02 dez, 2025 - 23:43 • Susana Madureira Martins
Apenas a hérnia encarcerada de Marcelo Rebelo de Sousa uniu Henrique Gouveia e Melo e António Filipe, o que aconteceu logo no início do frente-a-frente desta terça-feira na TVI. O que veio depois foi a tentativa do antigo militar de acantonar o candidato apoiado pelo PCP no marxismo mais puro e o comunista responder com o que considera serem “generalidades” e ausência de posições do almirante.
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A parte mais tensa do debate aconteceu quando se falou da guerra na Ucrânia, precisamente à hora em que terminava em Moscovo a reunião entre o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, e o representante dos Estados Unidos, Steve Widkoff.
Sendo este um calcanhar de Aquiles para o PCP, António Filipe tentou contornar o tema: “Não sou parte das negociações, não me vão pedir a opinião”, começou por dizer. “Espero que rapidamente se encontre uma solução”, acrescentou, referindo que “já é muito tarde” e que é “desejável que se chegue a uma paz duradoura”.
A partir daí, o debate seguiu aceso, com Gouveia e Melo a exigir “uma posição” ao comunista, lembrando que os comunistas têm defendido que o actual Presidente da Ucrânia é apoiado por fascistas e neonazis, interpelando directamente António Filipe: “Pergunto se Zelenski é apoiado por fascistas e Putin é que é democrata?”, o que levou o comunista a responder: “Se alguém está nos antípodas de Putin sou eu, não é o senhor."
António Filipe entrou no confronto e referiu antigas posições do militar na reserva: “Não fui eu que disse que os jovens deviam ir morrer onde os mandassem morrer se a NATO os mandasse. Os jovens portugueses não têm de ir morrer a lado nenhum. Foi o senhor que disse”, mantendo, entretanto, que “são factos que Zelenski é apoiado por nazis”.
Nesta fase do debate, Gouveia e Melo tentou encostar António Filipe à ortodoxia comunista, começando por dizer que “não podemos ser uma quinta coluna de Putin”, criticando o que considera ser a visão “sui generis do comunista” e acusando-o de ter "uma conceção da sociedade que vem da ditadura do proletariado”.
Filipe começou a interromper o antigo militar, referindo que o PCP deixou de suportar a tese da “ditadura do proletariado ainda antes do 25 de Abril”, e ainda ouviu o antigo almirante dizer que o comunista “está a concorrer para uma presidência democrata” e que "não vai ser um instrumento do Comité Central na Presidência da República nem força de bloqueio”.
Gouveia e Melo lembrou ainda a simpatia que o PCP nunca escondeu pelo antigo líder cubano, Fidel Castro, e Filipe despachou a questão falando da viagem que fez com Marcelo Rebelo de Sousa precisamente a Cuba, sendo o “penúltimo” chefe de Estado a estar com Fidel. “Portugal e Cuba têm relações diplomáticas desde a ditadura”, lembrou, acrescentando que o escritor português Eça de Queiroz foi lá cônsul-geral.
O debate de meia hora, conduzido pelo jornalista José Alberto Carvalho, seguiu depois para o que fariam os dois candidatos se tivessem de decidir sobre o anteprojecto do Governo sobre a legislação laboral, tema abordado em praticamente todos os frente-a-frente nas televisões.
Gouveia e Melo voltou a falar da necessidade de um “contrato social”, referindo que a greve geral marcada para o dia 11 deste mês “é um direito, mas na concertação social deviam encontrar-se mecanismos para a economia ser renovada e preservar o núcleo verdadeiro dos direitos dos trabalhadores, que não devem ser deslaçados”, aconselhando o Governo a ter uma “atitude mais negocial”.
Assumindo-se ao longo do debate como um social-democrata, Gouveia e Melo piscou o olho ao eleitorado de esquerda, referindo que “os partidos de esquerda defendem a causa social e são importantes por isso”, apelando a um “equilíbrio”.
Face à ausência de uma posição taxativa de Gouveia e Melo sobre esta questão, António Filipe começou por dizer que “a lei é má desde o princípio”, acusando: “Não conseguimos perceber o que Gouveia e Melo pensa sobre coisa nenhuma. Temos algumas generalidades sobre este tema ou outro qualquer, não se lhe conhece pensamento político sobre coisa nenhuma."
Procurando demonstrar que Gouveia e Melo procura agradar a todos os quadrantes do eleitorado, Filipe acusou: “Procura explorar o facto de os eleitores do PS não se identificarem muito com António José Seguro e que os eleitores do PSD não se identificam muito com Marques Mendes, a procurar um jogo de equilíbrio para captar eleitores sem tomar posições claras sobre coisa nenhuma”.
Gouveia e Melo acusou o comunista de “interferir indiretamente nas negociações” sobre a legislação laboral e de ter um modelo económico que é o da “estatização”, num piscar de olho do ex-militar ao sector do centro-direita e liberal. Aqui chegou mesmo a garantir que é “um social-democrata antigo que concilia a economia de mercado e a propriedade privada”, referindo a sua posição como “clara”.
Já na reta final do debate, Gouveia e Melo disse que fará “o que puder para incentivar a mudança”, mas que o fará “com o Governo, não contra o Governo, que tem de governar”, garantindo ainda que não será “marionete do Governo nem uma força de bloqueio”. Filipe encerrou o debate a dizer que se apresenta nas presidenciais “contra o consenso neo-liberal das políticas que nos trouxeram até aqui”.
O próximo debate está marcado para esta quarta-feira, na RTP, entre António José Seguro e Luís Marques Mendes.