15 set, 2015 - 09:01 • Henrique Raposo
Sigo há muitos anos uma regra de ouro: com raras excepções, o interesse mediático de um fenómeno nunca corresponde ao seu interesse político ou moral. Exemplos? A crise dos refugiados já era muitíssimo mais importante do que a Grécia na primeira metade do ano, mas nessa altura a agenda mediática só discutia a careca luzidia mas pouco luminosa de Varoufakis. Agora meio mundo anda a discutir o busto luzidio e deveras luminoso de Joana Amaral Dias; ao lado, a proposta séria de Rui Tavares e do Livre/Tempo de Avançar não recolhe nem metade da atenção que merece. Conclusão a retirar? Rui Tavares também devia tirar a roupa ao estilo de “The Full Monty” para que todos assimilassem o óbvio ululante: o Livre/Tempo de Avançar é o partido mais inovador da política portuguesa desde o PREC. Aliás, Rui Tavares, Sá Fernandes, Carlos Brito, entre outros, representam a esquerda anti-PREC, a esquerda que deseja finalmente acabar com o perfil virginal do esquerdista português. Que perfil é esse? PS, PCP e BE até podem ter 65% do parlamento, mas são incapazes de governar em coligação, oferecendo à direita a única solução estável de governação. O Livre rompe com esta tradição e assume que também quer governar. E vamos lá ver se nos entendemos: descobrir um partido à esquerda do PS que se mostra disponível para governar com o PS é mais ou menos como descobrir que Pinto da Costa é um benfiquista de armário. É uma revolução cultural.
Esta revolução começa no discurso político. Nos últimos quarenta anos, as pessoas de esquerda em Portugal assumiram sempre uma pose de superioridade moral perante as pessoas de direita. Os termos que desumanizam o “reaça” são conhecidos: “fascista”, “salazarista”, “reaccionário”, “neoliberal”, “ultramontano”, “beato”. No fundo, o progressista português trata o conservador português como a patroa trata a criada. Ora, o discurso de Rui Tavares contesta este nariz empinado da esquerda. O líder do Livre já afirmou que historicamente não existe qualquer superioridade moral das esquerdas sobre as direitas, e que a democracia só faz sentido se for um jogo dialéctico entre pólos diferentes mas de igual legitimidade. Há que aplaudir a coragem de Tavares, porque este discurso chega com quarenta anos de atraso e, mesmo assim, encontrará resistências junto do eleitorado típico da esquerda portuguesa, que aprecia - desde os vintistas de 1820 - o estilo tele-evangelista corporizado em Louçã. Ou seja, Tavares perderá votos para os radicais do Bloco só porque diz duas coisas: a esquerda não pode assumir que é proprietária da verdade e da moral, e um partido à esquerda do PS tem de se disponibilizar para formar coligações governativas, porque a linguagem da democracia não é a da intolerância dos “puros” que se julgam demasiado virginais para sujar as mãos na realidade ou até para se sentarem à mesa com os “impuros”. Como o leitor atento já percebeu, estamos perante um paradoxo: a qualidade do discurso do Livre é também o seu maior problema eleitoral. Este desejo de mudança de mentalidades à esquerda choca de frente com um eleitorado de esquerda que não está disponível para retirar a cabeça do PREC.
E existe ainda outra fragilidade no Livre. Aliás, esta fragilidade é talvez o seu ponto mais fraco: não tem um discurso coerente e constante contra o PCP, contra a herança histórica de Álvaro Cunhal. A falta de coragem na hora de atacar o cunhalismo é uma fraqueza por duas razões. Primeira: enquanto o PCP representar 10% do parlamento, a construção de uma coligação de esquerda entre PS e qualquer outro partido continuará a ser uma quimera. Segunda: a destruição do PCP só será possível quando a esquerda começar a criticar Álvaro Cunhal; a crítica à intolerância de Cunhal não pode ser coutada exclusiva de intelectuais e políticos de direita. Para alcançarem o que desejam, jovens políticos como Rui Tavares têm mesmo de criticar o lastro autoritário de Álvaro Cunhal. Mas isso já é outra conversa. Por agora, queria apenas sublinhar que Rui Tavares devia chamar os jornalistas para um show de strip num boteco qualquer do Cais do Sodré. Talvez aí recebesse atenção que merece.