Provas ModA: “Não há necessidade de tanta pressão”
27 mai, 2026 - 09:00 • Liliana Carona
À porta da Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos Ana de Castro Osório, em Mangualde, as Provas ModA deixam de ser apenas uma sigla. Entre mochilas, carrinhas escolares e a pressa do fim das aulas, tornam-se nervos, lágrimas, medo de errar e perguntas de pais e mães que não recusam a avaliação, mas contestam a pressão sobre alunos do 4.º e 6.º anos.
À entrada da Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos Ana de Castro Osório, em Mangualde, às quatro e meia da tarde, desenha-se a coreografia reconhecível dos dias de aulas. Há mochilas de rodinhas a bater no empedrado, crianças que saem a correr com pressa, adultos que vigiam o relógio, auxiliares que acolhem pequenos grupos e um portão verde que se abre sobre o recinto escolar. De um lado, a rua, os carros, os pais, as mães e os avós; do outro, a escola, as salas, os computadores, as aprendizagens e, agora, uma palavra que entrou no vocabulário das famílias com mais peso do que aparenta: Provas ModA, as Provas de Monitorização da Aprendizagem, obrigatórias, digitais e dirigidas a estudantes dos 4.º e 6.º anos de escolaridade.
Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui
Entre a normalidade da rotina e a excecionalidade da avaliação, percebe-se que o tema entrou nas casas. Não necessariamente porque as provas contem para a nota — essa explicação é repetida por professores e pais —, mas porque o simples ato de ser chamado a responder perante um computador, num formato obrigatório e calendarizado, tem, para algumas crianças, o efeito de uma sentença antecipada. Pelo menos, é essa a opinião de Anne Santos, 43 anos, ajudante de ação educativa na Obra Social Beatriz Pais. Está habituada a lidar com crianças, rotinas, inseguranças e pequenas manifestações de ansiedade que nem sempre chegam ao olhar público. Veio buscar meninos do ATL e fala também enquanto mãe de Raquel Lopes dos Santos, aluna do 4.º ano.
“Eu acho que é pressão a mais para as crianças no 4.º ano já estarem com essas provas”, afirma Anne Santos, sem rodeios. Não vê “grande utilidade” nesta avaliação tão precoce e convoca uma memória coletiva. “Antigamente também não havia nada disso e fizeram-se boas pessoas, bons engenheiros, bons profissionais”, recorda.
“A minha filha chora com os nervos”
Anne não recusa o acompanhamento escolar, nem desvaloriza a importância das aprendizagens. Pelo contrário, sublinha que em casa apoia a filha e tenta ajudá-la, ao mesmo tempo que reconhece o empenho da professora. “A professora também é uma excelente profissional, também tem trabalhado com eles nessa área”, refere. O problema, para esta mãe, não está no trabalho docente, nem sequer na existência de instrumentos de acompanhamento. Está na idade das crianças e na forma como a prova, mesmo sem impacto direto na nota final, se transforma num acontecimento emocional.
A filha já realizou provas de ensaio, pensadas para testar procedimentos e preparar os alunos para o formato digital. Esse momento, que à partida deveria servir para acalmar, já foi suficiente para despertar sinais de ansiedade. “Ela já ia um bocadinho nervosa”, conta Anne. Em casa, procura retirar peso ao momento, dizendo-lhe que “o que calhar, calhou” e que ninguém se vai zangar com ela se o resultado for fraco.
“Ela fica mesmo nervosa, ao ponto de começar a chorar com os nervos, ter medo de errar”, descreve a mãe. “Porque ela tem muito medo de errar, pequenas coisinhas que vai demonstrando.”
Por isso, a posição de Anne é clara. “É desnecessário implementar já tanta pressão nas crianças com esta idade”, insiste. E a palavra “desnecessário” surge como centro da sua inquietação. Anne Santos resume, com a limpidez de quem fala a partir da vida e não de um gabinete, o sentimento de muitos pais: “Não há necessidade de tanta pressão neles”.
Lara, nove anos, entre a confiança e a insegurança
Também Layne Ximenes, mãe de Lara Medeiros, de 9 anos, olha para as Provas ModA com prudência. Veio do Brasil há pouco tempo e, por isso, começa por reconhecer que ainda não tem uma opinião completamente formada sobre o sistema português. A sua posição nasce dessa experiência de chegada, de quem observa por dentro, mas ainda com alguma distância crítica. “A gente veio do Brasil e não tem tanto conhecimento para que servem, de facto, elas”, explica. Mesmo assim, deixa uma crítica que muitos encarregados de educação também partilham.
“Acho que uma prova de conhecimento para quem está a começar talvez não fosse de tão grande valia”, considera. E insiste no tema: “Talvez estas provas fizessem mais sentido quando eles fossem mais crescidos, quando tivessem mais maturidade, mais domínio dos conteúdos e, sobretudo, mais capacidade para compreender o lugar de uma avaliação no percurso escolar”.
Lara fala num registo mais tranquilo do que o da mãe. “É aquela prova que eu vou fazer lá em cima?”, pergunta, enquanto a mãe acena afirmativamente. Depois, continua: “Eu acho que é uma boa ideia, porque as crianças vão aprender a mexer nos computadores com mais facilidade e acho que nós vamos conseguir fazer isso com sucesso.”
Ainda assim, admite algum receio. “Eu estou mais ou menos nervosa, porque sei como se faz, mas às vezes sinto-me muito insegura com o que vai calhar naquele teste, com o que vai acontecer”, confessa.
Lara sabe que já tem experiência, diz que faz isto “há quase dois anos” e acredita que vai conseguir. Layne confirma que a filha parece tranquila, embora identifique um nervosismo específico. “Acho que o nervosismo é mais sobre mexer no computador”, observa. Na sua leitura, os conteúdos não são o principal problema — até porque Lara é “muito boa aluna” —, mas sim a utilização da ferramenta: saber onde clicar, que opção escolher e como lidar com o ambiente digital da avaliação.
E haverá receitas para estudar para estas provas? Lara descreve um ritual silencioso e autónomo. Pega num livro, revê as matérias em que sente mais dificuldades, passa também pelas áreas que domina melhor, mas que quer reforçar, e recolhe-se no quarto, “em silêncio, com a luz acesa”. “Estuda sem ajuda”, interrompe a mãe.
- Noticiário das 15h
- 18 jul, 2026










