Reportagem
Bairro onde vivia Odair Moniz teme novo "inferno" após sentença
15 jun, 2026 - 11:45 • João Cunha
No dia em que é conhecida a sentença do agente da PSP que matou Odair Moniz na Cova da Moura, em outubro de 2024, a Renascença foi perceber o que espera da justiça quem vive no bairro do Zambujal, onde vivia a vítima. Uma certeza: se não for condenado haverá de novo tumultos.
Sai de casa com dois grandes sacos de lixo na mão. Num há cartão, no outro, vidro. Passa ao lado de uma embarcação em cima de um atrelado, presa com uma corrente e cadeado a um poste de eletricidade da rua, para depositar ambos nos respetivos contentores. Sacode os sacos já vazios, que depois dobra meticulosamente até terem o tamanho de um pequeno quadrado e afasta-se.
"Porcaria... porcos", diz este idoso, em voz alta, como se quisesse que alguém nos edifícios vizinhos ouvisse e, da próxima vez que viesse ao lixo, não errasse o caixote e permitisse que gaivotas e pombos, em frenesim, se ocupassem dos restos de comida.
Do outro lado desta rua no Bairro do Zambujal, mãe e filha adolescente chegam à paragem de autocarro. Sabem ambas que acaba esta segunda-feira o julgamento do agente da PSP que com, dois tiros, matou Odair Moniz, em outubro de 2024, na Cova da Moura.
"É assim: eu espero bem que o polícia seja condenado, muito sinceramente, senão isto vai virar outra vez um inferno", lamentava Ana (nome fictício), que teme novos tumultos caso a decisão da justiça seja uma pena suspensa.
Ana lembra-se bem desses dias, há cerca de ano e meio, em que não conseguiu sair de casa com medo. Depois da morte de Odair, que vivia no Bairro do Zambujal e morreu numa operação na Cova da Moura, houve focos de destruição e confrontos diretos com as autoridades. Queimaram-se pneus, houve danos em viaturas, houve fogo posto num autocarro da Carris e pedras lançadas contra a polícia, que, entretanto, montou um forte cordão policial e estendeu a vigilância a várias zonas limítrofes da Grande Lisboa para conter a propagação dos tumultos.
"Acho que sim, que pode voltar a acontecer, porque eles [a família de Odair Moniz] querem justiça", admite Teresa (nome fictício), outra residente no bairro, que sai do autocarro para seguir para casa, depois de mais uma noite de trabalho.
"Que seja feita justiça. Mas olhe que nem estou a favor de um nem a favor de outro", sublinha a moradora, que confessa, no entanto, que o que ouviu dizer no bairro é que a vítima não parou numa operação STOP e teria uma arma branca no momento em que foi travado pelas autoridades. Se assim tiver mesmo sido, defende a moradora, não compreende por que motivo o polícia possa ser condenado, pois teria feito apenas o seu trabalho. Ainda para mais, diz, “a polícia tinha-o debaixo de olho”.
Gonçalo (nome fictício) está com um menino ao colo e outro pela mão, a caminho da casa de um familiar, onde vai deixar as crianças.
"Conhecia o Odair, sim. Sou do bairro, cresci aqui. Não tenho razão nenhuma de queixa dele".
Então, como se explica o que aconteceu?
"São situações que acontecem. O que falaram nos media... a gente não sabe se é verdade ou mentira, se ele 'ia' com álcool ou se não ia, se fugiu ou não fugiu. O que sei, do que conhecia dele, é que era uma pessoa cinco estrelas. Era espetacular", assegura.
Quanto a muitos dos que vivem no bairro - e que aceitaram falar com a Renascença - o que esperam é uma condenação.
"A gente só quer justiça. O que é que eu posso dizer sobre o policia: se calhar era muito novo para a situação, se calhar teve medo... somos seres humanos. Quem é que errou? O polícia? O Odair? Não sei. Que sejam justos para as duas partes", pede um dos habitantes, que também acredita que, em caso de condenação com pena suspensa, os tumultos podem regressar ao bairro.
"Não sei se vai ser da mesma dimensão, mas é possível que haja de novo tumultos. Porque não será justa uma pena suspensa. Perdeu-se uma vida. Terá de haver prisão efetiva", remata.
- Noticiário das 16h
- 20 jul, 2026








