13 out, 2025 - 04:16 • Tomás Anjinho Chagas
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Durante duas semanas, o Chega teve dificuldades em estabelecer o seu objetivo, foi sempre inconstante. Da vitória eleitoral, ambicionada por André Ventura, às oito autarquias, apontadas pelo coordenador autárquico, ninguém previu o que aí vinha.
Apesar de ser um crescimento, o Chega ficou francamente abaixo dos objetivos que tinha fixado na campanha, mas o desafio não deixa de existir: o partido liderado por André Ventura vai ter de passar a governar.
Rapidamente se previa que a noite não seria de festa, como o Chega habituou os seus militantes. No hotel Marriot, em Lisboa, que serviu de quartel-general do partido para a noite autárquica, o nervosismo era evidente. Escorriam suores frios pela possibilidade de o Chega ficar atrás da CDU em Lisboa. Não se verificou, por 11 votos de vantagem.
Os resultados ficaram francamente abaixo da expectativa, até Ventura reconheceu: "Hoje não vencemos", assumiu o líder incontestado, no discurso, durante a noite eleitoral. Apesar disso, o presidente do Chega dourou a pílula e vincou que o partido "mais do que quadruplica os resultados face a 2021" e fala numa "força fundamental" para desbloquear maiorias.
Ventura descreveu mesmo o dia 12 de outubro como uma "noite boa" e prometeu "continuar a derrotar o bipartidarismo". Mas essa quebra, que já tinha sido prometida durante a campanha - e foi conseguida no plano legislativo em maio - ficou longe de ser conseguida.
Autárquicas 2025
O líder do Chega lembra que passam a governar três(...)
O resultado eleitoral contrasta com uma campanha eleitoral frenética, enérgica, em que o magnetismo de Ventura fazia sucesso nas ações de campanha na rua.
O Chega até se afirmou como terceiro partido mais votado, de longe, mas esses votos dispersos só conseguiram eleger três presidentes de Câmara. Ficam assim atrás da CDU, que conquistou 12 câmaras (tinha 19 até aqui) e do CDS, que manteve as seis autarquias que tinha e conquistou mais uma a liderar uma coligação.
No final da campanha, juntando o cansaço à insistência dos jornalistas para definir o que seria uma derrota eleitoral, André Ventura chegou a dizer que era uma "fantasia" o Chega ter menos autarquias do que o CDS e garantiu que o partido estava a ombrear com o PS e PSD.
Começa a ser um padrão. Nas duas eleições - desde que o Chega se afirmou como terceira força política, em 2022 - em que André Ventura não era o candidato, o Chega teve uma enorme quebra na votação.
Tanto nas eleições europeias de 2024, encabeçadas por Tânger Correa, como nestas eleições autárquicas, em que André Ventura não podia ser candidato a 308 autarquias, o partido não mostrou a força que tem mostrado nas legislativas.
O caso de Reguengos de Monsaraz é paradigmático. Neste concelho alentejano, no distrito de Évora, o Chega apostava que conseguia vencer, e a caravana nacional passou por lá com André Ventura à cabeça. Havia motivos para isso, nas legislativas de 18 de maio foi o partido mais votado com 31,5% dos votos. Só que este domingo não foram além dos 13,60%. O partido não conseguiu a tão aguardada conversão dos votos.
Ventura insiste que o Chega não é o partido de um homem só, mas começa a ficar sem argumentos.
Apesar do mau resultado tendo em conta o objetivo ambicioso, o Chega não deixou de crescer e de começar definitivamente a sua implantação autárquica. O partido elege três presidentes de câmara: Albufeira (Algarve), Entroncamento (Santarém) e São Vicente (Madeira).
Isso significa que, pela primeira vez na sua história, o Chega vai passar do papel à prática, isto é, vai ser poder. É uma mudança de paradigma para um partido de protesto, que agora vai ter de mostrar que é diferente daquilo que critica. Tantas vezes pediu rapidez, eficácia, transparência, agora vai ter de fazê-lo, mostrar que faz e ainda lidar com a oposição.