Legislativas 2025
Não há político que arrisque falhar a Ovibeja. O que fica depois de a caravana passar?
06 mai, 2025 - 06:00 • Catarina Santos
Imigração é tema para levar muito a sério num setor e região com grave escassez de mão-de-obra. Praticamente todos os partidos passaram pela feira agrícola mais famosa do Alentejo. Produtores esperam que não se esqueçam dos muitos recados que levaram, depois de 18 de maio.
Dezenas de queijos de Serpa e uma cesta de tostas emolduram os três elementos da família Charrua, atarefada e a dar tudo nas últimas horas de feira. Apesar da chuva, que este ano intimidou visitantes, “estar presente na Ovibeja é sempre bom, porque é um dos certames mais importantes do país e conseguimos escoar uma boa parte do nosso produto”, considera Joaquim Charrua, o mais novo do clã, auxiliado nas vendas pela mãe e pelo irmão.
A banca, estacionada perto da entrada de um dos pavilhões, é um ponto estratégico para dar conta dos reboliços repentinos que tomam conta dos corredores. Foram constantes os momentos em que uma procissão de bandeiras e câmaras de televisão atravessou o espaço, entre 30 de abril e o último domingo.
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Nos cinco dias de feira, ainda em pré-campanha, passaram por ali quase todas as caravanas políticas. Não faltaram sequer o atual Presidente da República e o candidato ao cargo com campanha mais ativa, Luís Marques Mendes.
Nem por isso Joaquim parou o trabalho. “Vi passar alguns, vêm fazer o que têm a fazer. O que é para fazer, pouco fazem.” E o que falta fazer, defende o queijeiro, é criar “incentivos à produção de leite”. O resto, afirma, “é cenário” e dura pouco.
"Isto é um certame que mete aqui muito dinheiro e pessoas e compete-lhes aparecerem e fazerem a melhor figura possível", sentencia.
Joaquim garante que não lhe faz diferença o desfile de figuras políticas e que muito menos terá influência na sua intenção de voto. "Durante a campanha, é tudo muito bonito. O que conta, realmente, é durante o período que não é campanha.”
“Se não fossem os estrangeiros, estava complicado”
Paula Bento, da padaria em frente, é um pouco mais otimista. “É capaz de levarem um conhecimento de como está o país.” Sobretudo o interior rural, “abandonado” e onde nota uma grande falta de mão-de-obra.
“Os jovens não ficam, vai-se tudo embora. E se não fossem os estrangeiros, estava complicado”, assegura.
O negócio familiar que Paula tem com o marido há 35 anos é um exemplo disso. A padaria Bento tem “oito empregados, tudo asiáticos” e sem eles seria impossível manter o funcionamento regular, "tanto na distribuição como no fabrico”.
Esta é uma preocupação que faz eco no pavilhão mais procurado da Ovibeja, onde nunca se está em silêncio. Entre o som dos chocalhos, dos balidos das ovelhas e do mugir das vacas, o veterinário Miguel Madeira confirma: a falta de mão-de-obra, sobretudo jovem, é um assunto debatido por ali “repetidamente, há dois ou três anos”.
Vice-presidente da ACOS - Associação de Agricultores do Sul, que organiza a feira agrícola, Miguel Madeira sublinha que o tema foi discutido “abertamente” em seminários desta 41.ª edição da Ovibeja.
Alentejano nascido e criado nas redondezas, sintetiza numa imagem o esvaziamento daquele território. “Na minha aldeia, na minha juventude, nós fazíamos duas equipas de futebol de 11 e ainda ficavam alguns no banco. Atualmente, na minha aldeia não se consegue constituir uma equipa de futebol de cinco.”
É claro para quem vive na região que, mesmo com outros incentivos, "não é só a agricultura que vai contribuir para a fixação” de jovens.
“Nós, para fixarmos pessoas na agricultura, temos de ter saúde, temos de ter educação, temos de ter cultura, temos de ter acesso às novas tecnologias. Tudo isto conta.”
O caminho é longo e não se vai cumprir "ao estalar dos dedos”, pelo que a imigração é uma necessidade incontornável no momento - tanto no perímetro de rega do Alqueva como na zona do sequeiro, onde “a população está muito envelhecida”.
