Transportes
Transportes fora da campanha. "Precisamos de discutir o que deve ser a CP"
16 mai, 2025 - 21:11 • João Pedro Quesado
Especialista em sistemas de transportes aponta que "o próximo Governo vai ter que olhar com atenção" para a dificuldade dos transportes públicos — comboios e autocarros — em lidar com o aumento constante da procura depois da pandemia.
A ausência generalizada dos transportes na campanha eleitoral para as legislativas de 18 de março deve-se à falta de "visões contraditórias" entre os partidos sobre a gestão da mobilidade. É a avaliação de Carlos Oliveira Cruz, especialista em transportes, que aponta ser necessário "discutir o que deve ser a CP" sem o foco estar apenas na questão da privatização.
"Nós verificamos que na campanha eleitoral praticamente não se falou de transportes, o que de alguma forma é estranho, porque os transportes são um serviço essencial para as pessoas e são um serviço que a maior parte dos utilizadores, nos últimos anos, têm sentido crescentes dificuldades", apontou o professor catedrático do Instituto Superior Técnico, para quem "não há, agora, visões contraditórias".
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"Os partidos conseguem discutir se devemos ou não fazer grandes investimentos, ou que investimentos é que devemos fazer, mas depois não conseguimos discutir a forma como nós gerimos as redes, a forma como nós gerimos os serviços de transporte", sublinha Carlos Oliveira Cruz, apontando que, num "momento em que verificamos que os níveis de procura têm vindo a aumentar, mas o sistema tem dificuldade de responder, isto é algo que o próximo Governo vai ter que olhar com atenção".
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Uma questão que tende a surgir no debate político é a da possível privatização da CP, mas o investigador sustenta que essa é uma discussão "um pouco estéril".
"O que precisamos de discutir é o que é que nós precisamos, o que deve ser a CP. Se depois a CP deve ter uma gestão pública ou deve ter uma gestão privada, isso não é o central", defende o antigo assessor na secretaria de Estado dos Transportes, para quem "central é percebermos quais é que são os constrangimentos que a CP tem e o que é que nós precisamos de adotar, não só especificamente a CP, mas o sistema ferroviário nacional".
"Quando olhamos para as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, nós verificamos problemas de capacidade sérios nas linhas, Linha de Cascais, Linha de Sintra, no Porto na Linha do Minho, na Linha do Douro", linhas que, na avaliação de Carlos Oliveira Cruz, "não estão a responder aos crescentes aumentos de procura que se têm verificado". O necessário é, diz, "discutir como é que podemos aumentar a oferta nestes sistemas. A CP está a comprar mais comboios, o sector privado pode ou não ter algum papel aqui, de que forma, em que linhas".
Carlos Oliveira Cruz afirma ainda que o crescente congestionamento das estradas também devia ser discutido, já que "as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto têm níveis de congestionamento rodoviário muitíssimo elevados".
"Os municípios e as áreas metropolitanas estão a fazer o seu papel, que é o papel de melhorar as redes de transporte público", acrescenta, dando os exemplos da Carris Metropolitana em Lisboa e da rede Unir no Porto. "Sem uma gestão integrada das redes rodoviárias e do sistema de transportes públicos, nós não vamos conseguir inverter esta tendência que é termos, de facto, uma fatia da população cada vez maior a usar automóvel em vez de usar o sistema, o sistema de transporte público", onde a utilização também aumenta.
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