08 dez, 2025 - 23:12 • Tomás Anjinho Chagas
São partidos que se assumem de esquerda, mas duas pessoas da mesma família não são iguais, mesmo que possam ter semelhanças. Esta segunda-feira, em debate na RTP, António Filipe, apoiado pelo PCP, e Jorge Pinto, apoiado pelo Livre, mostraram isso mesmo.
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No arranque do debate, o tema da despenalização da morte medicamente assistida provou ser um desses temas que distingue os dois.
António Filipe confirmou que não concorda com a eutanásia, apesar de compreender quem defende a lei. Ainda assim, o candidato apoiado pelo PCP acredita que o diploma - que já está aprovado - não precisa de voltar ao Parlamento e que os problemas constitucionais levantados podem ser contornados com a regulamentação (que é da responsabilidade do Governo).
"Acho que esta questão não precisa de voltar à Assembleia da República", defende António Filipe. O candidato comunista diz que "respeita" quem defende a despenalização da eutanásia numa visão individual, mas depois avisa.
"Uma sociedade não é uma soma de vontades individuais, tenho uma preocupação, num país onde não há cuidados paliativos, que muitas pessoas - em razão da sua situação económica e da sua idade - possam considerar que a morte é uma solução numa situação difícil, eu creio que não é". No entanto, António Filipe diz que se fosse Presidente "teria promulgado" e defende que, agora, o chefe de Estado deve perguntar ao Governo pela regulamentação desta lei.
Jorge Pinto, deputado do Livre, lamenta também o atraso na regulamentação da lei, mas diz que tem uma posição "distintiva" do PCP, ao defender que tem de haver "dignidade em todas as fases da vida".
"Acho que a eutanásia é uma questão que interessa às pessoas", defendeu o candidato, que se posiciona a favor da despenalização da morte medicamente assistida.
Questionado se admitiria recuar na sua candidatura para uma "convergência à esquerda" que pudesse concentrar os votos em António José Seguro, Jorge Pinto responde: "Esse barco já zarpou".
O candidato apoiado pelo Livre argumenta que é o menos responsável por não existir uma "candidatura suprapartidária", e que até atrasou o anúncio da sua candidatura para esperar por um eventual candidato mais agregador: "Não foi por culpa do Livre nem por minha culpa".
António José Seguro faz parte de um consenso neoliberal
Já António Filipe, candidato apoiado pelo PCP, defende que as "circunstâncias são completamente diferentes", quando questionado sobre as eleições presidenciais em que o PCP apoiou Ramalho Eanes ou Jorge Sampaio.
O antigo deputado comunista considera que António José Seguro não corresponde a uma candidatura que conseguisse unir a esquerda. "António José Seguro faz parte de um consenso neoliberal", pede que "não se condicione o voto dos eleitores" e avisa: "Estamos numa eleição a duas voltas".
A relação com a Europa voltou a dividir os dois candidatos. Questionado sobre as diferenças para o Livre, António Filipe começou por responder sem contemplações: "Eu sou da esquerda sem mas, nem meio-mas". O antigo deputado comunista considera que o PCP atribui uma "grande centralidade aos trabalhadores" e rejeita ser um "eurodependendente".
"Eu sou o candidato patriótico que contesta as imposições que nos fazem do exterior. Portugal tem de ter uma voz própria e não aceitar acriticamente tudo o que vem de fora da União Europeia", atira António Filipe.
Ser patriótico em 2025 é ter uma voz no projeto europeu
Jorge Pinto diz que "ser patriótico em 2025 é ter uma voz no projeto europeu" e pergunta como é que Portugal pode ter uma voz contra Donald Trump e Vladimir Putin se não for através da União Europeia.
Em resposta, António Filipe distanciou-se dos três pólos: "Não tenho nada a ver com Donald Trump, não tenho nada a ver com Vladimir Putin, mas também não tenho nada a ver com a senhora Von der Leyen".
Ainda assim, o candidato apoiado pelo PCP esclarece que não defende o abandono da instituição, mas critica os "dois pesos e duas medidas" da União Europeia em relação ao conflito israelo-palestiniano.
No seguimento das posições em relação à União Europeia, António Filipe lamentou a "duplicidade de critérios" das instituições europeias em relação à Palestina.
"A União Europeia tem bloqueado tudo o que sejam ações de solidariedade com o povo da Palestina e tem mantido uma posição claramente alinhada com Israel e com o genocídio que está em curso", critica o candidato apoiado pelo PCP.
Jorge Pinto assegura que não concorda com a posição da UE em relação ao conflito no Médio Oriente, mas acredita que é possível mudar isso. "Não sou derrotista", atira o candidato.
Há algum partido mais distante do que o senhor Putin do que o PCP?
"O que me surpreende é que não esteja do meu lado em relação à Ucrânia. Nunca ouvi da parte do António Filipe, a firmeza ao atacar os opressores noutros conflitos, a defender a Ucrânia", desfere o deputado do Livre.
António Filipe diz que a guerra "podia ter sido evitada em 2022" e considera que foi a União Europeia que insistiu em "derrotar a Rússia". E rejeita qualquer proximidade com o regime russo: "Eu tenho alguma coisa a ver com Vladimir Putin? Há algum partido mais distante do que o senhor Putin do que o PCP?", questiona o antigo deputado comunista.
No tema da greve geral, o último abordado no debate, os dois candidatos repetiram as críticas à lei laboral e consideraram normal o protesto convocado para a próxima quinta-feira. Tanto António Filipe como Jorge Pinto garantiram que vetariam as propostas do Governo.