07 dez, 2025 - 22:02 • Ricardo Vieira
O debate deste domingo à noite entre os candidatos presidenciais João Cotrim de Figueiredo e Marques Mendes, na TVI, ficou marcado por duras trocas de acusações sobre alegadas pressões e falta de transparência.
A primeira pergunta foi sobre as alterações à lei laboral, mas Marques Mendes saiu do guião e confrontou o adversário com uma entrevista em que Cotrim de Figueiredo disse que foi pressionado para desistir da corrida a Belém.
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"Há duas semanas fui vítima de um ataque pessoal muito feio e muito lamentável da parte de quem não imaginava, de João Cotrim Figueiredo. Disse ao Expresso que eu ou pessoas por mim o pressionaram para desistir da candidatura. Considero uma acusação muito séria e grave e queria confrontar agora Cotrim com duas perguntas: Quando é que eu falei consigo a pedir exigir ou pressionar a sua desistência. Quais foram as pessoas que em meu nome o pressionaram. Não se fazem acusações desta gravidade sem apresentar provas ou fundamentos”, declarou Marques Mendes.
Na resposta, o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal esclareceu que "nunca disse" que tinha sido contactado por Marques Mendes. "É uma acusação muito feia, devia concretizar", atirou.
João Cotrim de Figueiredo reiterou que "apoiantes destacados de Marques Mendes", que presumiu que faziam parte da candidatura, o "pressionaram para desistir ou para combinar desistir mais tarde nesta campanha".
"Não vou revelar nomes porque para mim não é o essencial", referiu Cotrim de Figueiredo, que notou que Marques Mendes e "não disse nada" sobre as denúncias do candidato Gouveia e Melo, que também disse ter sido pressionado para não avançar para Belém.
"Vou tomar isso como um elogio. De que a minha candidatura é mais perigosa para si do que a de Gouveia e Melo", afirmou.
Acho que se comporta como uma espécie de André Ventura envergonhado
Presidenciais 2026
Debates vão realizar-se entre os dias 17 de novemb(...)
Marques Mendes insistiu que Cotrim de Figueiredo "fez acusações sem fundamento, não apresentou nenhum nome".
"Acho isto de uma gravidade imensa e de uma leviandade para quem quer ser Presidente da República, nem os seus apoiantes gostam deste tipo de acusações. Acho que se comporta como uma espécie de André Ventura envergonhado. Isso não o recomenda para Presidente da República, até o desqualifica. As pessoas devem acreditar no Presidente e, com este episódio, a sua palavra não é para levar a sério", atirou o candidato apoiado pelo PSD.
João Cotrim de Figueiredo, que é apoiado pela Iniciativa Liberal, respondeu a Mendes que, "além da palavra, as pessoas esperam do Presidente transparência para saber tudo o que essas pessoas fizeram na vida".
"Publiquei um livro em que explico tudo sobre a minha vida profissional. Sei que vai publicar um livro em que resume os 18 anos em que saiu do governo em cinco páginas. Estamos de acordo que a transparência, os contactos, e as relações que tiveram são importantes para um Presidente da República? Tem alguma coisa a esconder?", atirou o eurodeputado.
Marques Mendes considera que foi alvo de "uma tentativa de assassinato de caráter" e acusou Cotrim de Figueiredo de não fundamentar as acusações. "Fui a pessoa, talvez, mais escrutinada nos últimos anos e respondo a tudo. Total transparência", sublinhou.
Os dois candidatos presidenciais também manifestaram diferentes perspetivas sobre pactos de regime e como valorizar o papel dos jovens.
Cotrim de Figueiredo considera que tem uma "visão sobre a sociedade portuguesa e o seu futuro muitíssimo mais moderna e arejada do que a maior parte dos outros candidatos" e rejeita pactos de regime "sem saber para quê" - Marques Mendes defende um pacto para a Justiça.
"Primeiro, estarmos de acordo quanto ao diagnóstico, o essencial para fazer um pacto, e sobretudo de acordo com a terapia, e depois sim o pacto para aplicar essa terapia caso fosse possível e, em algumas matérias, estamos a alguns anos de atingir esse consenso", afirmou o liberal.
Na réplica, Marques Mendes defende que "em algumas áreas da sociedade e do estado são precisos consensos: justiça, combate à corrupção, para combater morosidade da justiça, combater a ideia de que há justiça para ricos e pobres, acabar com manobras dilatórias e alterar algumas questões do domínio do Ministério Público porque as coisas não estão bem e há um excesso de corporativismo".
O candidato a Belém considera que um Presidente da República "tem um poder mediador, e tem que ser moderado, mas não é moderado nem mole, é ser firme".
Noutro plano, Cotrim de Figueiredo desvalorizou a proposta de Marques Mendes de nomear um jovem para o Conselho de Estado - "é como o Melhoral" -, e considera que é preciso medidas mais profundas para evitar a emigração.
