Presidenciais 2026
"Que se lixem as eleições". Ventura regressa a Leiria com casaco de candidato e gravata de oposição
31 jan, 2026 - 20:50 • Filipa Ribeiro
O candidato presidencial e líder do Chega recusa a possibilidade de estar a aproveitar politicamente a situação de calamidade e evitou responder a "picardias políticas". André Ventura riscou pontos da agenda para regressar a Leiria e falar em privado com autarcas. Diz ao Governo que os apoios devem ser rápidos e a fundo perdido e vai balançando o papel de candidato e o de líder da oposição para "estar junto das pessoas".
As alterações na agenda de campanha presidencial de André Ventura já se tornaram hábito e centram-se agora na calamidade provocada pela tempestade Kristin no centro do país. André Ventura voltou este sábado a Leiria para visitar uma exploração agrícola na freguesia da Ortigosa, ignorando as críticas do autarca do concelho, que considera uma "ofensa" a ida da campanha a Leiria.
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Ventura recusou entrar "nas picardias políticas" e, questionado sobre se existiria ou não benefício político na visita, afirmou: "Que se lixem as eleições".
A frase poderá indicar a intenção de despir, por momentos, o casaco de candidato presidencial, mas Ventura não respondeu diretamente aos jornalistas que lhe perguntaram se, face ao momento difícil que o país atravessa, não seria mais benéfico vê-lo como líder da oposição. Limitou-se a repetir o que tem sido a tónica das suas declarações recentes: "Acho que agora o importante é ajudarmos as pessoas".
Nos últimos dias, o candidato presidencial e líder do Chega tem multiplicado as críticas ao Governo, reforçando o seu papel de oposição. Depois de considerar que houve falta de preparação e de criticar a atuação do Presidente da República, do Primeiro-Ministro e da Ministra da Administração Interna, declarou: "Quando se ouve a Senhora Ministra da Administração Interna é uma dor no coração de alguém que parece que não vê o que é que está a acontecer, não sabe o que é que está a acontecer, diz que temos agora tempo para uma aprendizagem coletiva", lamentou.
Durante a visita a uma exploração agrícola de alfaces e outros legumes totalmente destruída, Ventura, acompanhado pelo empresário agrícola, voltou a exigir celeridade nos apoios aos produtores, defendendo que alguns apoios devem ser a fundo perdido. “Mobilizamos dinheiro para tanta coisa e não conseguimos mobilizar para os ajudar.”
Ainda sobre os apoios, o líder do Chega afirmou que Portugal tem "momentos em que parece um país de terceiro mundo", lamentando que existam pessoas com dificuldade em aceder a novas telhas para reconstruírem os telhados. "O Estado não pode dar telhas?", questiona.
Ventura recordou que os próximos dias continuarão marcados por chuva intensa, que até a própria ministra da Administração Interna já antecipou, e defende que "ninguém pode estar sem telhado". Sugeriu que as Forças Armadas devem apoiar na distribuição de telhas, transportando-as de outras regiões do país, e criticou o ministro da Defesa por ainda não ter mobilizado os militares para o terreno.
André Ventura confessa ainda ficar incomodado com o facto de várias freguesias não terem ainda rede para as comunicações desde o dia da tempestade e considera Portugal "um país de terceiro mundo na gestão de catástrofes".
Com o discurso de líder da oposição, foi questionado sobre o que faria de diferente como Presidente da República e André Ventura responde que o Chefe de Estado "deve dizer quando as coisas não estão bem" e "sair de onde está" para dizer o que não pode acontecer.
Depois de visitar uma exploração agrícola completamente destruída, André Ventura realçou que os “recursos políticos, administrativos e financeiros” têm de ser disponibilizados para que “as pessoas não percam a oportunidade de se levantar", e comprometeu-se a mobilizar pessoas do partido para encontrar lonas para apoiar a população afectada.
André Ventura tinha ainda previsto estar este sábado em Viana do Castelo, mas cancelou a agenda para contactar autarcas das regiões afectadas pelo mau tempo. A equipa de campanha do candidato presidencial apoiado pelo Chega diz que os contactos com autarcas servirão para "coordenar a entrega de bens e donativos" que receberam de vários pontos do país.
"Não sei se consigo recuperar outra vez"
Fábio Franco foi quem quis mostrar este sábado uma exploração de alfaces completamente destruída a André Ventura. O empresário já se tinha encontrado com o candidato presidencial em Leiria há dois dias, quando Ventura foi pela primeira vez à cidade depois da tempestade. Para se chegar à sua exploração, é necessário passar numa estrada ocupada por árvores e postes de electricidade caídos.
Foi difícil, mas Fábio Franco conseguiu conter as lágrimas enquanto, durante cerca de meia hora, mostrava todo o prejuízo ao líder do Chega e à comitiva que o acompanha nesta campanha.
Fábio considera que vai ser difícil recuperar o que a tempestade Kristin causou. Diz que é a terceira catástrofe que provoca estragos, e esta a mais grave. Ao candidato presidencial pediu que os apoios fossem rápidos e sem burocracia. Explica que os 10 mil euros por norma atribuídos servem apenas para "recuperar os vidros dos tractores", uma vez que, para recuperar as estufas e os hectares de produção, precisa de pelo menos um milhão de euros. Ao lado de Fábio, a mãe estava desfeita em lágrimas por receio de que o filho abandone a profissão para a qual estudou.
"Ele trabalhava sempre com gosto", diz em lágrimas.
O agricultor de 37 anos foi dando nota de que tem vários funcionários jovens – um deles com 33 anos que ficou sem a casa que começou a construir há dois meses. Fábio Franco tem receio por ele e pelos funcionários. Contou que alguma produção de alfaces que conseguiu conservar ainda vai chegar aos hipermercados, mas deu nota de que não tem mais produtos, pois foi tudo destruído pelo vento.
É um dos principais produtores de alface no país e teme que, nos próximos dias, se intensifique a concorrência exterior, uma vez que os produtores da região ficaram todos com prejuízo e produções alagadas. Na exploração, com os estragos nas estufas, era impossível passar da porta. Os trajectos estavam bloqueados e a visita acabou por ser feita de carro até um outro ponto da cidade de Leiria, onde era visível um grupo de gado "isolado" à beira-rio, com difíceis acessos. Fábio Franco deu nota de que, como a freguesia de Amor, há outras ainda mais isoladas que continuam sem luz, água e rede. O agricultor refere que, nos arredores da cidade de Leiria, a situação é ainda mais dramática.
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- 15 jun, 2026











