderem ao programa, a equipa de investigadores do CAPSI está a tentar perceber se os doentes “têm alguma alteração num dos genes”, mudança também designada de polimorfismo, que aumente o risco de uma psicose induzida por canábis ou explique por que é que alguns doentes, depois de se desencadear uma crise, ficam esquizofrénicos, enquanto outros não.

Nos primórdios da genética, clarifica a equipa de investigação, pensava-se que os genes eram uma aquisição "para a vida". Actualmente sabe-se, através da epigenética, que o que fazemos ao longo dos anos pode resultar em modificações no DNA.

"Aquilo que você come, se faz ou não exercício, se toma ou não toma medicamentos, [tudo isso] influencia a atividade dos seus genes". A canábis, sabemos hoje, "altera muito a expressão genética", destaca Ana Sofia Machado. "Isso é visível não só no sangue, mas em outros líquidos biológicos, no esperma. Há alterações também, já se viu, nas gerações futuras. Portanto, se os pais estiverem a consumir, as crianças têm alterações, mas não sabemos qual é o significado clínico disso”, declara Ana Sofia Machado.

Para ser validado, o estudo precisa de ser alargado, mas as conclusões preliminares apontam para que quem consome canábis e não tem psicose tenha "com mais frequência um polimorfismo genético que os defende da psicose”. “Não são os outros que estão mal, mas os que não têm [psicose] parecem ter ali uma proteção”, refere Maria Augusta Coelho.

Independentemente das respostas que a ciência venha a encontrar, os benefícios da intervenção fazem-se já sentir, pelo menos para Sandro. “Tanto a minha concentração como a minha motivação, a minha vontade de viver, o ter objetivos e lutar por isso, tudo voltou de uma forma presente e consistente na minha vida”, admite o utente.

“Não há palavras para descrever o quão positivo é viver sem ter vícios, sem estar agarrado a qualquer tipo de droga”, acrescenta. “É uma paz interior tremenda, é um sentimento de felicidade que influencia tudo na minha vida, tudo o que está ao meu redor e até as pessoas mais próximas — e até os outros, os estranhos, também. Nós não somos a mesma pessoa quando consumimos drogas e quando não consumimos.”

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