Dia Mundial da Saúde
"Médicos não podem estar todos os dias a praticar medicina e a desconfiar do sistema"
07 abr, 2026 - 08:30 • Marisa Gonçalves , João Malheiro
Primeiro presidente da Entidade Reguladora da Saúde diz que não falta qualidade formativa aos profissionais, mas têm faltado, ao longo dos anos, as condições necessárias para retê-los no SNS.
Portugal tem um bom sistema de saúde, mas tem de se modernizar para deixar de estar na mediana da Europa e passar a fazer parte da vanguarda.
Neste Dia Mundial da Saúde, Rui Nunes, que foi o primeiro presidente da Entidade Reguladora da Saúde (ERS), diz que não falta qualidade formativa aos profissionais, mas têm faltado, ao longo dos anos, as condições necessárias para retê-los no SNS e que não passarão tanto pelos salários.
Para este especialista, "continua a ser um sonho para os jovens médicos e para os outros profissionais de saúde estar no SNS. Por isso é preciso combinar condições atrativas do ponto de vista salarial, mas sobretudo condições de trabalho, evolução na carreira, reconhecimento da sua atividade e uma nova forma também de lidar com a responsabilidade civil médica".
"Temos de encontrar uma solução. Os médicos não podem estar todos os dias a praticar medicina e a desconfiar do sistema e a desconfiar dos pacientes que lhes possam mover um processo de responsabilidade médica. Tem que ser a confiança entre as pessoas", defende.
Rui Nunes que é preciso uma nova visão para que tudo se traduza em melhor Saúde e numa melhor perceção do sistema.
O futuro deverá trazer uma reforma administrativa profunda, acrescenta o também professor catedrático de Bioética da Faculdade de Medicina do Porto que, nesse âmbito, entende que a recente criação do cargo de Diretor Executivo do SNS vem no sentido contrário daquilo que são as melhores práticas de gestão, ao nível internacional.
"Não se entendeu exatamente qual era o racional de centralizar ainda mais a saúde com uma figura de uma direção executiva que, no fundo, é uma função que devia ser desempenhada pelo próprio ministro da Saúde", considera.
"Está mais do que provado, por exemplo, nos países escandinavos e outros, que o sistema de saúde tem que ser gerido com maior proximidade, portanto de uma forma mais descentralizada, para que, precisamente, haja uma resposta e também uma responsabilização muito maior por parte de quem dirige o setor da saúde", aponta.
Quanto à reorganização das urgências de obstetrícia, que implica a criação de centros regionais e a mobilidade de equipas, Rui Nunes compreende a aplicação da medida e mostra-se favorável para que sejam racionalizados recursos, contudo alerta que o país deveria de ter um planeamento estratégico, a longo prazo para permitir a colocação de mais profissionais.
"Porque nós temos que ter esta capacidade para ver qual é e será a natalidade em Portugal e formar os recursos humanos necessários para o efeito", sublinha.
Para o primeiro presidente da ERS "o que também não é admissível é que haja crianças e bebés a nascerem nas ambulâncias e nos parques de estacionamento".
Também como membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Rui Nunes insiste na criação da especialidade de Medicina Paliativa, uma medida que diz não compreender porque é que ainda não avançou.
"Todos os estudos indicam que até podem poupar recursos. Claro que não é esse o objetivo central, mas, ajudaria na decisão política porque estamos a falar das pessoas mais frágeis e mais vulneráveis que há na sociedade e com menor poder reivindicativo. Portanto, isso exige uma maior sensibilidade por parte dos responsáveis políticos", apela.
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