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Projeto MUDA

Assédio nas artes performativas é uma "realidade amplamente disseminada", conclui estudo

31 mar, 2026 - 00:35 • Ana Catarina André

A primeira investigação académica feita em Portugal sobre o tema refere a preponderância de "comportamentos de humilhação, intimidação e desvalorização profissional", bem como "comentários, insinuações e propostas de natureza sexual". Em quase 90% dos casos não foi apresentada queixa.

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Quase 75% dos trabalhadores no setor das artes performativas dizem ter sido alvo de assédio moral e quase metade reporta episódios de assédio sexual em contexto profissional.

Estas são algumas das conclusões do primeiro estudo feito em Portugal para mapear o assédio neste contexto, uma iniciativa desenvolvida pelo projeto MUDA – Assédio nas Artes em Portugal e financiada pela Direção-Geral das Artes.

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“[Trata-se de] uma realidade amplamente disseminada no setor, manifestando-se tanto em comportamentos de humilhação, intimidação e desvalorização profissional, como em comentários, insinuações e propostas de natureza sexual”, lê-se no relatório do estudo, que contou com a participação de 611 profissionais da Cultura.

A maior parte dos participantes no inquérito é da área do teatro (54%), seguida da música (30%) e da dança (quase 24%). “Estas são áreas onde as pessoas trabalham muito com o corpo, com uma enorme exposição, também trazendo a sua vulnerabilidade. Os assediadores aproveitam-se disso, tal como se aproveitam também de uma outra situação de precariedade relacionada com as relações do trabalho. Algumas destas pessoas, uma proporção relevante, estão a recibos verdes, têm uma condição precária no trabalho”, diz à Renascença Dália Costa, da equipa de investigação que realizou o estudo.

São muito poucos os que apresentam queixa

Os dados apresentados esta segunda-feira, na Universidade de Lisboa, evidenciam que a maioria das situações ocorreu há mais de três anos e adiantam que, quer no assédio sexual, quer no assédio moral, em quase 90% dos casos não foi apresentada queixa.

Em relação à autoria das situações de assédio, refere a especialista, os participantes no inquérito dizem que “quem as assediou foram pessoas de um género diferente”, no caso homens sobretudo. “Em termos de relação profissional entre quem foi assediado e quem assediou, temos principalmente as direções artísticas, ou seja, pessoas que se sentem legitimadas para usar o poder sobre as outras, praticando assédio”.

Há impacto sobre a dimensão profissional, levando, por exemplo, a desistir da carreira

Segundo Dália Costa, ainda que, em alguns casos o assédio não tenha tido “uma duração” assim “tão longa”, as consequências prolongaram-se no tempo.

“Há impacto sobre a dimensão profissional, levando, por exemplo, a desistir da carreira, e isto é muito grave, porque perdemos talentos”, diz a socióloga e professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), salientando também que o assédio afeta a autoestima e se estende à vida familiar. “Algumas destas pessoas dependem de medicação, outras de psicoterapia e de consultas de psiquiatria”, diz.

Há também quem recorra a aconselhamento jurídico. “Todos estes aspetos são – pelo menos foi isso que nos foi referido nas entrevistas – financiados, custeados pela pessoa”, acrescenta a investigadora que trabalhou neste projeto com as psicólogas Ana Bártolo e Isabel S. Silva e com a jurista Joana Neto, especializada em direito do trabalho.

“As pessoas convivem com o assédio quase diariamente”

O inquérito mostrou, ainda, que os casos de assédio são testemunhados por uma parte significativa de outros trabalhadores.

No caso, por exemplo, do contacto físico não consentido, que inclui tocar, agarrar, apalpar ou tentar beijar, foi reportado por 43,4% das pessoas e testemunhado por 36,7%.

“As pessoas convivem com o assédio, quer de natureza moral, quer sexual, quase diariamente, ou sendo elas pessoas assediadas, ou então testemunhando o assédio sobre outras pessoas. É um fenómeno muito transversal, extremamente preocupante e com um impacto muito grande sobre as pessoas e sobre a sociedade”, sublinha Dália Costa.

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