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Visita oficial do PR a Espanha

A “ligeira inveja”, Rosalía, o filho de Futre e uma “amizade natural”. O adeus de Marcelo a Espanha

20 fev, 2026 - 21:53 • Susana Madureira Martins

O Presidente da República terminou a visita oficial a Espanha com referências à cantora Rosalía, às mudanças “conjuntas” que Portugal e Espanha precisam de fazer no “sistema” de proteção civil e com a “esperança” que Seguro tenha o país vizinho como primeiro destino.

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Ponto final, parágrafo. Acabou. Marcelo Rebelo de Sousa fez a última visita oficial ao estrangeiro como Presidente da República em funções. Foi uma viagem relâmpago a Espanha, não foi exatamente como queria, com mais tempo e mais eventos, mas teve um abraço pouco protocolar de Felipe VI e saiu de Madrid com a certeza de que o seu sucessor, António José Seguro, irá escolher o país vizinho como primeiro destino do seu mandato.

Fã de Felipe VI e de Leticia, Marcelo despediu-se do casal real com uma graça que praticou duas vezes, referindo a “ligeira inveja” que tem do Rei de Espanha pela popularidade não apenas entre os espanhóis, mas entre os portugueses e que diz ter sido evidente no pós-pandemia.

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“Sendo Portugal uma República, com uma maioria clara de republicanos, ainda assim, havia uma exceção para o rei de Espanha tratando com carinho, uma ternura, uma simpatia, uma admiração que causava uma ponta de inveja no Presidente da República portuguesa”, repetiu Marcelo numa receção na embaixada portuguesa em Madrid. E acrescentou: “Eu, como não sentia tanto que tantos espanhóis me sentissem como presidente da Espanha, tinha uma ligeira inveja”.

Uma inveja que não impediu Marcelo de classificar a “amizade natural” entre os dois países e a certeza da “continuidade no futuro quanto a uma amizade, fraternidade, irmandade entre Portugal e Espanha”, em breve com outro protagonista em Belém.

Ao seu estilo, o almoço com os Reis e a passagem pela embaixada portuguesa em Madrid deram para Marcelo fazer o seu próprio show, entre o institucional puro e a graça constante.

Deu para falar da importância do Campeonato Mundial de Futebol de 2030, organizado por Portugal, Espanha e Marrocos, notando que no salão nobre da embaixada estava o filho de Paulo Futre, “uma presença portuguesa permanente em Espanha”, referindo ainda o “sinal de convergência num setor muito popular e importante para a projeção universal”.

Deu para falar dos negócios que “triplicaram nas últimas décadas” entre os dois países. E também para agradecer aos Reis espanhóis e ao governo espanhol pela “rápida ajuda” após os temporais das últimas semanas. Aqui chamou a atenção para a prevenção e mitigação das mudanças climáticas como “objetivos comuns”, alertando para a necessidade de trabalhar em conjunto “incluindo os sistemas de proteção civil”, não dizendo, porém, em que sentido.

E deu ainda para anunciar que já tem bilhetes e irá, já depois de deixar a Presidência da República, ao concerto de Rosalía, em Lisboa, a popular cantora espanhola que cantou um dueto “Memória” com a portuguesa Carminho. Porque “a amizade continua, a Presidência é um período de missão, mas não uma forma de vida”, disse Marcelo em castelhano.

Marcelo - o tempo que passou, não volta mais

Ao longo das últimas semanas e meses, Marcelo tem estado a fechar gavetas. Espanha foi mais uma delas. E se pudesse voltar atrás no tempo, assume que “muita coisa” teria feito diferente.

Na conversa que manteve com os jornalistas à margem da receção a espanhóis e portugueses na embaixada em Madrid, o Presidente assumiu que se “tivesse imaginado” a pandemia, os fogos florestais ou avaliações que fez “num determinado momento na política internacional”, reconhece que “corrigiria aspetos” do seu comportamento.

Marcelo assume que em 10 anos de mandato assistiu a “três mundos diferentes”. O da paz, em que o mundo “parecia caminhar para a paz, para o crescimento económico, uma Europa otimista”, depois “a fase da pancada da pandemia e da recuperação da pandemia” e por último, a guerra na Ucrânia, com o que isso “deu de inflação, desregulação internacional”.

E o mundo dos chefes de Estado e de Governo. “Aqueles que eu tinha conhecido, de repente, já não eram”, resume Marcelo, acrescentando: “E outros surgiam ou estavam a surgir. E em muitos países com mandatos mais curtos do que os cinco anos”.

Do ponto de vista físico, isto significou para o Presidente “quatro hérnias e uma operação cardíaca” e do ponto de vista intelectual, significou ajustar-se a um mundo “completamente diferente”. Um dos casos “bons” foi o espanhol, em que Marcelo conheceu dois governos diferentes, mas o chefe de Estado “foi sempre o mesmo”. Uma permanência do Rei que foi “verdadeiramente muito importante para a estabilidade das relações com a Espanha”.

“Agora, deixem-me ir”

Quanto à imagem com que sai de 10 anos de mandato, Marcelo reconhece que “há-de haver uma imagem agora, há-de haver uma imagem daqui a quatro ou cinco anos, há-de haver uma imagem daqui a cinco ou 10 anos e, depois, há-de haver um momento em que, quando eu morrer, haverá a imagem no momento da morte, que, normalmente, é sempre muito boa”.

Finalmente, questionado sobre se sente que foi o Presidente da proximidade, Marcelo concluiu que “todos” os chefes de Estado o foram. De Eanes a Cavaco Silva.

“Quando o Presidente Seguro esteve agora no terreno, eu vi um exemplo de Presidente da proximidade, no calor humano dos abraços e dos encontros que teve”, sentenciou Marcelo. E assumiu que não falou com o Presidente eleito quando deu como certo perante os Reis que o primeiro destino de António José Seguro seria a Espanha.

“É uma esperança de que assim seja, como aconteceu no passado”, concluiu Marcelo já com o embaixador português em Madrid, José Augusto Duarte a puxá-lo pelo braço. “Agora, deixem-me ir”, atirou aos jornalistas que o acompanharam na visita oficial, numa espécie de metáfora da sua própria saída de Belém. Antes disso, ainda parte para África e para Bruxelas para fechar outras gavetas.

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