Portal da Queixa
Reclamações na saúde aumentam e setor privado concentra maioria das queixas
06 abr, 2026 - 12:36 • Olímpia Mairos
Barómetro revela subida das reclamações no início de 2026 e aponta sobrecarga no privado, enquanto urgências e obstetrícia continuam entre as áreas mais críticas.
O número de reclamações no setor da saúde em Portugal aumentou no início de 2026, com sinais de crescente pressão sobre o sistema — sobretudo no setor privado, que concentra agora a maioria das queixas.
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De acordo com o Barómetro Trimestral do Estado da Saúde em Portugal, divulgado por ocasião do Dia Mundial da Saúde, assinalado a 7 de abril, foram registadas 1.440 reclamações entre janeiro e março, o que representa uma subida de 8% face ao mesmo período do ano passado.
“O sistema de saúde em Portugal atravessa uma fase de transição”, afirma Pedro Lourenço, fundador do Portal da Queixa by Consumers Trust. “Se por um lado se observa maior eficiência na gestão das reclamações no setor público, por outro, o setor privado enfrenta uma crise de crescimento, marcada por sobrecarga e aumento da conflitualidade financeira.”
Setor privado concentra três quartos das queixas
Os dados revelam uma mudança no padrão de insatisfação: 75,49% das reclamações dizem respeito ao setor privado, num total de 1.087 ocorrências, o que corresponde a um aumento de quase 19%.
Já o setor público registou uma descida de 15,55%, com 353 reclamações.
Segundo o estudo, esta tendência reflete o aumento da procura de alternativas ao Serviço Nacional de Saúde, mas também expõe fragilidades. “A procura acrescida está a revelar limitações ao nível da capacidade de resposta e da transparência”, indica o barómetro.
A qualidade do atendimento clínico continua a ser o principal motivo de queixa no setor privado (39%), mas cresce o peso das questões financeiras e de cobrança (24,62%), sinal de maior exigência dos utentes.
Menos queixas no público, mas problemas mantêm-se
Apesar da redução no número de reclamações no setor público, os problemas persistem. A qualidade do atendimento clínico representa 56,85% das queixas, evidenciando dificuldades na prestação de cuidados essenciais.
O relatório aponta que a diminuição poderá estar ligada a alterações no acesso, como o reforço da triagem através da Linha SNS24 e iniciativas como o programa “Ligue Antes, Salve Vidas”.
Urgências e obstetrícia no centro da pressão
As urgências continuam a ser um dos principais pontos críticos, representando 17,30% das reclamações em contexto urgente.
Entre as especialidades, a Obstetrícia lidera destacadamente, com 29,82% das queixas, seguida da Pediatria (10,53%), áreas particularmente sensíveis e onde os constrangimentos persistem.
A reorganização das urgências, iniciada este ano, é apontada como uma tentativa de resposta estrutural, mas tem gerado contestação e dúvidas quanto à capacidade das unidades.
Mulheres lideram reclamações
O perfil dos reclamantes mostra uma predominância feminina: 67,48% no setor privado e 59,48% no público. A faixa etária entre os 35 e os 44 anos é a mais representada, refletindo um utente mais informado, digital e exigente.
Risco de maior desigualdade no acesso à saúde
Para Pedro Lourenço, a satisfação dos utentes depende cada vez mais de fatores como “a previsibilidade no acesso, a eficiência administrativa e a transparência nos custos”, para além da qualidade clínica.
O barómetro alerta ainda para os desafios que se colocam ao sistema em 2026, incluindo a sustentabilidade dos recursos humanos, conflitos laborais e a necessidade de reforçar a confiança dos cidadãos.
Sem uma resposta articulada entre setores, o risco é claro: “um sistema de saúde cada vez mais desigual, onde o acesso e a qualidade dos cuidados dependem da capacidade de cada cidadão em pagar ou navegar no sistema”, conclui o responsável.
- Noticiário das 6h
- 14 abr, 2026








