25 nov, 2025 - 20:43 • Tomás Anjinho Chagas
Marcelo Rebelo de Sousa lamentou, esta terça-feira, que o atual e o anterior Governo não tenha encarado como "prioridade" as celebrações dos 50 anos do 25 de Abril.
No encerramento de um seminário sobre o 25 de Novembro, esta terça-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, o Presidente da República elogiou a "paciência infinita" da comissária desta comissão, Maria Inácia Rezola, nomeada comissária executiva da Estrutura de Missão para as Comemorações do 50.º aniversário da Revolução de 25 de Abril de 1974.
Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui
Logo depois, Marcelo Rebelo de Sousa enfatizou que a tarefa desta comissão ficou mais difícil com o desenrolar do tempo, apesar de atribuir alguma culpa também ao último Governo de António Costa.
"Mesmo na governação anterior tornou-se difícil reunir a comissão nacional, deixou de ser prioridade. Por maioria de razão essa tendência não se alterou na nova governação. E aí a ausência tem sido quase total", criticou o Presidente da República.
Marcelo Rebelo de Sousa vinca que houve uma jogada de antecipação: "Nós, pelo sim pelo não, começámos a comemorar no final de 2021, de 2021 para 2022 foi-se sentindo o espírito da comemoração, de 2022 para 2023 foi-se perdendo. Em 2024 foi-se estiolando".
Não obstante, Marcelo Rebelo de Sousa destaca que "foi possível condecorar todos os Capitães de Abril".
Aos jornalistas, o Presidente da República esclareceu que o "clima em torno da comissão começou muito intenso nos primeiros anos", mas assume que as mudanças no Governo e na opinião pública, retirou peso a esta organização.
"Acabou, com alguma pena minha, por tirar prioridade a coisas que para se fazer se tinham de fazer rapidamente", explicou o chefe de Estado, referindo-se à criação de um centro interpretativo do 25 de Abril, um "mini-museu" que "explique o que era antes, como foi e depois" da Revolução dos Cravos.
Marcelo Rebelo de Sousa diz que não se trata de "comemorar por comemorar", mas antes "deixar momentos históricos devidamente testemunhados".
Questionado se o atual Governo ainda vai a tempo, o Presidente da República responde que "a tempo vai sempre", mas assume: "Tenho pena que não seja no meu mandato".
O chefe de Estado considera que não faz sentido o país não valorizar um momento como o 25 de Abril de 1974, e estabelece-o como um dos mais importantes da história recente do país, sem nunca mencionar o 25 de Novembro, no dia em que foi ao Parlamento assinalá-lo.
"Às vezes, é estúpido, um país tão antigo, persistente, eterno, não tratar muito bem a sua história", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.
A caminho do final do mandato, o Presidente da República espera que o seu sucessor em Belém dê a devida importância ao tema.
O Presidente da República foi encerrar um debate intenso. Esta terça-feira à tarde, diversas personalidades de vários campos ideológicos discutiram o 25 de Novembro, no dia em que se assinalam os 50 anos da data, em 1975.
Na introdução, João Pedro Castanheira, jornalista reformado, lembra que há 50 anos estava na redação do jornal vespertino "A Luta", e recorda que nesse dia, a título de exceção, depois de fechar a edição que seria publicada nessa tarde, os jornalistas ficaram todos "de piquete". Os últimos dias davam a entender que podia ter desenvolvimentos importantes.
"Foi perfeitamente inútil", diz João Pedro Castanheira, e vinca que durante uma semana não foi publicado qualquer jornal, devido ao "estado de sítio".
O historiador e fundador do Bloco de Esquerda, Fernando Rosas, assume que no dia 25 de Novembro de 1975 houve "mais do que provocações" e acredita que o "PCP acaba por recuar". No entanto, acredita que o 25 de Novembro "não é uma tentativa do PCP de tomar o poder". Na visão de Fernando Rosas, os comunistas não tinham força militar para isso.
O historiador acredita antes que foi uma "contenção pactuada" que pretendia garantir que o PCP mantinha influência nos vários órgãos de poder. Rosas assinala que nessa altura havia uma "extrema-direita" que queria aproveitar o contra-golpe para impor uma "ditadura fascizante".
