Autarquias
Poder local abana Chega: vereadores saem e juntam-se às maiorias
17 mar, 2026 - 06:45 • Tomás Anjinho Chagas
Pelo país fora, os vereadores eleitos pelo Chega desvinculam-se e dão a mão aos partidos mais votados, formando maiorias. Bruno Mascarenhas, vereador em Lisboa, está debaixo de fogo. Há acordos entre vereadores ainda no Chega e o PSD. Ventura fala em "tema local" e remete para mais tarde.
Durante várias semanas, nas campanha para as eleições autárquicas, o Chega foi avisando que queria quebrar o bipartidarismo autárquico e acabar com a hegemonia do PS e PSD. Seis meses depois, há vereadores do Chega que abandonaram o partido e que se juntaram aos maiores partidos.
Na semana passada, o líder do Chega referiu-se ao caso como uma "questão de natureza regional e local".
Vereadores independentes
O que era suposto servir de demonstração de que o Chega não é apenas um partido de protesto está a tornar-se num embaraço. Oito vereadores eleitos já roeram a corda e anunciaram que passaram a independentes.
Aconteceu em Lisboa, Gaia, Funchal, Fundão, Marinha Grande, Coimbra e Mirandela. Nestes casos, o Chega perdeu força nos municípios, uma vez que os titulares não renunciaram ao cargo que conquistaram em outubro de 2025, preferiram manter-se no lugar como independentes.
Nos casos de Lisboa, Gaia e Fundão é mais grave para o partido, que além de ter perdido a representação, viu os seus vereadores a assumir pelouros e juntar-se aos executivos liderados pelo PSD.
Em Ourém, Azambuja e Odemira, os vereadores pediram para ser substituídos, esses renunciaram ao cargo, que passou para os seguintes nas listas.
Questionado, na semana passada, sobre este tema, André Ventura remeteu para o Conselho Nacional do Chega (que ainda não está marcado), mas desvalorizou, defendendo que "os outros partidos também já perderam muitos vereadores, muitos deputados municipais”. Nesta altura, sugeriu também que muitas pessoas se aproveitaram do crescimento eleitoral do Chega para conseguir lugares políticos.
Abanão em Lisboa
Em vários destes casos, os vereadores que se desvincularam do Chega acabaram por se entender com outros partidos. O caso mais gritante aconteceu em Lisboa, a maior autarquia do país, onde Ana Simões Marques - vereadora que saiu do Chega em rota de colisão com Bruno Mascarenhas - chegou a acordo com a coligação liderada por Carlos Moedas.
A vereadora ex-Chega ficou com os pelouros da saúde e do desperdício alimentar e torna-se uma peça fundamental para que Carlos Moedas consiga maioria na Câmara Municipal de Lisboa. A vereadora do partido que anunciou que queria quebrar o bipartidarismo em Portugal acabou por dar a maioria ao PSD na capital.
O abanão em Lisboa não fica por aqui. O Chega corre o risco de ficar sem qualquer representação em Lisboa. Depois da saída de Ana Simões Marques, Bruno Mascarenhas, que foi o cabeça de lista na capital, pode estar a prazo.
Uma investigação da RTP mostrou que o vereador indicou a namorada, Mafalda Livermore, para ser nomeada pela Câmara de Lisboa para vogal do Conselho de Administração dos Serviços Sociais da autarquia de Lisboa. A reportagem revelava que a militante do Chega usa imóveis próprios como habitações clandestinas para imigrantes. Bruno Mascarenhas defendeu, durante a campanha para as autárquicas, que casos como este estão na origem da subida galopante dos preços da habitação em Lisboa.
Mafalda Livermore foi exonerada pelo executivo de Carlos Moedas, mas as consequências podem não ficar por aqui. No passado sábado, Rita Matias, deputada do Chega, dirigente e uma das vozes mais mediáticas do partido, defendeu a saída de Bruno Mascarenhas. "Se quiser fazer um favor ao partido", disse a deputada, que acrescentou que deve "passar o lugar".
Este domingo, André Ventura garantiu que já há "procedimentos internos" para tomar uma decisão sobre Mascarenhas, mas dividiu culpas com Carlos Moedas, que foi o responsável formal pela nomeação de Mafalda Livermore.
Alianças de estabilidade
Ao mesmo tempo que muitos autarcas eleitos pelo Chega saltam do barco, outros fazem acordos com o PSD mesmo mantendo o vínculo com o partido.
Há um caso particular, em Coimbra, onde o PS venceu a autarquia e Ana Abrunhosa, presidente da Câmara, fez um acordo com uma ex-vereadora do Chega. Ainda que não seja declarado, Ana Abrunhosa atribuiu a liderança de uma escola profissional a Maria Lencastre, o que pode ser lido como uma moeda de troca para que consiga aprovar propostas no executivo, incluindo o orçamento municipal, que pode assegurar a estabilidade do mandato.
Depois de Sintra e Cascais, o caso de Benavente é o mais recente. Esta segunda-feira, a coligação da AD anunciou um acordo com o vereador do Chega para garantir a estabilidade. Em troca, entregou seis pelouros ao Chega, garantindo assim maioria na autarquia. Em casos como este, resta saber que efeito tem a normalização do Chega, que abandona o papel de oposição e passa a fazer parte da responsabilidade de governar.
- Noticiário das 3h
- 11 mai, 2026







