Nóvoa. O “craque” exemplar que deixou saudades na Académica
21 jan, 2016 - 08:00 • José Pedro Pinto
Nos anos 70, “Sampaio da” não entrava no registo de inscrição do médio júnior da Briosa. Era apenas "Nóvoa". Esta é a história do rumo totalmente diferente que a vida do candidato à Presidência poderia ter tomado - ou a lembrança de um “excelente jogador” que tinha tudo para singrar no mundo do futebol.

Nóvoa, em 1972, com colegas da Académica
Marcelo Rebelo de Sousa é sócio do Sporting de Braga. Marisa Matias não esconde o carácter ferrenho do seu benfiquismo. Até Vitorino Silva – conhecido como “Tino de Rans” – já espalhou algum “perfume” do desporto-rei pelos relvados, chegando mesmo a envolver-se em jogos repletos de “fair-play” e solidariedade entre reclusos e árbitros.
Contudo, quem levou a bola debaixo do braço para esta campanha para as presidenciais foi um polivalente candidato que, asseguram muitos, passou ao lado de uma carreira “promissora” no futebol.
“Nóvoa”, como lhe chamavam – sem “Sampaio da” – destacou-se na vida social, académica, cultural e… desportiva.
A descoberta da Académica, o salário de juvenil, a independência antecipada
Nos anos 70, deu o seguimento natural a uma infância em que a bola marcava a alegria do dia-a-dia e passou para o patamar seguinte. Descoberto, em Nova Oeiras, por um olheiro da Académica, experimentou a formação do futebol da Briosa. Ao que garantem, era “craque”.
“Ele foi meu júnior, na época de 1972/73”. Cronológico, o discurso do treinador José Manuel Crispim enche-se de vaidade e orgulho pelo facto de ter sido treinador daquele a quem apelidam de “candidato sem medo”.

O futebolista Sampaio da Nóvoa (à esquerda, em baixo), com amigos
“Veio para Coimbra, para os juvenis, em 1971 e depois passou para os juniores. Era um excelente jogador, muito promissor”, diz à Renascença.
“Exemplar” dentro e fora de campo
Nóvoa – o único nome do minhoto inscrito pela Académica nas fichas de jogo – matriculou-se em Matemática, na Universidade de Coimbra, para poder representar a Académica e, aos 16 anos, recebia já um ordenado de juvenil (qualquer coisa como 1.300 escudos, na altura), iniciando a emancipação do berço familiar.
Era, dentro de campo, aquilo que cultivava fora das quatro-linhas. A histórica tradição e exigência da Briosa assim o determinavam: os atletas tinham de aliar à boa prestação desportiva um registo positivo a nível lectivo. António Sampaio da Nóvoa era, à falta de melhor expressão, uma referência no balneário dos juniores de Coimbra.
“Era um estudante excepcional e, aos 16 anos, já era universitário”, recorda José Manuel Crispim, referindo-se ao facto de, já na primária, Sampaio da Nóvoa ter completado dois anos curriculares num só. “Além de ser bom aluno, era um excelente jogador”, reforça, relatando que fazia uso do caso do jovem atleta para motivar e orientar os restantes elementos do plantel.
“‘Vocês têm de olhar para o Nóvoa’, dizia-lhes. Era um exemplo para todos os colegas de equipa.”
O fim inesperado
“Foi pena não ter podido continuar, porque estou convencido que era jogador com capacidades para integrar o onze da equipa sénior da Académica”, salienta o treinador, que propôs o nome do então médio-defensivo para a promoção ao plantel principal dos estudantes.
“Foi proposto para passar à equipa sénior no ano seguinte, mas acabou por recusar porque o pai, julgo, fez com que regressasse a Lisboa. Naquela altura, indicávamos sempre quatro, cinco jogadores para subir aos seniores. Víamos nele um grande futuro”, vaticina Crispim, em modo pretérito.
Mas como era o jovem Nóvoa em campo? “Um moço excepcional, um trabalhador inato, um grande companheiro”, reforça o técnico, que guiou uma parte importante da carreira de um homem que hoje em dia corre sem bola mas à procura do “golo” mais importante da sua vida.
Para os entendedores do “futebolês”, cá vai o perfil de Sampaio da Nóvoa: “Era um médio de cobertura, um número ‘6’, que se integrava bem no ataque. A Académica ganhava os jogos todos, no distrital. Era um jogador que, acima de tudo, era colega dos seus colegas e que ‘dobrava’ posições de companheiros de equipa, apoiando-os quando estavam descompensados. Teria dado um craque”, assinala José Manuel Crispim, de forma saudosista e, a espaços, com evidente mágoa de não ter visto o seu pupilo apostar na carreira desportiva.
Quatro décadas passaram
Passaram mais de 40 anos. Quatro décadas que separam o carácter calmo de Sampaio da Nóvoa, como jogador, do tom constante de confrontação, de defesa de princípios acérrimos e, por vezes, de rigidez na análise aos adversários no “relvado” das Presidenciais.
José Manuel Crispim reconhece mudanças comportamentais no jogador que em tempos fazia as suas próprias delícias em campo e que era indiscutível nas suas opções.
“É uma pessoa com muito ‘fair-play’. Estive com ele, depois de o ter orientado, na final da Taça de Portugal, quando a Académica derrotou o Sporting [em 2012]. Vimos o jogo lado a lado. Continua a mesma pessoa: humilde, mas sempre com enorme categoria.”
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