Reportagem em Agualva-Cacém
“Não é preciso muito para um autocarro levar alguém”
08 jul, 2026 - 11:03 • João Cunha
A Renascença voltou ao cenário do acidente de terça-feira, na estação de Agualva-Cacém. Quem ali apanha todos os dias um autocarro admite insegurança, passageiros a mais e autocarros a menos.
O terminal junto à estação ferroviária de Agualva-Cacém é um túnel onde só entram autocarros para largar e apanhar passageiros. No interior, o túnel apresenta um tom amarelado, devido à luz artificial. O que divide o alcatrão do passeio onde os utentes aguardam pelos autocarros é apenas um lancil, com pouco menos de um palmo de altura. Em lugares em espinha, os autocarros lá vão parando e saindo.
"O problema é que as pessoas estão mesmo à beira do passeio. Não é preciso muito para um autocarro levar alguém", lamenta Sandra Brinco, sublinhando que a situação causa "muita insegurança" em quem por ali espera por um autocarro.
A insegurança agrava-se com a multidão que, em horas de ponta, ali chega ou dali pretende sair num dos amarelos da Carris Metropolitana. À espera de um desses está José Carlos Marques, que confessa ser o quinto ou sexto dia que ali está, de manhã, para ir para a obra nova onde trabalha.
Mesmo com poucos dias de viagens, já notou uma diferença em relação a outras paragens. "É o número de autocarros na mesma paragem. Ali a quatro, que é a que eu vou apanhar, tem uns oito ou dez autocarros a parar ali. Claro que as pessoas se aglomeram na mesma paragem", diz, apontando para as filas imensas de passageiros que confluem à mesma paragem, nas horas de ponta da manhã e da tarde.
Acresce a isto outro dado, destacado por Adelina Batista: com o fim do ano escolar, reduziu-se ao número de autocarros em cada carreira. "Cada vez há menos e agora, como os miúdos deixaram de ter escola, não se lembram que os pais e as mães dos miúdos têm de trabalhar, e reduziram os autocarros, ainda por cima."
Menos autocarros a circular, mais gente à espera... Ao fundo do túnel, numa outra das muitas paragens ali existentes, Fátima Sá aborda com outra habitual passageira da carreira 1220 o trágico acidente de ontem, que provocou duas vítimas mortais. E confessa que há outra coisa que a preocupa.
"Tenho medo, por vezes, é da condução dos motoristas. Nós apanhamos certos motoristas que são horríveis, andam em excesso de velocidade nas curvas, sem cuidados para com quem viaja de pé", desabafa.
Chega o autocarro, saem dezenas de pessoas e entram outras tantas. Há quem saia e pareça procurar o pilar onde se deu o acidente. Lá está ele, lá mais à frente, junto à entrada para a estação. Há quem entre no terminal apenas para procurar identificar o pilar da tragédia.
"Estou reformado, não tinha nada para fazer e como moro aqui perto"... confessava um idoso, de bengala na mão, que com um amigo discutia o que podia ter provocado o acidente. Os dois calam-se, de repente, ao perceber que deles, ali mesmo ao lado do fatídico pilar, se aproximava um homem, de lágrimas nos olhos e com um ramo de flores na mão.
Coloca-o na base do pilar e retém-se, por breves instantes. Seca as lágrimas e entra na estação, a caminho do trabalho.
"A vida continua", disse, "mas quem já se foi não volta mais".
- Noticiário das 23h
- 22 jul, 2026














