12 nov, 2025 - 22:33 • Filipa Ribeiro
A Renascença começava a ser devolvida à Igreja há 50 anos, depois de ocupada no final de maio de 1975 por 19 trabalhadores, no contexto do movimento revolucionário pós-25 de Abril.
Depois do bombardeamento dos emissores a 7 de novembro desse ano, a ocupação foi desfeita e a rádio acabou por ser completamente devolvida à Igreja já no mês de dezembro, depois dos acontecimentos do 25 de novembro.
A época do "Verão Quente" foi recordada esta quarta-feira, na quinta sessão do ciclo de conferências da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, dedicado aos 50 anos do 25 de Novembro.
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Em declarações à Renascença, José Ribeiro e Castro recorda a "história difícil e dura de retomar a Renascença" e sublinha a importância do movimento dos católicos que estiveram "a lutar por todo o país nas paróquias e dioceses", em especial a 18 junho de 1975, quando se deu o cerco do Patriarcado de Lisboa.
Ribeiro e Castro realça que só com a bomba colocada nos emissores, a 7 de novembro, foi possível acabar com a "usurpação" numa época em que considera que "Portugal era um manicómio em autogestão".
O presidente da Sociedade História da Independência de Portugal realça o papel que a Igreja teve nessa época e o contributo para a democracia, uma vez que após a ocupação houve um "espírito de não desforra e vingança".
Também José Luís Ramos Pinheiro, administrador da Renascença, considera que a ocupação da emissora católica foi uma "batalha que a Igreja travou pela liberdade da comunicação social quando muitos queriam mantê-la na sacristia e tirá-la do espaço público".
"Era mais vasta que isso: era pela liberdade de informação em geral do Portugal democrático, pela liberdade religiosa, pela liberdade de expressão e de informação", realça.
Em destaque na sessão do ciclo de conferências, onde participaram também a jornalista Maria João de Avillez e o socialista João Soares, esteve o papel de D. António Ribeiro, à época cardeal patriarca de Lisboa, que nunca desistiu da Renascença.
Ramos Pinheiro recorda que D. António Ribeiro teve "um papel sereno, mas muito firme quer com os apoiantes como com os que acabariam a ocupar a Renascença" - 19 dos 80 trabalhadores.
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O atual administrador da Renascença recorda que, na altura, esses trabalhadores eram "amparados em militares e militantes da extrema-esquerda e de partidos e movimentos" que vieram a dar origem ao Bloco de Esquerda.
Ramos Pinheiro destaca que o "caso foi tão emblemático" que acabou a interessar o Vaticano e as autoridades europeias e sublinha que a ocupação "extravasava o problema da comunicação social" por ser da Igreja. O também jornalista lembra ainda que a ocupação aconteceu um mês depois das eleições de abril de 1975, que não deu os resultados esperados pela extrema-esquerda.
José Ribeiro e Castro considera que o 25 de Novembro está esquecido e critica a leitura que hoje é feita sobre a data. O antigo líder do CDS defende que as pessoas que fazem hoje política deviam "olhar para a experiência da época de 1975 e reconduzir o debate democrático a um tom mais ajustado".
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Ribeiro e Castro lembra que, em 1975, havia manifestações na rua, ocupações e presos políticos - situação diferente da presente - mas considera que o discurso político atual está "com decibéis a mais, com nervosismo a mais e falta de busca pela verdade ou soluções", para o histórico do CDS a democracia que se vive é de "zaragata".
Já Ramos Pinheiro considera que, face aos riscos com as redes sociais e a promiscuidade de hoje, o "papel de curador do jornalista é mais importante do que em 1975".
O administrador, antigo jornalista e diretor de informação sublinha que "todos os adversários da comunicação social livre são por norma agentes a polarização" - como a que está agora instalada na política em Portugal.
José Luís Ramos Pinheiro lembra que esses "não estão interessados numa comunicação social livre, mas em propaganda através de redes sociais, seja no TikTok ou noutras e não estão interessados num debate sereno esclarecedor, antes em em gritar muito no espaço público".