Marques Mendes concorda que os jovens precisam de mais oportunidades, mas considera que a presença no Conselho de Estado é uma oportunidade das novas gerações alertaram para os problemas junto do Presidente, do primeiro-ministro e do líder da oposição.
Sobre o pacote laboral proposto pelo Governo, que motivou a convocação de uma greve geral para 11 de dezembro, Cotrim de Figueiredo afirma que "promulgaria esta legislação laboral na versão mais recente", apesar de "algumas medidas contraditórias com a política de natalidade de que Portugal precisa".
O candidato liberal considera que é importante uma lei laboral mais flexível, para "tornar as empresas mais capazes de se adaptarem a uma mudança súbita na sua carteira de encomendas" e evitar despedimentos coletivos no médio e longo prazo.
Marques Mendes defende a necessidade de uma reforma da lei laboral, mas prefere esperar pelo texto final para dizer se promulgaria o diploma.
"O Governo tem todo o direito e legitimidade para fazer esta reforma e eu acho que há questões no presente e no futuro que possam justificar: na transição digital, inteligência artificial, teletrabalho, conciliação do trabalho com a vida familiar. Acho que há razões para fazer esta reforma. Faz-me impressão que uma parte grande das pessoas que peça reformas e depois quando elas surgem, aqui d’el rei que não se devem fazer reformas", criticou.
Marques Mendes apelou "ao equilíbrio e ao diálogo", sobretudo com a UGT: "E a esse respeito devo dizer que devíamos estar satisfeitos e felizes, porque o clima era de grande bloqueio e crispação há algumas semanas e agora o clima está muito desanuviado apesar da greve".
A pobreza em Portugal foi outro dos temas do debate na TVI. Cotrim de Figueiredo defende que "o crescimento económico é a única maneira de tratar da pobreza a prazo".
"Sem apoios sociais, a pobreza era o dobro, o que seria quase metade da população. Absolutamente inaceitável. Quem olha para isto e acha que está tudo bem, está profundamente enganado e é cúmplice com este estado de coisas", declarou.
Marques Mendes considera que é "bastante mais ambicioso do que o Cotrim Figueiredo no plano social".
“Todos estamos de acordo que é preciso mais crescimento económico, pelo menos mais 3% ao ano, mas isso vai levar tempo. A pobreza deve ser um desígnio nacional, não podemos estar à espera que o mercado vá resolver os problemas dos idosos, dos pensionistas e dos reformados, com pensões de 300, 400 ou 500 euros. O crescimento económico vai ajudar, mas aqui a intervenção do estado é essencial", defende o antigo líder do PSD.
Marques Mendes alerta que, no domínio fiscal, o seu adversário tem uma proposta de taxa única no IRS que ia diminuir a receita e "comprometer seriamente a componente social do país: educação, saúde".
"Será justo que uma pessoa que ganhe 20 mil euros por ano pague tenha a mesma taxa do que uma que ganhe 500 mil ou um milhão? Isto não é justo. É ideia de Cotrim, mas não é minha. A UTAO disse que representaria uma perda de receita de 3 mil milhões de euros. Significa cortes enorme na saúde, educação e nas prestações sociais."
Cotrim de Figueiredo diz que a IL não faz essa proposta há cinco anos e garante que defende "o papel do estado como garante da segurança das pessoas em situação de desespero", tanto ou mais do que Marques Mendes.
Se perda de receita fiscal com uma mudança nos escalões de IRS segurasse os jovens em Portugal, "retínhamos esse dinheiro num instantinho".
A situação da Caixa Geral de Depósitos (CGD) também vincou diferenças entre os dois candidatos.
Marques Mendes diz que, se o banco estatal fosse privatizado a 100%, como defende Cotrim de Figueiredo, "provavelmente ia parar às mãos de espanhóis. Podia significar que em momentos de crise económica e financeira as grandes decisões eram em Madrid e em Lisboa. Isto é perigoso".
O liberal considera recorda a injeção de cinco mil milhões na Caixa "quando houve graves problemas" e considera que perigoso são as tentativas de interferência em instituições públicas, dando o exemplo da TAP.
A reta final foi dedicada ao afastamento da América de Trump em relação à Europa, expressa na nova estratégia de segurança nacional.
Marques Mendes diz que a Europa "tem que começar a pensar em investir para tratar da sua segurança" e "fazer os possíveis e impossíveis para não agravar ainda mais a relação com os EUA".
Aproveitou para criticar a posição do seu adversário, para quem o comando da NATO deve passar dos Estados Unidos para os europeus: "Agravaria ainda mais a relação transatlântica e iria enfraquecer a NATO".
Cotrim de Figueiredo respondeu a Marques Mendes que "estabilidade na atual situação é estagnação".
"Se este debate demonstra alguma coisa é que há alguém que privilegia a prudência em tempos de mudança. Gosto de ser prudente como a pessoa seguinte mas, vendo mais longe, vejo que a prudência pode ser igual a medo da mudança", conclui.
Os debates presidenciais continuam na segunda-feira, com um embate entre António Filipe e Jorge Pinto, na RTP.