20 abr, 2015 - 08:16 • Paula Caeiro Varela
Uma sala pequena, que já foi de cinema e é agora um auditório multiusos, com mais cadeiras vagas do que ocupadas. Um partido novo que se abre a uma candidatura cidadã ainda mais recente, que era Livre e agora se apresenta como "Livre/Tempo de Avançar".
No segundo congresso, realizado, no domingo, no Centro Comercial Pescador, na Costa da Caparica, o partido fundado por Rui Tavares mudou de nome e deverá apresentar-se nos boletins de voto das legislativas como L/TDA (Livre/Tempo de Avançar). Antes, vai fazer primárias para escolher os candidatos e um referendo interno sobre as eleições presidenciais.
Em entrevista à Renascença, Rui Tavares afirma que já há contactos em curso com os partidos da esquerda para um acordo que deve ser fechado antes das eleições. Mas só isso. Coligações pré-eleitorais estão fora da discussão.
A proposta para um acordo pré-eleitoral que garanta uma nova maioria de esquerda já está em andamento. O Livre/Tempo de Avançar vai enviar, em breve, uma carta aos partidos da esquerda parlamentar a propor a discussão de soluções para preocupações comuns dos vários partidos e dos eleitores, adianta Rui Tavares: "Se tivermos resposta que dê condições para avançarmos, faremos uma mesa redonda para discutir a 'Agenda Inadiável' de que os portugueses necessitam".
Essa agenda implica apresentação de respostas concretas aos "três D" - desemprego, desigualdades e dívida – e aos "três P" - precariedade, privatizações e política. O objectivo, explica Tavares, é encontrar "propostas em cada um destes temas que possam caber numa folha A4, ou em duas, e que, no fim, tenha o compromisso destes partidos de que os seus deputados e deputadas, no primeiro dia da nova legislatura, vão começar a trabalhar com propostas concretas".
Entre as diferenças que os separam e as preocupações que unem os partidos à esquerda, Rui Tavares acredita na possibilidade de ter esse consenso fechado e assinado antes das legislativas, "para que os eleitores tenham a confiança de que, respeitando as diferenças, no dia do voto, há uma maioria de mudança, de esquerda, contra a austeridade, uma maioria progressista que defenda as liberdades e os direitos que estão na Constituição".
Nova maioria de esquerda, sim. Coligações pré-eleitorais, não
Um ponto é rejeitado pelo Livre/Tempo de Avançar: o estabelecimento de coligações pré-eleitorais. Rui Tavares é claro: "Esta candidatura vai sozinha a eleições e não temos nenhum tratamento diferenciado em relação aos partidos de esquerda".
É para o PS, o BE e o PCP que fala o Livre/Tempo de Avançar. Depois das eleições, sim, haverá novas formas de trabalhar em conjunto, no Parlamento. "Claro que vamos todos lutar para ter mais votos, mas eu espero que no dia a seguir às eleições estejamos nas bancadas da Assembleia da República dispostos a dar respostas aos mesmos problemas nacionais e estou certo de que haverá ocasiões em que trabalharemos juntos e bem com Os Verdes, PCP, Bloco de Esquerda ou PS", vaticina Rui Tavares.
O principal rosto do Livre/Tempo de Avançar não deixa, todavia, de avisar: quantos mais votos no Livre, maior será a certeza de que BE e PCP serão puxados para a convergência e de que o PS será "puxado" para o lado da esquerda. O PS, apesar de assumir um discurso contra a austeridade, "tem matizes, tem imperfeições, um discurso que é muito lacunar, que é muito ambíguo (...) Tem que, de uma vez por todas, consolidar as suas ideias e saber de que lado é que está", sustenta.
Dar uma "lição à política tradicional"
A abertura à participação dos cidadãos no Livre/Tempo de Avançar passa pela realização de primárias para escolher os candidatos às próximas eleições legislativas.
Rui Tavares tem uma certeza: "Os cidadãos, ao contrário do que nos dizem, não estão alheados, não estão ausentes. Os cidadãos podem abster-se no momento de ir votar, mas não se abstêm dos problemas da sua vida e a maneira de trazer os cidadãos para a política é tratá-los como seres inteligentes e adultos que são e apresentar-lhes uma forma de fazer política na qual eles possam participar”.
Essa é a "lição à política tradicional" que o Livre-Tempo de Avançar quer dar, já em Outubro.