Nuno Ribeiro da Silva
Ex-diretor da ENDESA em Portugal acusa Espanha de promover mentiras sobre razões do apagão
28 abr, 2026 - 10:30 • José Pedro Frazão
No programa "Da Capa à Contracapa", Nuno Ribeiro da Silva defende que Portugal está a "fazer o que deve" na resposta técnica ao apagão de 2025. O antigo Secretário de Estado da Energia acredita que se tudo tivesse acontecido à noite, o sistema português tinha tido "capacidade de encaixe"para as perturbações com origem no país vizinho.
Nuno Ribeiro da Silva acusa o governo espanhol de tentar fazer "fintas de corpo" para escamotear as responsabilidades que cabem a Madrid no apagão de Abril de 2025.
No programa " Da Capa à Contracapa", da Renascença, que esta semana debate os desafios do mercado energético português e europeu, o gestor lembra que, à data dos acontecimentos, ainda tinha responsabilidades na empresa espanhola ENDESA onde esteve durante 17 anos.
"A situação foi clara e óbvia no fundamento do apagão: má gestão, má programação, erro humano, erro técnico da Rede Elétrica de Espanha. Com várias 'fintas de corpo' o governo espanhol tem estado a escamotear - espalhando - responsabilidades, a dizer que as empresas elétricas tiveram responsabilidade também na zona A, na zona B e na zona C, e que a Rede Elétrica de Espanha fez tudo como deve ser. Sabem perfeitamente que é mentira", acusa Nuno Ribeiro da Silva na Renascença.
O especialista em energia afirma que estes dados constam dos relatórios da ENDESA e das outras empresas de eletricidade, elaborados por "pessoas independentes que não estão na malha das retaliações do governo espanhol, credibilíssimas, tecnicamente com muita experiência e muito sólidas".
Ao contrário, Ribeiro da Silva denuncia a politização da Rede Elétrica de Espanha: "A administração são ministros que transitaram do governo do PSOE para a direção da empresa", afirma o gestor português, lembrando que as companhias de seguros no país vizinho vão pedir compensações à empresa ou ao governo de Madrid.
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O erro espanhol
O que se passou em Espanha no dia 28 de Abril de 2025 foi "um erro de programação da forma como a Rede Elétrica de Espanha programou o aprovisionamento da procura nesse dia", sustenta o ex-gestor da ENDESA, alertando para sinais de dias anteriores no mesmo sentido.
"Isto acontece não por um problema qualquer das renováveis, mas porque a programação foi mal feita", insiste Nuno Ribeiro da Silva no " Da Capa à Contracapa" da Renascença, em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos.
"A programação do chamado mix de geradores que tinham que contribuir para alimentar a procura, não era equilibrada. Não tinha as chamadas 'centrais síncronas', com fornecimento de energia reativa à rede. Isso levou a que o sistema elétrico entrasse numa vibração que acabou por levar à 'perda do controle da bicicleta e o ciclista cair mesmo para o lado'", explica este especialista insistindo num "erro técnico".
Mantendo um registo de metáforas, o ex-diretor da ENDESA em Portugal explica que poderia haver redundância no sistema se ele tivesse sido programado de forma equilibrada em Espanha.
"Era como se eu tivesse um acidente na autoestrada, porque programei que fazia uma média de Lisboa ao Porto a 220 quilómetros por hora, com um carro antigo e que não é seguro", refere.
Nuno Ribeiro da Silva explica que os desequilíbrios ocorridos em Espanha para que ocorresse o apagão poderiam ter sido atenuados se tivessem ocorrido à noite.
"Àquela hora, naquelas situações e naquele dia estávamos com uma importação enorme de eletricidade gerada em Espanha, porque o preço era zero. Se fosse, por exemplo, à noite, em que não havia tanto fotovoltaico no sistema ibérico, estaríamos com centrais mais síncronas, ou seja, com centrais a gás ou barragens com armazenamento a funcionar. E o sistema tinha tido capacidade de encaixe dessa perturbação que veio de Espanha", admite o antigo governante na Renascença.
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Lições para o futuro
Um ano depois, Nuno Ribeiro da Silva sustenta que Portugal está a responder bem ao sucedido. "Estamos a fazer demasiado bem, mas isso levava-nos para uma outra discussão, porque estamos a usar demais as centrais a gás", explica na Renascença.
"Independentemente da programação do sistema ibérico, colocamos sistemas de resiliência em cima disso. As barragens ou essas centrais dão a tal estabilidade e sincronismo ao sistema, e compensam a variabilidade que pode haver no aerogerador ou nas oscilações normais do solar ou do vento. Essas centrais dão estabilidade ao sistema, como amortecedores que travam a vibração que pode vir de fontes com características de maior volatilidade, como os aerogeradores", diz.
O ex-diretor da ENDESA recomenda uma análise de novos mecanismos de programação do despacho elétrico e uma avaliação de equipamentos "que existem no mercado e que podem ser aditados às subestações, às centrais de geração, sobretudo nas regiões da Península Ibérica, onde o peso da geração está mais centrado na energia vinda do fotovoltaico".
Estas medidas podem conferir mais "segurança e resiliência na rede", dado que o sistema que está em mutação. "Isso é possível, mas requer investimento", alerta Nuno Ribeiro da Silva.
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