06 jan, 2026 - 18:05 • Tomás Anjinho Chagas
"Já só faltam 12 dias para a vitória", cantam os apoiantes de Gouveia e Melo. São cerca de 15, andam com ele pelo país todo, levam bandeiras, colunas e altifalantes. São poucos, mas ruidosos.
Este tipo de comitivas existe em muitos casos, mas com Gouveia e Melo são fundamentais porque servem para compensar a ausência de uma estrutura partidária por trás da campanha. Procuram fazer barulho para avisar ao que vêm e chamar à atenção do meio envolvente: a rua, a grande aposta da campanha do almirante.
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Nos primeiros três dias de campanha, as ações na rua têm sido a escolha mais óbvia. Há várias razões para isso. Por um lado, a ausência de estrutura partidária também dificulta a mobilização de grandes multidões para jantares-comício ou grandes eventos. Por outro, a rua é mesmo a mais-valia de Gouveia e Melo. Praticamente todos o reconhecem e o associam à pandemia.
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Os eleitores, sobretudo os mais velhos, nutrem simpatia pelo candidato: "Se o senhor fizer como fez na pandemia, você salva Portugal", disse-lhe um homem, esta terça-feira, no mercado de Vila Real. Chama-se Eduardo Oliveira e vende meias, já não hesita quando lhe perguntam se vai votar no almirante: "Claro que sim, eu e a minha família toda", vinca que o filho é médico e reconhece o valor do trabalho de Gouveia e Melo durante o crítico período pandémico.
Albertina Carvalho está na mesma página. Espera pelo almirante ansiosamente junto à porta da peixaria, as mãos tremem-lhe. "Um beijinho, posso?", pergunta a Gouveia e Melo quando o vê chegar. O candidato vinca que é preciso combater o abandono do interior. Ela dá-lhe força: "Dia 18!". No fim, admite à Renascença que já tinha decidido que ia votar nele: "No homem militar. É uma pessoa reta e o que diz é verdadeiro".
No decorrer dos primeiros dias da campanha, nos seus discursos, Gouveia e Melo tem mostrado que já definiu os seus principais adversários nesta fase: Luís Marques Mendes e António José Seguro. Existe a convicção de que batendo estes dois rivais e chegando à segunda volta, o caminho para vencer as presidenciais fica aberto porque André Ventura tem uma enorme taxa de rejeição (além da taxa de aprovação).
Gouveia e Melo tem, inclusivamente, evitado choques frontais com o líder do Chega. Na segunda-feira, questionado sobre ser colocado por Luís Montenegro no mesmo lote de André Ventura, o almirante evitou hostilizar o líder do Chega e garantiu apenas que não é um candidato populista.
Esta terça-feira, cenário semelhante, com uma pergunta completamente diferente. Um jornalista perguntou-lhe se seria "perigoso" para o país ter um Presidente da República que está completamente de acordo com a operação desencadeada pelos Estados Unidos na Venezuela, numa referência a André Ventura. O almirante não o criticou, disse só: "Acho que o Dr. André Ventura nunca será Presidente, por isso não me parece um grande perigo".
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O choque é mesmo feito com os candidatos apoiados pelo PS e pelo PSD. Quanto a Marques Mendes, na segunda-feira afirmou que a entrada em cena de Luís Montenegro é sinal de que a candidatura do social-democrata está "fragilizada" e terminou o dia de garras de fora: "De repente começam a pedir o voto útil? O que é que mete medo a estas pessoas?".
Esta terça-feira, apurou: "Se há um candidato que anda assustado e que anda a trazer tudo para cima da mesa, não sou eu". Dizia aos jornalistas, durante uma visita a uma feira em Vila Verde, Alijó, no distrito de Vila Real, a propósito do artigo publicado por Cavaco Silva no Observador, em que o antigo Presidente da República acusa vários candidatos, incluindo Gouveia e Melo, de se tentarem apropriar do legado político de Francisco Sá Carneiro.
Mas António José Seguro também não foi poupado. Depois de ser provocado com as declarações do antigo líder do PS, que afirmou que o almirante não tem experiência política e não deve ir aprender para o Palácio de Belém, Gouveia e Melo atirou ao passado de Seguro como líder socialista.
"No passado não defendeu a sua própria área, os interesses das pessoas que votaram nele. Foi para além da Troika", desferiu o almirante, referindo-se à famosa "abstenção violenta" de Seguro na votação do Orçamento do Estado, em 2011, de Passos Coelho, e que continha várias medidas de austeridade".
Gouveia e Melo devolve: "Vem falar de experiência política, eu falo é da insegurança, incapacidade de decisão. Não podemos ter indivíduos que ficam condicionados por receios, ou condicionados por incertezas, o futuro já é incerto demais para candidatos da incerteza e da insegurança".
Há muitos dias pela frente até às eleições de 18 de janeiro, mas a campanha de Gouveia e Melo parece estar focada em desgastar os adversários dos partidos tradicionais para chegar à segunda volta, e apostar na popularidade e notoriedade que o almirante acumula dos tempos em que liderou o processo de vacinação contra a Covid-19 em Portugal.