“De São Bento para o céu, sempre é mais perto”
15 jul, 2020 - 11:30 • Olímpia Mairos
Monjas cistercienses comemoram 15 anos em São Bento da Porta Aberta. É uma comunidade reduzida, em Rio Caldo, que conta apenas com três monjas, mas têm esperança que venha a aumentar. O dia destas monjas começa às 5h30 e termina por volta das 22h.
Até há muito pouco tempo eram a única comunidade de Monjas Cistercienses em Portugal. Agora, dizem alegremente que já há, pelo menos, mais uma comunidade, como a delas.
Estão no Santuário de S. Bento da Porta Aberta, no concelho de Terras de Bouro, e comemoram esta quinta-feira, 16 de julho, 15 anos de presença em Portugal. Seguem a Regra de São Bento e a sua tradição monástica vem do século VI, “Ora et Labora”.
A comunidade é reduzida, conta apenas com três monjas, mas têm esperança que venha a aumentar, “com a graça de Deus”.
As primeiras monjas, Fátima e Conceição, chegaram em 2005. Só mais tarde, em 2012, chegou a monja Francisca. Vieram todas de França, da Abadia de Boulaur, onde fizeram os votos definitivos, e apesar de estarem habituadas à vida num mosteiro, conseguiram adaptar-se a viver fora dele, mas com as mesmas regras.
O dia da pequena comunidade começa muito cedo, às 5h30 e termina já tarde, por volta das 22h. Reúnem-se sete vezes ao dia, na capela para cantar os louvores do Senhor. O resto do tempo é ocupado na leitura da Palavra de Deus, leitura espiritual e trabalho.
Em entrevista enviada à Renascença, afirmam que foi Deus que as trouxe até São Bento “e de São Bento para o céu, sempre é mais perto”, dizem.
As monjas vivem do trabalho que desenvolvem na clausura do mosteiro, que compreende compotas, marmelada, biscoitos, frutos secos torrados, pasta de fruta, chás, mel, licores, xarope de aloé vera, terços, sabonetes de glicerina vegetal, bálsamos para as mãos, pés, rosto e lábios e casaquinhos de bebe em crochet, assim como algumas publicações.
“A oração, até certo ponto não nos dá de comer... O nosso trabalho é exercido na clausura do mosteiro. Trata-se de um trabalho manual simples, muito querido na tradição monástica. O trabalho manual absorve as mãos e deixa o espírito livre para vaguear até à oração. Um monge ou monja reza, enquanto trabalha”, explicam as religiosas, acrescentando que “o segundo pilar de um mosteiro, depois da oração, é a autonomia financeira para a sobrevivência da comunidade”.
Neste contexto, apresentam o quintal como “uma obra de arte, uma simbiose da agricultura, com a fruticultura e floricultura”, pois, ali “é possível encontrar variedades diferentes de fruta, legumes, flores e chás biológicos”.
“Colaboração entre os leigos e a comunidade” é o segredo do “êxito”
Em Rio Caldo, o mosteiro não tem hospedaria, embora as monjas gostassem de ter um espaço para receber os hospedes e compartilhar a sua espiritualidade. “Não para ganhar dinheiro, mas para os receber e partilharmos a nossa oração com eles. Só conseguimos receber algumas jovens, poucas, para discernimento vocacional”, referem.
“Somos monjas de clausura, embora vivamos este conceito de forma diferente de outras ordens, porque não é em regime total fechado. Recebemos as pessoas, em espaços reservados para esse efeito, como por exemplo, a nossa capela, e também saímos para determinados afazeres da comunidade”, assinalam.
As monjas cistercienses destacam a “colaboração entre os leigos e a comunidade” com a formação de grupos de amigos e amigas cistercienses que “rodeiam a comunidades da sua amizade, que disponibilizam generosamente o seu tempo, as suas competências profissionais, o seu saber fazer para ajudar em diversos trabalhos”.
Os “amigos e amigas cistercienses, naturais daqui ou de mais longe, têm cada um a sua maneira de partilhar o melhor deles. Todas as idades são representadas, desde os miúdos que vêm rotular frascos de compotas, até aos avós que dão conselhos sobre este ou aquele trabalho agrícola, passando pelos jovens, cheios de força que limpam, numa tarde, o quintal de todas as suas ervas daninhas. Raparigas que dão uma ou duas semanas de férias, casais, mães ou pais de família que que nos guiam pelos labirintos da informática, do marketing, para uma melhor apresentação dos nossos produtos”, contam as monjas.
As religiosas assinalam ainda que “os monges e as monjas de hoje não têm vergonha de dever os seus êxitos a esta bela colaboração. Quando há sucesso, como diz São Bento, não é de um só, é de vários, de todos. Assim ninguém se orgulha sozinho, mas alegramo-nos todos juntos”.
As três monjas: Fátima, com 80 anos, Francisca, com 61 e Conceição, com 54, abraçaram a vida religiosa há mais de 30 anos e escolheram a Ordem de Cister porque “é uma ordem que vive do seu trabalho”. Não escondem o desejo de ter mais monjas no seu mosteiro, mas ressaltam que, para isso, “é preciso que sintam o chamamento de Deus”.
“Segundo a regra de São Bento é necessário ser um buscador de Deus”, observam as monjas, manifestando disponibilidade de acolher jovens “em alturas diferentes do ano, para vivenciarem de perto a forma de como vivemos”.
“Se houver alguém interessado, pode entrar em contacto, sem qualquer compromisso”, concluem.
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