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Ainda a recuperar do trauma, instituições e lares de idosos desesperam por apoios das tempestades. “Não podemos apertar mais o cinto”

01 abr, 2026 - 07:00 • Alexandre Abrantes Neves , Beatriz Martel Garcia (sonorização)

Na zona centro ou em Alcácer, há IPSS com prejuízos acima dos 300 mil euros em alguns casos. Dois meses depois das tempestades, a guerra veio trazer ainda mais urgência aos apoios: "Vamos ter mais custos com combustíveis". Dedicadas a idosos ou a doentes com paralisia cerebral, três histórias de instituições criadas para ajudar os outros e que agora só sobrevivem graças à solidariedade da sociedade civil.

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‘Ai’! Não me fale nisso”. Puxar o calendário até 28 de janeiro faz Gordalina reclinar-se no cadeirão. Precisa de amparar a cabeça na parede branca fria para desfiar as memórias e o trauma deixados pela tempestade Kristin.

“Quando eu acordei com o barulho, eu disse assim: ‘Ai, o que é que se está a passar? Ai, meu Deus, o que é isto?’. Levantei-me e vim para o corredor. Qual não é o meu espanto quando eu vejo o teto a cair…. E os vidros? Tudo abanava”.

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O tempo naquela noite demorou o dobro a passar. Deitou-se de novo na cama e esperou que o vento parasse de atacar o lar onde chegou há quase dois anos depois da morte do marido. De manhã, subiu o estore e confirmou com os olhos aquilo que os ouvidos lhe tinham dado a entender durante noite: varandas, corrimões, parque infantil. Tinha sido tudo levado com o vendaval.

“O nosso telhado voou todo, os painéis solares, os painéis fotovoltaicos, os vidros de todas as nossas varandas, ficou tudo partido. Parte da fachada também voou. E atingiu o parque infantil, que ficou todo destruído”, conta à Renascença Sofia Pereira, diretora do Centro Social e Paroquial de Regueira de Pontes, em Leiria.

Nos últimos dois meses, pouco ou nada mudou: conseguiram limpar os estragos, mas o edifício (inaugurado em 2020) continua com corrimões e proteções improvisadas, de madeira. E o perigo cresce a cada dia que passa.

Os idosos podem sair, circular, cair, magoar-se, no pior cenário, até falecer. Com as crianças também é muito difícil, porque quando gostam de ir a correr e não há as guardas aqui. O mais urgente é, sem dúvida, as varandas”.

Nos primeiros dias após a tempestade, a rotina foi virada do avesso para garantir que os 63 idosos que aqui vivem estavam sempre confortáveis. Arranjaram água de um furo nas redondezas para tratar da higiene dos utentes, compraram dezenas de garrafões para confecionar comida, alugaram um gerador (mais de cinco mil euros só para funcionar dez dias) e foram até Benedita, a mais de 50 quilómetros de distância, lavar a roupa dos idosos em lavandarias “self-service”.

Todos os dias, Sofia chegava a casa ao final do dia e aproveitava a rede móvel que ainda não existia no lar para responder a centenas de mensagens que recebia no telemóvel – para tranquilizar tanto os utentes, como as famílias, de que todos estavam bem.

“Os idosos que estão conscientes ficaram tristes com isto tudo que passou, mas sentem-se bem, porque estão bem a nível de saúde e estão mais ou menos estáveis. Muitos deles têm a casa destruída lá fora, mas os filhos também os sossegaram e acalmaram”, assinala.

E os idosos do apoio domiciliário? "Foi o pior. Ficaram isolados"

Ainda Sofia estava a tentar dar a volta por cima de árvores e postes de eletricidade caídos para chegar ao centro social e já alguns funcionários que vivem nas redondezas estavam a tratar de refeições na cozinha, fazendo tudo o que podiam sem eletricidade. “Naquele primeiro dia, tivemos de servir a comida toda fria, porque não tínhamos luz, gás, não tínhamos nada”.

O gerador que chegou, entretanto, alugado ajudou a confecionar as mais de 500 refeições diárias que dali saem, entre o lar, creche e a escola pública da zona. Só isso permitiu reabrir a creche e deu algum alento a quem estava em casa sozinho, sem centro de dia ou apoio domiciliário.

“Esses foram os que mais nos preocuparam”, recorda Sofia Pereira, que adianta os compromissos feitos para o futuro. “Agora vamos investir em ‘walkie-talkies', para garantir que há comunicação entre equipas, para informarmos das necessidades desses idosos”.

