A caravana passa, a Renascença fica
Soure dispensa visitas de políticos devido ao mau tempo. “O vento ainda os levava”
31 jan, 2026 - 13:35 • Alexandre Abrantes Neves , Beatriz Pereira
Primeiro-ministro, Presidente da República e candidatos presidenciais têm-se desdobrado em visitas aos locais afetados pelo mau tempo e em ações de solidariedade. Mas em Soure, onde se sentiu a rajada mais forte da tempestade Kristin, a população não vê necessidade em receber responsáveis políticos. "Não vêm cá fazer nada".
Nem Luís Montenegro, nem Marcelo Rebelo de Sousa, nem António José Seguro, nem André Ventura. Soure, um dos concelhos mais afetados pela tempestade Kristin e por cheias nos últimos dias, não recebeu a visita de nenhum responsável político ou candidato presidencial.
Ricardo Neto tem o ginásio danificado devido ao rio Arunca que galgou e apanhou grande parte das lojas e serviços da zona ribeirinha. Mas nem por isso pede a visita do Presidente da República ou do primeiro-ministro.
“Penso que isso tem o impacto visual e mediático que tem. Isso cria sempre alguma noção de sensibilidade, mas vale o que vale. As respostas têm de ser dadas por quem está no terreno, por quem tem essas responsabilidades. Desde que o trabalho invisível aconteça, isso para mim é o principal”, afirma à Renascença.
Esta posição é partilhada por muitos daqueles que vivem e trabalham na vila. Francisco – ou “Xico”, como prefere ser tratado – considera que os “políticos não vêm cá fazer nada”, especialmente os dois candidatos presidenciais da segunda volta, que não têm responsabilidades governativas atualmente.
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“Se eles dissessem assim: ‘olhe, temos aqui uma verba disponível para ajudar a cobrir as despesas das pessoas afetadas’. Mas eles não dizem, não dão”.
O importante, parecem todos concordar aqui, é que os responsáveis locais estejam no terreno e se mostrem visíveis. Célia Pimentel trabalha numa residencial que, por uns escassos 100 metros, não acabou atingida pelas cheias que afetam o centro da vila. De todos os políticos, o que leva melhor nota é o líder da autarquia.
“O nosso presidente [da câmara] tem estado a ser e a agir muito bem. Eu acho que há casos muito piores do que o nosso”, afirma, reconhecendo que a visibilidade de figuras de relevo nacional pode ajudar outras localidades mais desamparadas ainda.
Na leitura da vice-presidente da autarquia, este não é o momento ideal para visitas que obriguem a uma atenção redobrada por parte dos autarcas e das autoridades municipais. “Cada coisa a seu tempo”, defende Teresa Pedrosa.
Numa altura em que muitas aldeias do concelho ainda estão a braços com falta de eletricidade e com muitos escombros por limpar, esta responsável apela antes a que a administração central se empenhe em garantir disponibilidade total de meios no terreno.
“O apoio que precisamos é que todos os meios de socorro estejam em prontidão. Precisamos, depois, que alguém olhe para estes territórios e que os faça recuperar. As visitas ficam para depois, quando já se estiver a contabilizar os estragos”.
Do alto do seu terreno (onde voou o curral onde guardava as ovelhas e as galinhas), Manuel Oliveira também aconselha a atrasar as visitas, os beijinhos e as selfies para mais tarde.
“O que é que eles vinham para aqui fazer? O vento ainda os levava”, ironiza, entre risos.
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