10 DE JUNHO
Seguro defende autonomia estratégica europeia como "prioridade". "Não é contraditória com a defesa transatlântica"
10 jun, 2026 - 10:59 • Susana Madureira Martins
Angra do Heroísmo, na ilha da Terceira, é o palco das comemorações do primeiro 10 de junho de António José Seguro como Presidente da República, onde também marca presença Marcelo Rebelo de Sousa, o anterior chefe de Estado.
O Presidente da República, António José Seguro, defendeu esta quarta-feira a autonomia estratégica europeia como "prioridade", mas ressalvou que esta aposta "não é contraditória com a defesa transatlântica. É o seu complemento natural".
"O presente e o futuro da Europa e da América do Norte são dimensões de uma mesma comunidade de segurança que tem a NATO o seu pilar fundamental", referindo ainda que os Açores "assumem um lugar singular na nossa identidade, história e futuro", argumentou.
Sem falar da polémica utilização da Base das Lajes pelos Estados Unidos da América na guerra com o Irão, o chefe de Estado português referiu que os Açores "situam-nos num ponto estratégico de relação entre a Europa e o continente americano, entre o Atlântico Norte e as grandes rotas marítimas e aéreas que estruturam a ordem global".
António José Seguro falava esta quarta-feira durante a cerimónia militar do 10 de junho, a decorrer pela segunda vez na ilha da Terceira, nos Açores.
No recinto do Cerrado do Bailão, no centro da cidade de Angra do Heroísmo, o Presidente da República defendeu que o Atlântico "faz parte da autonomia estratégica europeia" e que a autonomia "não significa isolamento, mas liberdade de decisão, reforçando cooperações bilaterais com os nossos aliados".
Este é um tempo que "pede coragem" para "defender o interesse de longo prazo"
Após o posicionamento estratégico de Portugal, Seguro lançou vários recados para o Governo do primeiro-ministro Luís Montenegro, avisando que "este é um tempo que nos pede coragem prática de fazer escolhas difíceis sem ceder ao populismo".
Sem falar de partidos em particular ou de eventuais cedências do executivo ao Chega, o Presidente da República pede para que se aposte na "verdade mesmo quando é desconfortável" e que se invista no futuro "mesmo quando o presente aperta". Este é o tempo de "defender o interesse de longo prazo, mesmo quando o ciclo eleitoral empurra para o curto prazo.
Seguro pede que se aposte no "talento" português, dos cientistas e das Universidades. "Com necessidade, o Estado e as empresas têm de reconhecer que o mercado de trabalho ainda não aprendeu a recompensar adequadamente o conhecimento e a inovação. Isso é inaceitável e temos de o alterar. Ao contrário da ladaínha habitual, Portugal não pode cair no fatalismo nem ficar à espera de milagres", avisa o chefe de Estado.
Os "tempos de trincheiras" e o "vírus da polarização"
Insistindo que foi eleito Presidente da República para "unir", Seguro lamenta os "tempos de trincheiras" que diz que se vivem no país. " As ansiedades que sentimos na economia, na geopolítica, na segurança das cidades, na proteção dos mais desfavorecidos, nas questões muito concretas da vida das pessoas reais, criam esse impulso de fechar fileiras, de escolher um lado, de erguer muros", diz o chefe de Estado.
Seguro pede que se aposte na "palavra do meio", ou seja, que o centro político e moderado vigore contra o que designa como "o vírus da polarização". "Neste tempo, faltam-nos cada vez mais as palavras do meio. Aquelas que não nascem entre muros, mas nos espaços abertos. As que não ficam sitiadas nem sitiam, mas que se abrem como convite ao diálogo e ao encontro", lamenta o Presidente.
"As palavras do meio são mais de tolerância do que de exclusão, mais de disponibilidade do que de afastamento. São elas que permitem a aproximação, a criação de pontes entre as pessoas, entre os portugueses, entre as instituições e as ideias. São o antídoto para o vírus da polarização, que tende a substituir a argumentação, o debate e a negociação", acrescenta Seguro.
Promotor do diálogo entre as diversas forças políticas, Seguro refere que o seu papel de "unir os portugueses" não significa uma "unanimidade artificial indesejável. Significa reconhecer que a Pátria é um chão comum e que nele há espaço e lugar para todos".
Contra o discurso anti-partidos, o Presidente avisa: "Não haverá democracia firme e pujante sem partidos, sem reconhecermos a política. Sendo um espaço de confronto é também, deve ser também, um lugar de compromisso, com a tolerância para quem pensa de forma diferente, para quem tem origens distintas, religiões e credos distintos, por forma a Portugal seja para todos um chão comum".
Ventura ausente em Lisboa, Carneiro ao lado do PGR
A cerimónia que contou com a presença dos vários protagonistas políticos, desde o presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, acompanhado por diversos membros do Governo, como o ministro da Defesa e líder do CDS-PP, Nuno Melo e o número dois do Governo, o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, e ainda o ministro da Presidência, António Leitão Amaro.
Entre os líderes políticos presentes na tribuna dos convidados, estiveram o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, que teve sentado ao seu lado esquerdo o procurador-geral da República, Amadeu Guerra, poucas semanas depois de a sede dos socialistas ter sido alvo de buscas judiciais, na sequência da operação "Imergente".
O líder do Chega, André Ventura não esteve presente na cerimónia do dia de Portugal nos Açores, fazendo-se representar pelo líder parlamentar, Pedro Pinto.
As cerimónias em Angra do Heroísmo incluem ainda a condecoração pelo Presidente da República da Universidade dos Açores, no Solar da Madredeus, residência da representante da República na região, terminando com o arriar da bandeira ao fim da tarde, no Pátio da Alfândega.
- Noticiário das 0h
- 23 jul, 2026