Com o tema migratório a tomar conta de boa parte da campanha eleitoral, o médico veterinário vê com bons olhos as alterações à lei da imigração introduzidas pelo atual governo. “O objetivo é que a imigração venha de forma regrada e que as pessoas não venham com falsas expetativas”, sustenta.
“Que cheguem cá e de facto trabalhem, que recebam condignamente e que tenham casas onde vivam condignamente, onde consigam constituir família ou fixar as suas famílias.”
Reportagem Renascença
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“Alguma coisa passa" e pode dar frutos
A conversa com a Renascença acontece a poucos passos do local que concentra mais curiosos naquele pavilhão. Há dezenas de pessoas empoleiradas nas grades de um ringue e outras tantas numa bancada com lugares sentados. A banda-sonora faz pensar em máquinas de barbear. A agitação eleva-se quando os tratadores empurram três ovelhas para uma tosquia em série. É uma forma de “apresentar e divulgar o que se passa no meio rural”, afirma o responsável.
Os produtores são um importante público-alvo e o veterinário considera que este ano houve “uma representação muito diversa e abundante das várias espécies e das várias raças”, desde “os ovinos, que estão na génese desta feira, aos caprinos, bovinos e suínos”, não esquecendo os concursos de cavalos e de cães de raças portuguesas. Mas há também essa intenção de levar “o campo até à cidade”, possibilitando que os visitantes “de várias partes do país” possam perceber, por exemplo, que “as camisolas de malha são feitas a partir da lã de ovelha, do fio que daí resulta".
Beja é, há 41 anos, essa cidade-mostruário e, apesar da chuva, atraiu cerca de 100 mil visitantes na edição que terminou este domingo, de acordo com a organização.
Mas Beja é também uma cidade no interior alentejano, cuja distância ao centro de Lisboa parece, por vezes, maior do que os 175 km de estrada real. “Lisboa podia ficar mais perto se nós tivéssemos melhores acessibilidades. Beja continua a estar a 50 km da autoestrada mais perto e temos uma linha de comboio completamente, digamos, fora de moda”, lamenta Miguel Madeira.
O desfile de responsáveis políticos que este ano se proporcionou é visto, por isso, como uma oportunidade importante para encurtar distâncias. “Nós aproveitamos essa vinda deles para lhe apresentar os problemas que mais nos afligem no momento. Isso é muito importante, para conhecerem de viva voz o que afeta a produção pecuária, agrícola e florestal”, afirma o vice-presidente da Associação de Agricultores do Sul.
E, por mais que as comitivas que por ali desfilam tenham hora contada para a visita, Miguel Madeira acredita que “alguma coisa passa" e a experiência diz-lhe que “muitas vezes são feitos contactos que dão frutos posteriormente”.
Os chocalhos não se ouvem da Assembleia
Experiência diferente tem Guilherme Maia, que vende chocalhos numa das extremidades do pavilhão da pecuária. “O governo português comprometeu-se - fará este ano 10 anos - a salvaguardar a arte chocalheira e até hoje ainda não fez nada”, aponta.
Não é novidade que os responsáveis políticos marquem presença na Ovibeja e o dono dos Chocalhos Pardalinho garante que aproveita sempre para lhes expor as dificuldades do setor, considerado património da humanidade pela UNESCO em 2015. “Infelizmente, quando falo com alguns, todos dizem que sim, mas até hoje não foi feito nada.”
O que é urgente, diz, é que se criem "medidas de exceção para que se consiga tornar a arte atrativa para os jovens, para que eles tenham vontade de vir aprender e darem continuidade” ao fabrico de chocalhos. Os que têm tido formação na sua oficina acabam por não ficar, assegura, porque não há incentivos para que queiram “abraçar a atividade, tornarem-se empresários, tornarem-se artesãos”.
E não seriam apoios que significassem um grande rombo orçamental, sublinha. “Somos tão poucos ou nenhuns que os portugueses não seriam afetados com a benesse fiscal. E a arte não ia morrer.”