50 anos do 25 de novembro
Vasco Lourenço critica o ministro da Defesa pela o(...)
Fernando Rosas lembra que "há uma parte da extrema-esquerda maoista" que "não alinha com o processo revolucionário" e que "até alinhou no 25 de Novembro".
Num tom mais duro, Fernando Rosas fala numa "fantochada" para se referir às comemorações desta terça-feira no Parlamento.
"Uma fantochada militarista e revanchista, destinada a anular o 25 de Abril e o seu significado", critica o historiador e fundador do Bloco de Esquerda.
"É uma vergonha e uma provocação. O 25 de Novembro está a ser recuperado pelo processo de contra-revolução cultural em curso no nosso país, por parte da extrema-direita", sentenciou Fernando Rosas.
A historiadora Irene Pimentel arrancou a saudar a Comissão de Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, "a única que reconheço", referindo-se à comissão criada para assinalar o 25 de Novembro como uma "fantochada".
"É verdade que ainda vivemos em democracia, mas a primeira coisa que a direita e a extrema-direita fazem quando estão coligadas é falsificar a história", começou por criticar.
Irene Pimentel considera que o 25 de Novembro "não foi uma tentativa de golpe de Estado do PCP", mas reconhece que o Partido Comunista Português teve "um pé dentro e um pé fora".
"Eu agradeço o 25 de Novembro, hoje em dia", reconhece a historiadora.
Irene Pimentel critica ainda Paulo Núncio, deputado do CDS, e Carlos Moedas, por terem homenageado duas vítimas e terem deixado de mencionar o "aspirante Ascenço Bagagem, do regimento da Polícia Militar". A historiadora considera "absolutamente imoral" esta distinção.
A terminar, Irene Pimentel vincou que é fundamental analisar os "aspetos internacionais do 25 de novembro, sem conspirações", lembrando que à época, o mundo vivia em plena guerra fria.
50 anos do 25 de novembro
Ministro da Defesa Nacional responde a Vasco Loure(...)
O historiador e antigo deputado José Pacheco Pereira considera, por sua vez, que se sabe "quase tudo" sobre o 25 de Abril, e acredita que existe um "ruído do mundo" que tende a lançar confusão sobre o tema.
"Não há nenhuma razão ou prova que indicie que a URSS quisesse uma Cuba na Europa, ou que tivesse dito ao PCP para tomar o poder", atira Pacheco Pereira.
O historiador defende que "não há nenhum plano, nenhuma prova de que o PCP tenha tentado tomar o poder". No entanto, Pacheco Pereira acredita que o PCP esteve sempre "com um pé dentro e um pé fora", tanto no 25 de Novembro como no cerco à Assembleia Constituinte, nesse ano.
"Hoje houve um acontecimento absolutamente vergonhoso no Parlamento", criticou Pacheco Pereira, referindo-se à omissão do papel do presidente, Costa Gomes, nos discursos dos vários partidos no Parlamento sobre o 25 de Novembro.
"O que me preocupa é dar o 25 de novembro a uma direita que não tem história", considera o antigo líder parlamentar do PSD, e atual cronista e comentador.
Pacheco Pereira condena o pendor militar das comemorações do 25 de novembro no Parlamento, e termina com uma provocação: "Querem testar a popularidade do 25 de novembro? Façam uma manifestação popular e comparem com a do 25 de abril".
O antigo militar e escritor Pedro Pezarat Correia, que fez parte do Grupo dos Nove (a ala moderada do MFA), vinca que é importante contextualizar o 25 de Novembro no Processo Revolucionário em Curso (PREC) e no processo de independência nas ex-colónias portuguesas.
"O 25 de Novembro não foi um golpe de Estado. Podemos hoje afirmar que há um clima golpista que se instala no país durante o PREC", afirma o antigo general.
Pedro Pezarat Correia defende que o 25 de Novembro "não encerrou o PREC" e dá o exemplo de atentados terroristas que aconteceram para lá de 1975.
"O PREC prolongou-se até à Constituição da República Portuguesa e encerrou-se, curiosamente no I Governo Constitucional", lembra, assinalando que Mário Soares liderava esse Governo.