Filipe Sousa, o homem dos sete instrumentos que gosta de escrever canções e de resolver os problemas das pessoas
03 jun, 2025 - 07:00 • Manuela Pires
O novo deputado do Juntos pelo Povo é um dos seis eleitos pelo círculo eleitoral da Madeira. Nas legislativas de maio, o PSD elegeu 3 deputados, o Chega elegeu um, o PS perdeu um dos mandatos e elegeu apenas um deputado.
Filipe Sousa, 60 anos, andou na Força Aérea, foi sindicalista, deputado do PS na Assembleia Legislativa da Madeira e chega agora à Assembleia da República como deputado do Juntos Pelo Povo.
Em entrevista à Renascença, confessa que nunca pensou que o partido que fundou com o irmão na freguesia de Gaula fosse capaz de chegar tão longe. Toda a carreira política foi feita no poder local: primeiro, como presidente da Junta de Freguesia de Gaula e, depois, como presidente da Câmara de Santa Cruz.
Neste entrevista, Sousa diz que não vai ser um deputado "de gabinete” nem para estar sentado e que vai ter de “andar na rua para se inteirar dos problemas dos portugueses”.
Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui.
A primeira medida que vai tomar é apresentar um projeto de resolução para recomendar ao Governo que regulamente uma lei de 2019 sobre o pagamento das viagens de avião para as ilhas.
O deputado único do JPP, que se quer sentar no hemiciclo ao centro, entre o PS e o PAN, diz que vai estar no Parlamento para “construir e não destruir” e promete aprovar medidas do Livre ou do Chega se considerar que vão resolver os problemas “das ilhas” que identificou.
Filipe Sousa, que toca vários instrumentos de sopro e teclas e compõe músicas originais, gosta de jardinagem e de desporto. Já escolheu um ginásio que fica perto do Parlamento.
Quem é Filipe Sousa, o novo deputado da Assembleia da República?
Isso não é fácil de responder, mas, acima de tudo, é uma pessoa simples e humilde, e que, na sua trajectória de vida, sempre teve em mente a resolução de problemas e o bem comum. Eu comecei esta vida política em 1993-94 e essa atitude levou a que este projecto fosse ganhando alguma força e hoje, como sabe, somos a segunda força política na Madeira. O objectivo é levar este trabalho à República. É uma tarefa que eu reconheço que não é fácil.
Este fim-de-semana foi de despedidas. Foi, durante 12 anos, presidente da Câmara de Santa Cruz, foi também deputado pelo Partido Socialista e presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Empresa de Eletricidade da Madeira. E também é músico — ainda tem tempo para tocar todos os instrumentos?
Sim, há sempre. Quando se quer e se gosta, arranja-se sempre tempo. A música sempre esteve comigo desde criança. Hoje ainda não, mas ontem já toquei.
Os instrumentos que mais se adequam à minha trajetória de vida são os instrumentos de sopro — trompete, clarinete, saxofone — e teclas também: concertina, acordeão. É um hobby.
Mas já tocou em bandas?
Sim, mas normalmente toco sozinho. Gosto muito de compor músicas originais e, às vezes, alivia um pouco o stress. Também gosto muito de jardinagem e de atividade física.
Agora que vem para Lisboa, não vai ter tanto tempo ou vai trazer algum instrumento consigo?
Não, não. Mas normalmente é ao fim-de-semana que eu toco. E gosto muito de tratar da minha saúde física. Todos os dias tenho uma atividade física de uma hora e meia, duas horas.
Já percebi que é um homem disciplinado. O Juntos Pelo Povo é um partido de cariz regional, nasceu na freguesia de Gaula, existe desde 2015 e foi fundado pelo Filipe e pelo seu irmão, Élvio Sousa. Alguma vez pensaram que os irmãos de Gaula iam chegar tão longe?
Não, nunca me passou pela cabeça chegar a este patamar. Confesso. Não é que seja surpresa, é um misto, é um sentimento de algum reconhecimento, mas nunca pensei. Confesso que, quando fui presidente de Junta da minha freguesia, Gaula, durante dois mandatos, dizia sempre que um dia gostaria de governar o município de Santa Cruz.