Apesar das circunstâncias, Guilherme Maia é um homem habituado a ver o copo meio cheio. Se a chuva deste ano lhe roubou clientes na feira, há de compensar mais à frente. Primeiro, porque “havia muita falta de água nas barragens e pouca comida e esta chuva é muito bem-vinda". Depois, porque o negócio não se faz sem paciência. “Não vendendo agora, iremos vender mais à frente, porque o criador, pelo facto de ter mais comida, anda mais motivado, dispende menos dinheiro em farinhas e compra mais chocalhos.”
Caroços de azeitonas a aquecer invernos
Mais esperançoso nos efeitos benéficos das romarias políticas de circunstância está Gonçalo Moreira, da Olivum - a Associação de Olivicultores e Lagares de Portugal. “Queremos sempre contribuir também para o trabalho que é necessário, que os partidos fazem na Assembleia, que as instituições todas fazem, que os organismos públicos fazem.”
À frente de uma banca onde se alinham vários exemplares de azeite prontos para prova, o responsável corrobora que alguma coisa “fica” do que é conversado com os líderes partidários que por ali passam. Consegue verificar a permanência dessa memória nos contactos que faz no resto do ano, com “diferentes partidos, diferentes organismos”, num esforço de "promoção do azeite, do olival, das boas práticas” e de defesa do setor.
Um setor que, afirma, cresceu “320%” em 20 anos, “em termos de produção”, e que está a sofrer alterações profundas — através, por exemplo, da implementação do Programa de Sustentabilidade do Azeite.
Esse avanço consegue-se também com decisões políticas aparentemente simples - como o despacho que, recentemente, alterou a classificação do caroço de azeitona, passando de resíduo para subproduto (como já acontecia em Espanha).
Efeito prático? O caroço de azeitona que resulta da extração de azeite “tem um poder calorífico muito grande: pode ser incorporado em pellets, pode ser queimado diretamente, pode ser incorporado noutro tipo de produtos, até mesmo para a elaboração de plásticos, plásticos automóveis, sacos de plástico e, portanto, abrimos aqui todo um leque de possibilidades”, elenca Gonçalo Madeira.
Sendo agora “considerado uma biomassa para aproveitamento energético”, é possível rentabilizar o produto e trazer “mais circularidade e mais sustentabilidade” ao setor.
O responsável defende que o mesmo processo de “agilização burocrática” deveria ser aplicado ao bagaço de azeitona que fica no lagar (cascas, resíduos da polpa e fragmentos do caroço da azeitona). Se passasse a ser considerado subproduto, poderia ser introduzido em pilhas de compostagem, criando “um composto para colocarmos no solo” e “fazer, efetivamente, a circularidade: vem da azeitona, é extraído e volta ao solo de novo”.
Isto permitiria, descreve Gonçalo Moreira, “aumentar os recursos para o nosso país, sem termos que utilizar outro tipo de produtos sintéticos, digamos assim, para a fertilização".
A “chamadinha de atenção” que Carla queria ter feito
De volta ao pavilhão dos produtos alimentares, Carla Fernandes serve os últimos queijos e enchidos aos clientes de fim de feira, atrás do balcão da Serpocarnes e da Queijaria Guilherme. A empresa não falhou uma edição da Ovibeja. Este ano, por causa do tempo, a venda foi mais fraca. "A nível dos vizinhos, toda a gente se tem queixado.”
Ainda assim, quem vem leva sempre "o queijinho Serpa DOP, que é o ex-libris" daquela banca. "Somos duas empresas situadas na margem esquerda do Guadiana. Ultrapassámos algumas dificuldades a nível de transportes e estradas. Estamos quase esquecidos, mas nós fizemos um grande esforço, durante todos estes anos, para conseguir o que temos hoje”, assegura.
Recados que gostaria de ter dado aos candidatos que passaram em comitiva por aqueles corredores, se a oportunidade tivesse surgido. “Até sou capaz de fazer uma chamadinha de atenção, se for preciso. Qualquer coisa que me desagrada, eu digo.” Mas não tem grande fé nos efeitos práticos. “Tantos anos de política... Nós estamos saturados. Acho que é sempre a mesma coisa. Ninguém faz nada. Mudança radical também não queremos, mas pronto, queremos que se faça alguma coisa.”