Umas duas centenas de quilómetros mais abaixo, o problema foi semelhante, mas pior. Durou mais tempo. “Fomos pela linha do comboio, levar alguns mantimentos e prestar o apoio que eles necessitavam. E agradecemos muito à Junta, porque só assim a conseguimos passar, porque as nossas carrinhas não tinham essa possibilidade. Durante mais de uma semana. Foi o pior. Ficaram isolados”.

Sem as varandas, os idosos podem sair, circular, cair, magoar-se, no pior cenário, até falecer

Cláudia Cupido é assistente social, mas há mais de um mês que não sabe o que é uma secretária. Os dias têm sido passados numa sequência infinita e onde há pouco espaço para errar ou parar: varrer, limpar, enxaguar, recomeçar. “Isto é uma água barrenta, suja, pesada. Lodo que destrói por onde passa. Foi tudo varrido”.

A sala de convívio da Associação Unitária de Reformados, Pensionistas e Idosos do Concelho de Alcácer do Sal é agora um enorme espaço com mobília ainda por mandar fora e com baldes e esfregonas colocados aqui e ali, onde a lama ainda subsiste agarrada a rodapés ou entre as tábuas de madeira do chão. Não entram ali utentes há quase dois meses.

“Tanto no centro de dia como os 20 que aqui vivem no lar, saíram todos na altura da primeira cheia”. Foi uma medida de precaução e o tempo acabou a mostrar que foi bem tomada.

Na primeira vez que o Sado galgou, Cláudia e as colegas ainda regressaram ao centro, para trabalhos de limpeza e com a esperança de reabrir na semana seguinte. “A minha colega até me disse: ‘Se calhar metemos o computador aqui em cima do móvel só para prevenção’. E eu respondi: ‘Ah, estás maluca? Alguma vez a água vai chegar aqui?’”.

Bastou meia dúzia de dias. O rio transbordou mais duas vezes e a água chegou a superar os dois metros de altura. Levou tudo. Móveis, eletrodomésticos, janelas. Livros antigos, peças de artesanato, medicamentos. A destruição é tanta (e a falta de apoios também, já lá iremos) que os 20 idosos vivem há um mês noutro lar da instituição.

É uma logística muito complicada. Tivemos de fechar o ginásio, algumas salas de convívio, que foram transformadas em quartos provisórios. Mas, para nós, era impensável outra opção, porque a outra solução seria a segurança social pô-los noutro sítio. Isso, para nós, estava completamente fora de questão”.

O regresso à vida normal ainda pode demorar várias semanas. Entretanto, Cláudia vai tentando lidar com as saudades – dos idosos, dos colegas e até do trabalho burocrático. “É um sentimento de impotência, tristeza, um vazio. Parece que estamos paralisados. É horrível”.

Alunos com paralisia cerebral sem sítio para aulas

A quatro ou cinco metros de altura, não se vê com detalhe suficiente, mas basta fazer a curva e chegar perto dos campos agrícolas para ainda ver vestígios do rasto do Mondego. “Foram praticamente duas semanas. Sempre com os terrenos alagados, isso estragou por completo a produção que tínhamos. Era batatas, couve, alho francês”.

Pedro Santos é um dos responsáveis da quinta da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra. Ali, o final de janeiro e o início de fevereiro foram dolorosos – antes das cheias, foi o vento a não dar tréguas.

“Voou tudo. Eram cinco estufas”, conta à Renascença, enquanto mira ao fundo o monte de ferros que restou dessa estrutura e que agora jazem encostados a um canto da longa Quinta da Conraria, onde a associação trabalha há mais de 40 anos.

Mais à frente, já se veem os primeiros passos dos trabalhos de reconstrução das estufas que devem custar, pelo menos, 50 mil euros. A essa fatura, junta-se ainda os produtos para a recuperação dos terrenos inundados, as telhas que tiveram de ser respostas e os equipamentos informáticos afetados pela chuva. E sem contar com as quebras na produção de hortícolas.

Agora não só não temos esses produtos para consumirmos como temos de os ir comprar a um preço mais caro do que estavam há duas semanas ou até há uma semana [por causa da guerra]”.

E o prejuízo é duplo. “Além disso, deixámos de ter o excedente da produção. Os produtos que não eram usados para consumo interno eram vendidos em dois mercadinhos que nós realizávamos até agora, todas as semanas”.

