Presidenciais
Mariana Vieira da Silva espera por Vitorino. "Há 10 anos que não se conhece uma ideia a António José Seguro”
05 jun, 2025 - 05:01 • José Pedro Frazão
A antiga ministra socialista apela à clareza de todos os candidatos presidenciais sobre o que farão, por exemplo, em caso de chumbo do Orçamento do Estado. A deputada do PS argumenta que o posicionamento de Gouveia e Melo na última semana foi marcado por um “alinhamento com a direita e com o PSD, mais do que tinha afirmado inicialmente”, o que abre espaço a uma candidatura que “represente o centro-esquerda de forma alargada”. Mariana risca Seguro e aguarda o avanço de António Vitorino ou de quem “consiga agregar” este espaço político.
Mariana Vieira da Silva sobe o tom da crítica à candidatura presidencial de António José Seguro. No programa “Casa Comum”, da Renascença, a antiga ministra socialista lembra que, ”por decisão própria”, Seguro afastou-se da vida política há dez anos e “não se lhe conhece nenhuma ideia e nenhuma posição”.
Recuando aos anos em que foi secretário-geral do Partido Socialista, Mariana Vieira da Silva diz mesmo que “nem a forma de agregar todo o PS foi bem-sucedida” no seu consulado no Largo do Rato. Seguro antecedeu António Costa na liderança do PS e seria pela mão do hoje presidente do Conselho Europeu que Mariana Vieira da Silva chegaria ao Governo em 2015 como secretária de Estado Adjunta do Primeiro-Ministro.
“Não me parece que o trabalho político de António José Seguro nos últimos anos, e aquilo que representa, possa servir para agregar todo o centro-esquerda”, argumenta a antiga Ministra da Presidência, praticamente 24 horas depois de Seguro ter difundido um vídeo onde confirma ser candidato à Presidência da República.
Nessa declaração, Seguro afirma que “as pessoas estão fartas de promessas vazias, jogos partidários e discursos que nada resolvem” e assegura que não vem “da política tradicional”, frase que Mariana Vieira da Silva inclui nas “coisas muito particulares” que diz ter escutado “ao ex-secretário-geral do Partido Socialista e ex-secretário-geral da Juventude Socialista” António José Seguro.
“É muito difícil [haver] um perfil mais tradicional na política do que este. Essa procura por todos quererem ocupar um lugar de não-político parece prejudicial para o sistema”, responde Vieira da Silva.
A deputada socialista diz que não é possível banalizar as qualidades para ser Presidente da República. “Não tem nenhum mal. Não ter qualidades para ser candidato a Presidente da República não é a mesma coisa que [simplesmente] não ter qualidades”, acrescenta a dirigente socialista que insiste que Seguro não pode reclamar ser um não-político.
Vitorino ou outra pessoa que represente o centro-esquerda
Tal como sustentou para si própria no debate da sucessão a Pedro Nuno Santos nos dias seguintes à “derrota pesada” nas legislativas, também agora Mariana Vieira da Silva insiste que, face a Seguro, “há pessoas mais bem posicionadas para representar esse espaço político” do centro-esquerda.
A parlamentar socialista lembra que foram ventilados vários nomes, cujo posicionamento “ainda não conhece” e com quem Pedro Nuno Santos estava a fazer “o trabalho de ir falando” para perceber “quem é que está no terreno” entre os “potenciais interessados”.
Ressalvando que o Partido Socialista “não está num momento muito fácil” e “ainda que Carlos César também possa fazer esse trabalho”, Mariana Vieira da Silva está convicta de que ainda não estão todos os candidatos "em cima da mesa”. Sampaio da Nóvoa ainda é uma possibilidade? ”Não sei, eu apoiei Sampaio da Nóvoa”, lembra Mariana, nas eleições onde o PS voltou a dividir-se na altura também com a ex-presidente do PS Maria de Belém Roseira. E apoiaria novamente? “Vamos aguardar que as pessoas se posicionem”.
O perfil desejado pela dirigente socialista é o de alguém “que consiga agregar o centro-esquerda, numa situação difícil que é aquela que saiu destas legislativas, e poder fazer o diálogo necessário a quem ocupa o centro e a esquerda”.
“Ainda tenho esperança de que António Vitorino ou outro candidato que represente o centro-esquerda de forma mais alargada possa ser candidato”, concretiza Mariana Vieira da Silva.
Questionada sobre a possível repetição do cenário de sucessão de Pedro Nuno Santos, em que depois de muitas conversas - incluindo ponderação de Mariana, Fernando Medina e Duarte Cordeiro - apenas avançou José Luís Carneiro para a liderança, a deputada do PS considera que tal “é pouco provável e não desejável”.
A esquerda, o almirante e as decisões
Também as movimentações mais recentes de Gouveia e Melo entram na equação que Mariana Vieira da Silva faz à esquerda. “ A ideia de que Gouveia e Melo se posicionaria ao centro é menos verdadeira hoje do que era há 15 dias”, sustenta na Renascença, olhando aos apoios declarados e ao teor da recente entrevista á TVI/CNN Portugal.
“Há muito mais aproximações a posições políticas da direita do que propriamente àquela posição inicial que o Almirante tinha afirmado, entre o centro-direita e o centro-esquerda. Isso pode apenas ser tático, ou seja, apenas uma leitura das últimas eleições e um reposicionamento do seu papel. Mas parece-me claro que isso abre um espaço no centro-esquerda que não fica completamente preenchido com António José Seguro”, analisa Mariana Vieira da Silva.
A deputada pede a clarificação por parte dos candidatos sobre o seu posicionamento em relação a critérios de dissolução do Parlamento. “Este último mandato do Presidente da República e o número de dissoluções da Assembleia da República que teve, obrigam o país a refletir”, conclui Mariana, antes de saudar Gouveia e Melo por clarificar que um problema grave de “reputação e credibilidade” do Primeiro-Ministro “ - de tal forma grave que a própria governação pode ficar em causa” - pode levar, ”numa situação mais extremada”, a dissolver a Assembleia da República, para dar voz ao povo, apesar da estabilidade governativa ser relevante.
Todos os candidatos devem pronunciar-se sobre “como leem esse tipo de situações como chumbo do Orçamento, um Primeiro-Ministro que ou sai ou se demite ou tem que sair, sobre qual é o peso das maiorias parlamentares”, complementa a deputada do PS.
No plano parlamentar, a dirigente socialista alerta ainda que PSD e Montenegro nunca se posicionaram sobre a relação com o Partido Socialista em matéria de revisão constitucional. Mariana Vieira da Silva recolhe o exemplo das votações parlamentares que não confirmaram a vice-presidência da Assembleia do CHEGA para concluir que “ apesar de ter dois terços da Assembleia da República, a direita não consegue garantir maiorias simples” no hemiciclo.- Noticiário das 12h
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