Ouvir
  • Noticiário das 14h
  • 13 mai, 2026
A+ / A-

ENTREVISTA RENASCENÇA

Nuno Morais Sarmento: “Há alguma violação das condições de utilização das Lajes? Não. Metam a viola no saco”

27 jun, 2025 - 08:30 • Susana Madureira Martins

Quase a fazer um ano desde que tomou posse como presidente da FLAD, Nuno Morais Sarmento diz que a responsabilidade da fundação é a de "construir pontes" entre Portugal e os Estados Unidos, "mesmo num tempo de maior isolacionismo, de uma tendência para o fechamento". É um "ativo" que diz não dever "prejudicar" e deve ser "capaz de entregar o testemunho tão intacto" como o recebeu.

A+ / A-
Ouça a entrevista a Nuno Morais Sarmento

O presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) considera que não há razão nenhuma para a polémica que se criou em torno da utilização da base das Lajes por aviões dos Estados Unidos da América antes do ataque ao Irão. Em entrevista à Renascença, Nuno Morais Sarmento é taxativo: “Há alguma violação das condições estabelecidas entre Portugal e os Estados Unidos para a utilização da base das Lajes? Não. Então ponto final, metam lá a viola no saco”.

Numa curta conversa com a Renascença, que decorreu à margem da conferência que termina esta sexta-feira na cidade de Ponta Delgada, em São Miguel, e que assinala a passagem dos 40 anos de criação da FLAD, Nuno Morais Sarmento diz que a fundação mantém o seu trabalho de “abrir, reforçar e manter pontes” entre Portugal e os Estados Unidos “mesmo num tempo de maior isolacionismo, de uma tendência para o fechamento, para o encerramento de pontes”.

Sobre o polémico questionário enviado pela administração dos Estados Unidos às universidades portuguesas, Nuno Morais Sarmento diz que as universidades portuguesas com que a FLAD trabalha “não refletem nenhum particular desencontro” com os Estados Unidos desde que a administração Trump entrou em funções, “apesar dos questionários, das perguntas, das respostas”.

Assinalam-se os 40 anos da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD). Pergunto-lhe se é diferente a relação da fundação com os Estados Unidos conforme as administrações na América?

O trabalho da FLAD não é significativamente impactado pelas alterações de administrações nos Estados Unidos. Pode haver, porventura, por parte de segmentos da população maior ou menor proximidade, interesse, compreensão pelo trabalho da FLAD. Mas o trabalho da FLAD tem-se mantido e eu penso que esse é, talvez, o maior ativo que tem. Tem-se mantido bastante constante ao longo dos diferentes tempos. Eu acho mesmo que num país onde não sabemos estimar as instituições e tendemos, na crítica das pessoas, a fazer a crítica das instituições e a criança vai com a água do banho e com isso se prejudicam as alavancas únicas de mudança e desenvolvimento que temos.

Não se pode confundir as instituições com as personalidades que, de vez em quando, estão à frente delas? Por exemplo, o presidente Trump não se pode confundir com as instituições americanas?

Seguramente. Seja Trump, seja o Nuno Morais Sarmento ou a FLAD, é igual, são as instituições. A FLAD é uma das pouquíssimas instituições que ao final deste já longo período de existência, mantém, por parte da opinião pública, uma compreensão, uma recetividade, junto à opinião pública, uma credibilidade que é absolutamente invulgar. Faça o que fizer, não devo tocar, não devo prejudicar esse ativo e devo ser capaz de entregar o testemunho tão intacto como o recebi. Isto tem a ver com a sua pergunta. O meu cuidado, para lá dos tempos das pessoas e das vontades, é o de ser capaz de defender a instituição e defender o mandato da instituição, que no fim de contas é um mandato muito simples, que num tempo destes pode ser incompreendido por alguns. A responsabilidade da FLAD é construir pontes, manter pontes, reforçar pontes entre Portugal e os Estados Unidos, mesmo num tempo de maior isolacionismo, de uma tendência para o fechamento, para o encerramento de pontes. O nosso trabalho continua a ser um e só um: abrir, reforçar e manter pontes.

Na sequência disso que está a dizer, como é que, por exemplo, o presidente da FLAD tem assistido ao polémico questionário enviado pela administração dos Estados Unidos às universidades portuguesas? É desconfortável ou a FLAD não se mete numa coisa dessas?

A FLAD, por definição, não tem de meter-se. Se o trabalho é construir pontes, não tem, mas, sem receio, lhe acrescento que na área da educação é uma área que tem sido de particular intervenção da FLAD, que é responsável por um movimento muito significativo de bolseiros de

mais de 10 mil bolseiros que, ao longo do tempo, a FLAD permitiu que continuassem as suas carreiras, as suas investigações, os seus professorados nos Estados Unidos. Até agora, não temos nota de nenhuma situação nas universidades norte-americanas ou nas universidades portuguesas que altere esta realidade.

Portanto, pode haver questionários, panfletários, pode haver o que quiser. Se não tocar nestas relações, nós continuaremos tranquilamente a fazer o nosso caminho, evitando dar opinião sobre tudo o que não é importante e concentrando a nossa opinião nisto. As universidades portuguesas com as quais temos um contacto evidente não refletem nenhum particular desencontro, maior do que aquele que pudesse existir, desde que o presidente Trump lá está, apesar dos questionários, das perguntas, das respostas, ou até que a situação se complique de um ou outro caso de desentendimento, de interrupção de estudo ou de lecionamento, mesmo que isso aconteça, se forem situações muito pontuais. Se as universidades portuguesas continuarem a ter o interesse e a ter condições, nós estamos capazes de apoiar.