"Creio que se deve ser exigente" - Ana Abrunhosa, Presidente da CM de Coimbra
"Creio que se deve ser exigente" - Ana Abrunhosa, Presidente da CM de Coimbra

Aqui, a fatura deve rondar os 30 mil euros ao ano, ao que se junta ainda o dinheiro que a associação perde por não estar a conseguir organizar atividades nas estufas para escolas ou “teambuildings” para empresas.

O impacto, contudo, vai para lá da tesouraria. A quinta, e especialmente as estufas, são palco de atividades pedagógicas para os utentes com paralisia cerebral, cerca de 2.700 pessoas. Além disso, é também nestes campos que se leciona uma parte importante da componente prática de um curso de formação profissional para produtor agrícola e que é administrado pela associação. “É muita gente, porque a atividade da associação também é muito abrangente. Damos resposta em todo o ciclo de vida. Estamos muito limitados agora”, lamenta.

Falta dinheiro, mas dedicação nunca

A qualquer uma destas três instituições, quase nenhum apoio chegou. Do Banco de Fomento ou da CCDR, os apoios para a reconstrução são apenas uma miragem. Quanto à Segurança Social, só à Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra chegou a isenção do pagamento da Taxa Social Única (TSU). “E ainda bem, se não já tínhamos entregado as chaves”, avisa o presidente, Carlos Condesso.

O que tem ajudado a salvar as contas, de há dois meses para cá, são os donativos – de instituições, empresas e também anónimos, que participam em força nas campanhas lançadas online.

Não podemos apertar mais o cinto. Vamos seguramente ter muito mais despesas com os combustíveis

“Temos uma campanha a correr no ‘GoFundMe’, através da qual podem contribuir diretamente para este esforço de recuperação, nomeadamente da área agrícola da Quinta da Conraria, mas também de outros prejuízos que resultaram das tempestades que a associação teve em resultado disso”, acrescenta Pedro Santos.

Em qualquer um destes locais, ouve-se que a vida de uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) não é fácil por natureza, mas Sofia Pereira, do Centro Social de Regueira de Pontes, diz nunca ter vivido tempos tão difíceis.

Não podemos apertar mais o cinto. Nós dependemos das pessoas e elas de nós. E há outras dificuldades. Por exemplo, é muito difícil arranjar recursos humanos para este setor. Têm de ser pessoas muito responsáveis, nem toda a gente tem o perfil”.

Aqui, os prejuízos são superiores a 300 mil euros e – “no mínimo” – a instituição vai demorar um ano a conseguir reerguer-se. Mas, caso a guerra no Médio Oriente se prolongue, as contas podem ficar complicadas por muitos mais meses.

“Neste momento, face ao aumento do preço dos combustíveis, vamos seguramente ter muito mais despesas no que diz respeito aos combustíveis para ir buscar idosos, levar idosos, garantir as refeições, levar os miúdos à escola, passeios, entre outras coisas”.

Em Alcácer do Sal, os funcionários da Associação Unitária de Reformados, Pensionistas e Idosos não esquecem o monte de burocracia que tiveram de preencher para as candidaturas, mas ainda não viram nem um cêntimo chegar à conta bancária. O que tem valido são os apoios de algumas fundações da sociedade civil e, principalmente, as poupanças de anos e anos de uma gestão apertada e muito rigorosa.

“Como vê, estão ainda fechadinhos [nos plásticos]. Isto foi tudo novo”. Cláudia Cupido vai apontando para os equipamentos da cozinha – contas feitas, andaram entre os 50 e 60 mil euros. “Máquinas de lavar, frigoríficos. Estamos à espera do fogão. Temos a nossa panela [industrial], temos a marmita, forno. Isto tinha enferrujado tudo com a água”.

Com ou sem dinheiro, nenhuma destas três instituições virou as costas à missão. Logo a 28 de janeiro, Sofia Pereira lembra-se de chegar ao lar de Regueira de Pontes e ver a cozinha a abarrotar. “Muitas das nossas funcionárias vieram trabalhar com as casas destruídas, tivemos inclusive dois funcionários que ficaram sem casa. Tivemos a facilidade das nossas equipas se organizarem em momentos de crise”.

É uma dedicação que não desaparece, mesmo que os apoios demorem só mais um dia ou mais um ano. “Nunca nos faltou nada”, assegura Gordalina, virada para a amiga Isabel. “Nem comida, nem água, nada. Elas deixaram as famílias delas em mínima segurança e vieram para aqui tomar conta de nós. Foi uma equipa fantástica”.

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