A estrutura onde trabalha emprega cerca de 60 pessoas, entre a produção primária, transformação e comercialização. Uma “excelente equipa”, afiança José Guilherme, dono das duas empresas. Todos são funcionários especializados, “conhecedores daquilo que estão a fazer” e “com muito amor à camisola”. Incluindo vários imigrantes.
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“Nós nas fábricas atualmente temos só portugueses, mas na produção da pecuária já temos alguns estrangeiros” — brasileiros e indianos —, adianta o responsável. “Nós formamos os estrangeiros, damos as condições para eles viverem”, assegura. "Isso faz com que eles sejam profissionais e nos que nos ajudem no nosso dia-a-dia.”
José Guilherme, que também é presidente da Associação de Produtores de Queijo de Serpa, teve oportunidade de se cruzar com Luís Montenegro e com o ministro da Agricultura, no dia em que visitaram a feira, e considera que há um potencial ganho nestes contactos. "É bom que eles conheçam a realidade. É bom que eles saibam o que é que se vive, o que é que se transforma, aquilo que se produz, aquilo que nós temos no nosso Alentejo”, afirma.
Espera que se faça uma “reflexão do que é que se vai fazer” para fixar jovens no território e para “que as pessoas consigam desenvolver atividades neste sector da agricultura”. À semelhança do queijeiro Joaquim Charrua, que encontrámos na entrada do pavilhão, José Guilherme considera que faltam apoios à produção de leite e à profissionalização do setor.
Dobrando a esquina, o vendedor Hugo aborda todos os que passam para oferecer frutos secos caramelizados. A concorrência é forte naquele canto do pavilhão e cada banca promete o produto mais apetecível. “Não vá a fugir que eu vou atrás de você”, avisa. “Prove lá essa maravilha”, ordena, depois de despejar duas avelãs na palma da mão.
Não é uma oferta que guarde para todos. “Não ligo a política”, assegura, pelo que não faz questão de se cruzar com as caravanas. “Não compram nada... O pessoal que tem mais poder de compra quer tudo dado”. Natural de Seia, garante que vai votar a 18 de maio, mas não adianta tentarem convencê-lo com campanhas. “Para mim não faz diferença nenhuma. Não é essa gente que me dá o pão do dia-a-dia. Nós é que temos de lhes dar a eles.”
“É importante eles verem tudo. Por exemplo, as estradas”
No exterior dos pavilhões, no recinto de 10 hectares, há espaços de equitação, expositores de máquinas agrícolas, roulotes de farturas e até um comboio de passeio, como num grande festival do mundo rural. Ao fundo, num espaço batizado de Pavilhão do Cante, alinham-se à hora do lanche, como se precisassem de certificar o nome, vários grupos de cantares que acabaram de atuar no evento.
Muitos dos pratos que lhes forram as mesas vêm do restaurante de leitões Bem Assado, com banca mesmo ali ao lado. Manuel Almodôvar acaba de servir mais uma leva e assegura que, “apesar de haver sempre coisas a modificar e para melhorar, compensa sempre estar nesta feira”. Natural de Beja, não hesita em afirmar: "É a melhor feira que nós temos na nossa zona.”
Almodôvar gostava que a atenção política que a região tem nesta altura se mantivesse no resto do ano. Não sendo possível, aproveita o que pode. “Beja, infelizmente, é uma terra esquecida da parte da política toda. Por isso, claro que é importante, durante este certame, eles virem cá.”
Desde logo, porque não podem vir a voar. “É importante para eles verem tudo. Por exemplo, as estradas é logo a primeira coisa que eles vão ver e, realmente, estão péssimas.”
Manuel Almodôvar garante que os candidatos com os quais se cruzou “ficaram um bocadinho para conversar e estiveram com os locais”. E espera que o que ouviram não se dissipe a 18 de maio, quando as bandeiras de campanha se pousarem e as comitivas voltarem a estacionar em Lisboa.
- Noticiário das 20h
- 16 mai, 2026