Depois, aquela passagem pelo Partido Socialista deixou-lhe marcas negativas…
Cheguei a ser deputado pelo Partido Socialista…
Exatamente, chegou.
Mas o que me motivava muito era a ação, o poder executivo. Por isso, neste novo desafio agora na República, não vou ser um deputado de Parlamento, de escritório e de gabinete. Eu tenho de sair, gosto de perceber, conhecer. Já tenho duas saídas previstas para o Norte. No Peso da Régua, quero perceber o problema que aflige os produtores de vinho.
Mas, para além disso, vai ter de se inteirar de muitos problemas com que se deparam os portugueses que vivem no continente. Qual vai ser a sua primeira iniciativa?
Sim, os problemas da Madeira tenho-os na ponta da língua. E a primeira medida que vou tomar é apresentar um projeto de resolução, no sentido de fazer com que o Governo regulamente um diploma, que já foi promulgado pelo Senhor Presidente da República no ano de 2019, para entrar em vigor no ano de 2020. Infelizmente, os sucessivos Governos da República ainda não o regulamentaram. Esse diploma permite que os madeirenses e os porto-santenses paguem somente o subsídio de mobilidade aérea: 79 euros e 59 para estudantes. Porque o que acontece agora é que estão a ser fiadores do Estado.
Se for aprovado, muito bem. Se não for aprovado, não vou baixar os braços. Há outros mecanismos — judiciais, administrativos — para obrigar o Governo a regulamentar aquilo que é da maior justiça para os madeirenses e porto-santenses.
E já escolheu as comissões parlamentares que quer integrar?
Escolhi a primeira Comissão dos Assuntos Constitucionais, a Comissão do Sector Primário — a Agricultura — e também, no que diz respeito aos transportes, a Comissão de Economia. E, nas outras, serei um espectador muito atento, embora sem direito a voto. Mas vou acompanhar, até para perceber bem toda a dinâmica do Parlamento. Isto, para mim, é tudo uma novidade.
Diz que vai ser a voz das ilhas. O que é que isso quer dizer, em concreto?
Há as ilhas do ponto de vista geográfico, com todos os constrangimentos associados a esse facto, mas também são “ilhas” os problemas dos vinicultores, que não conseguem escoar a produção do vinho. São “ilhas” também os jovens que acabam o ensino superior e não têm oportunidade de trabalho. É uma classe média completamente arredada das oportunidades, porque os salários são baixíssimos. São idosos marginalizados e abandonados.
O JPP define-se como um partido liberal, mas de matriz social, e não está nem à esquerda nem à direita. Já avisou que não vai passar cheques em branco. Isso quer dizer que tanto pode aprovar propostas do Chega como do Livre?
No partido não temos linhas vermelhas. É claro que o Chega, com todo o populismo e radicalismo, muitas vezes mancha a classe política. Eu quero estar muito distante de tudo isso. Serei um deputado para construir e não para destruir, e esta construção faz-se com pontes. E, ao construir pontes, não podemos criar ali barreiras, senão vou ter de desviar a ponte.
Portanto, se eu verificar que há uma proposta válida da esquerda ou da extrema-esquerda, ou da direita e extrema-direita, que vai resolver os problemas que identifiquei nestas “ilhas”, não tenho qualquer tipo de preconceito em viabilizar.
Acha que o PCP começa mal ao anunciar que vai apresentar uma moção de rejeição ao programa do Governo…
Ao contrário da Madeira, o programa de Governo não é votado no Parlamento, e isso só acontece se for apresentada uma moção de rejeição…
Ah, não é… Eu ainda não conheço o programa de Governo, mas vou estudar…
Na noite eleitoral, disse que perdeu quatro quilos. Já os recuperou e está mais mentalizado para a tarefa que tem pela frente?
Ainda não recuperei, mas continuo com a mesma força. E já encontrei forma de recuperar. Tenho um ginásio aí perto do Parlamento. Vou fazer tudo para recuperar. A perda de peso é sinónimo também de um desgaste e também do peso da responsabilidade. Confesso que não me tirou o sono, é verdade. Mas depressa vou recuperar quando chegar à República.
- Noticiário das 14h
- 13 mai, 2026












