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Marisa Matias: “Esta crise será vencida por quem venceu a última crise”

03 out, 2020 - 17:57 • Eunice Lourenço

Candidata presidencial apoiada pelo Bloco de Esquerda anuncia-se como herdeira de Pintassilgo e defende uma economia mais justa e transparente que leve Portugal a ultrapassar a “doença do atraso”.

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A Covid “acelerou a crise económica e social”, mas não a inventou, nem é a sua causa. As causas já lá estavam no “atraso” de Portugal e é contra elas que Marisa Matias, a candidata presidencial apoiada pelo Bloco de Esquerda, promete bater-se, convicta de que “esta crise será vencida por quem venceu a última crise”.

Ou seja, pela esquerda, que formou a geringonça na última legislatura e cujos partidos estão a negociar o Orçamento do Estado para 2021.

Quase um mês depois do anúncio formal da candidatura, no Largo do Carmo, em Lisboa, rodeada de profissionais que estão na linha da frente do combate à Covid-19, este sábado, Marisa Matias fez uma apresentação da candidatura de novo em Lisboa, no Pátio da Galé, onde novamente foi dado destaque a quem está nessa linha de frente, como o enfermeiro Mário Macedo que falou antes da candidata. Além dele falaram uma amiga de Marisa Matias, uma jovem, e o mandatário nacional da candidatura, Tiago Rodrigues, diretor do Teatro Nacional D. Maria II.

Marisa Matias começou por lembrar como a esquerda se juntou para ultrapassar a última crise e pôr em marcha políticas que levaram à recuperação de rendimentos. Foi essa esperança, disse, que levou às eleições presidenciais de 2016, onde alcançou 10%.

“Essa imensa energia de quem trabalha e não vive para truques, vantagens e podridão. Os votos que me deram foram de confiança nessa energia, de afirmação de uma esquerda que sabe o que quer”, lembrou.

Agora, são “tempos diferentes, num contexto novo e ameaçador” E, perante esta nova crise, volta a assumir a responsabilidade de uma candidatura com a qual promete lutar contra o atraso do país, uma “doença” que já existia antes da Covid.

“A pandemia acelerou a crise económica e social. Mas também é certo que não a inventou. Não foi a Covid que empurrou dezenas de milhares de jovens para cima de bicicletas e motas para serviços de entrega porta a porta, sem contrato e sem direitos. Não foi a Covid que criou os lares clandestinos, onde são maltratados tantos idosos. Não foi a Covid que inventou a soberba dos patrões que fecham a porta, despedem as trabalhadoras e abrem nova empresa ao lado. Não foi a Covid que inventou a violência sobre as mulheres ou as crianças. Não foi a Covid que inventou a corrupção ou juízes ao serviço de traficantes do futebol. Tudo isso já existia antes da doença e é outra ameaça sobre o nosso país”, disse a candidata, desta vez, num discurso mais longo do que o breve anúncio feito a 9 de setembro.

“Por cima da crise sanitária, temos a crise social. Os seus efeitos recaem de forma desigual sobre a população, os mais pobres e os esquecidos são sempre as primeiras vítimas, o desemprego é uma praga, a vulnerabilidade cresceu. Em poucas palavras, Portugal está aflito”, disse Marisa Matias, para quem essa aflição tem razão imediatas e que serão superadas, ainda que demore alguns meses.

“Mas há outra doença que nos ataca e que nunca nos quer largar: é o nosso atraso, é o que nos falta nos centros de saúde e hospitais, é o abandono escolar, são as atividades poluentes, é o desemprego, é a falta de investimento que constrói qualidade de vida, é a fraude e a mentira”, prosseguiu a candidata que defende a necessidade uma economia mais justa e transparente.

“Uma economia mais justa tem de assentar em transparência e respeito. Transparência no combate à impunidade dos financeiros, à corrupção das portas giratórias do poder, à fuga fiscal de quem mais tem. A resposta aos nossos problemas estruturais impõe medidas corajosas de controlo público, de reforço de incompatibilidades, de investigação e repressão do crime económico, financeiro e fiscal, de escolhas estratégicas pelo ambiente e pelo emprego”, defendeu, afirmando-se candidata contra “os que nada querem fazer e que estão satisfeitos com os seus privilégios”.

Para a candidata “há, de Trump à Europa, uma mistura de políticos em segunda mão com advogados de negócios, com especuladores, com saudades da impunidade, que procura embrulhar um programa de atraso com a violência contra os trabalhadores, os pobres, as mulheres, os imigrantes” E com a sua campanha, promete dar voz a uma “enorme maioria” que tem orgulho das “várias cores” da democracia.

“É por isso que vos digo que esta crise será vencida por quem venceu a última crise, há cinco anos. E quero dirigir-me a essa imensa maioria que, com o seu trabalho e a sua luta, todos os dias constrói este país. Não encontrarão nesta candidatura o conformismo de quem quer que tudo fique na mesma. Encontrarão, isso sim, a força determinada de quem, convosco, vai à luta pelas soluções que protegem Portugal: a segurança do emprego e do salário, a garantia de uma democracia que queremos forte e de um país que queremos livre”, declarou Marisa Matias que, no seu discurso, fez várias referências muito aplaudidas a Maria de Lourdes Pintasilgo, a antiga primeira-ministra que foi candidata presidencial em 1986, tendo obtido cerca de 7 por cento na primeira volta.

“Pintasilgo não foi “apenas” a primeira mulher candidata à Presidência da República. Ela marcou Portugal com a sua mensagem de solidariedade - no modo como vivemos está já o modo como viverão os nossos filhos. Julgo que desse sentido de responsabilidade podemos retirar a melhor definição de país: uma comunidade capaz de se questionar hoje sobre o que quer ser amanhã”, lembrou Marisa Matias, que também lembrou o trabalho de Pintasilgo, em 1994, como relatora da Comissão Independente sobre População e Qualidade de Vida constituída pelas Nações Unidas. O relatório teve um título “Cuidar do Futuro”. E é cuidar que Marisa Matias também quer.

“Como Pintasilgo, sei que as eleições presidenciais não estão acima da política. Quem ocupar a Presidência não será um adorno nas escolhas decisivas que temos pela frente. Como Pintasilgo, sei que os princípios da nossa Constituição são guias essenciais que devem apontar caminhos a quem responde pela República. Cuidar o futuro é não temer as escolhas decisivas de hoje”, afirmou a candidata e dirigente do Bloco de Esquerda, usando assim duas referências também caras à candidata Ana Gomes: a herança de Pintasilgo e o verbo “cuidar”.

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