Ainda não o ouvimos sobre a situação da base das Lajes, nos Açores, e o uso recente para aviões reabastecedores de aparelhos que bombardearam o território iraniano. Considera esta situação normal?

Acho que o país está maluco. Quando vemos o país inteiro a fazer uma espécie de apreciação sobre movimentos, se o movimento é mais deste tipo, se é daquele, se os aviões vão reabastecer ou se os aviões vão fornecer munições, estamos doidos se pensamos que em Portugal, ou em qualquer outro país, cabe ao país anfitrião estar a decidir a ementa dos transportes que podem ser feitos pelo país que lá tem uma base militar. Vamos ver se nos enxergamos. Há alguma violação das condições estabelecidas entre Portugal e os Estados Unidos para a utilização da base das Lajes? Não. Então ponto final, metam lá a viola no saco. Tratem do que têm a tratar e deixem de se fazer de analistas militares, geopolíticos, a dar opinião sobre o tipo de transporte que vem ou não vem. Haverá situações que podem configurar uma violação das condições acordadas entre os países. Dou-lhe um exemplo, a polémica da questão dos voos da CIA há uns anos. Essa é uma questão que está na fronteira do pôr em causa as condições de utilização.

Era ministro nessa altura, de resto.

A questão está em que a base das Lajes não era utilizada para esses voos. A terem existido ou não, esses aviões não paravam nas Lajes, portanto, ponto final, metam a viola no saco e cada macaco em seu galho. Não cabe a Portugal ou a qualquer outro país dar opinião sobre o tipo de transportes que outros façam nas suas instalações, desde que em conformidade com as acordadas condições de utilização.

Tem sido feita uma comparação entre este uso das Lajes, que agora foi feito, com a cimeira das Lajes, em 2003. Vê algum paralelo que alguns partidos políticos têm visto? Até porque fazia parte desse governo de Durão Barroso.

Não vejo nenhum paralelo, a cimeira das Lajes visou verificar se havia ou não um entendimento alargado entre um conjunto de países, sobre uma intervenção no Iraque com base nas informações que a esses países foram disponibilizadas.

Muitos viram a cimeira como um gatilho para a guerra no Iraque.

Mas essa é outra questão, a questão de saber se essas informações eram verdadeiras ou não. Hoje, o que estamos a falar é da utilização, dentro do acordado entre os dois países, da utilização da base das Lajes pelos EUA para fazer pousar aviões de reabastecimento, seja amanhã aviões de transporte de tropas, seja amanhã aviões de munições, seja o que for, está dentro das regras. Então, se faz favor, calem-se e tratem da vossa vez.

Acha que esta passagem dos aviões de reabastecimento significou um impulso para reativar a base das Lajes?

A situação era uma situação que justificava alguma preocupação crescente por uma utilização progressivamente menor e, portanto, receio de desinvestimento. Sempre entendi que podem utilizar mais ou menos, desde que continuem a utilizar, a manifestar interesse e a respeitar as regras e contrapartidas acordadas. Não vale a pena estarmos a gerir a casa dos outros. Eles lá saberão porquê. Sempre tive como opinião que a base das Lajes nunca deixaria, nem deixará, no tempo mais próximo, de ter interesse estratégico para os Estados Unidos.

Portugal é o ponto de entrada, talvez o único no mundo, o único hub no mundo de ligação de três continentes através de cabos submarinos. Os cabos submarinos, atualmente, representam um risco em matéria de segurança, porque é matéria de comunicações e de energia. Só por isso temos assistido por parte dos Estados Unidos a um novo interesse nessas matérias, principalmente quando temos navios russos a cartografar sistematicamente o fundo mar do Oceano Atlântico. Não é para procurar sereias nem marmotas. É só para fazer o levantamento dos cabos submarinos que existem na zona.Os Estados Unidos têm um interesse imediato na segurança de comunicações e da energia e por ser o único ponto no Atlântico Norte que, estrategicamente, pode melhor servir a ligação entre estes dois continentes.

A FLAD está muito ligada à diáspora. Preocupa-o um eventual encerramento de consulados dos Estados Unidos em Portugal, nomeadamente o dos Açores?

Nomeadamente não, é mesmo dos Açores que está em cima da mesa, por termos informação, não confirmação, mas informação, da existência de um papel de trabalho na equipa do defunto Elon Musk, que numa listagem de pontos diplomáticos a encerrar, incluiria, ou terá incluído, o consulado nos Açores. Esse consulado tem uma importância absoluta, é o único consulado de carreira e não simbólico ou honorário e tem para a comunidade portuguesa nos Estados Unidos e para a ligação entre os Açores e os Estados Unidos uma importância fundamental. Estamos a celebrar os 230 anos do consulado de Ponta Delgada e, com isso, a dar mais um sinal de que muito gostaríamos que o consulado existisse por mais 230 anos.

Ouvir
  • Noticiário das 14h
  • 13 mai, 2026
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Vídeos em destaque