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Entrevista

“A Igreja tem um problema grande de linguagem”

05 jun, 2024 - 21:30 • Ana Catarina André

O padre jesuíta Nuno Gonçalves, que dirige a revista internacional "La Civiltà Cattolica”, defende ainda que, na votação para as eleições europeias do próximo domingo, os cristãos devem ter em conta critérios como a defesa da paz, da justiça e da vida. Sobre um dos temas que tem marcado a campanha, o sacerdote afirma que a Europa tem de saber acolher e integrar os migrantes, “com regras”.

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O padre Nuno Gonçalves, diretor da revista internacional dos jesuítas "La Civiltà Cattolica", considerada por muitos o órgão oficioso do Vaticano, defende que a Igreja tem de ter em conta que as pessoas “já não têm as referências cristãs básicas”. “Não devemos partir do princípio de que as pessoas nos entendem”, diz o jesuíta, que, entre 2016 e 2022, foi reitor da Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma.

Em entrevista à Renascença, o sacerdote afirma, ainda, que a Europa tem de saber acolher e integrar os migrantes, “com regras”. “Acho que um dos critérios para a escolha do partido ou do candidato em quem votar passará certamente pelas questões da imigração”, defende, acrescentando que a defesa da paz e da vida devem ser outros aspetos a considerar.

Dirige a revista internacional dos jesuítas, "La Civiltà Cattolica", que procura ser ponte entre o mundo contemporâneo e a Igreja. Olhando para a Igreja em Portugal, parece-lhe que esta está a ser capaz de fazer essa ponte e de chegar ao mundo?

Acho fundamentalmente que sim, que a Igreja em Portugal tem uma boa relação com o mundo em que está inserida, com a sociedade. Depois isto tem muitas facetas, mas, em geral, acho que sim. Também gosto sempre de lembrar as imagens do Evangelho: a Igreja tem de ser luz do mundo e o cristão tem de ser luz do mundo e sal da terra. Acho que a Igreja em Portugal procura desempenhar esse papel com os seus altos e baixos, com as suas dificuldades, mas tem esta dimensão do Evangelho muito presente nas muitas manifestações da sua existência, na liturgia, na catequese, na defesa e acompanhamento dos mais pobres, na luta pela justiça.

Na sua perspetiva, qual poderá ser a chave para chegar às pessoas que estão mais distantes da Igreja, cujo vocabulário está também mais distante do vocabulário cristão? Que salto é preciso dar para chegar a estas pessoas?

Essa questão é muito importante. É a questão da linguagem, a linguagem que as pessoas da Igreja usam para comunicar com os próprios cristãos, mas também com as outras pessoas que já estão muito afastadas. Acho que a Igreja tem um problema grande de linguagem, de se fazer entender e, portanto, tudo aquilo que pudermos fazer para primeiro tomarmos consciência desta dificuldade…

Não devemos partir do princípio de que as pessoas nos entendem. Não têm o vocabulário que a Igreja usa normalmente. Já não têm as referências cristãs básicas e, por isso, quando nos dirigimos às pessoas, temos de ter isso muito bem presente. Explicar muito bem, usar comparações. É melhor partir do princípio que as pessoas, de facto, não têm os instrumentos e os conceitos para compreenderem aquilo que é o Evangelho, que é a vida da Igreja. As pessoas estão tão afastadas que nós temos de perceber isso, ir ao [seu] encontro e estabelecer pontes para que haja aqui uma possibilidade de encontro.

Esta campanha para as europeias tem sido muito marcada pelo tema das migrações e por uma crescente polarização que acontece não só em Portugal, mas também um pouco por toda a Europa. O que é que está a falhar para que se estejam a extremar posições? É o acompanhamento das pessoas? É a formação?

Temos diante de nós as eleições europeias e houve várias referências, vários comunicados da Conferência dos Episcopados da União Europeia, de vários bispos, com indicações sobre a maneira de votar, os critérios para escolher em quem votar. Acho que esses critérios são muito importantes, partindo já do princípio de que votar é um direito e um dever. É o dever de participação. Não nos podemos, depois, lamentar se prescindimos de usar a nossa arma principal do ponto de vista político que é o voto.

É claro que nestas eleições, como noutras, não há candidatos, nem há partidos ideais. O cristão que procura votar na sua consciência deve usar os critérios do Evangelho e procurar discernir qual é o candidato, o partido que mais se aproxima. Acho que esses critérios têm a ver também com a questão da imigração, que é tão importante. A imigração tem de ter um rosto humano. Temos de saber acolher e integrar os imigrantes. Aliás, temos imensa necessidade [destas pessoas] na Europa, mas também não pode ser uma imigração descontrolada. Tem de ser com regras, às vezes com os tais corredores humanitários de que se fala, mas sobretudo com grande esforço de acolhimento e integração. Acho que um dos critérios para as eleições europeias, para a escolha do partido ou do candidato em quem votar, passará certamente pelas questões da imigração. Mas não só.

Também temos de ter em atenção que outras formas de defesa da justiça os partidos e os candidatos apresentam, a maneira como entendem combater a pobreza, defender a paz e opor-se à guerra, a maneira como entendem a defesa da vida, desde a conceção até à morte natural.

Teme que a Europa deixe de ser uma referência da promoção da paz, da democracia, da fraternidade entre os povos?

Estamos numa situação mundial e internacional muito difícil, com guerras que se multiplicam de uma maneira cada vez mais violenta. O caminho da Europa tem de ser o caminho da paz. Haverá várias estratégias para esse chegar. Também não há uniformidade entre todos os governos e países, mas não pode haver outro caminho para a Europa que não seja o da paz interna e da promoção da paz a nível internacional.

O Papa Francisco tem feito inúmeros apelos à paz. O que mais pode ainda ser feito da parte da Santa Sé neste sentido?

Os apelos repetidos do Santo Padre são fundamentais. É uma voz que é ouvida, a quem é reconhecida autoridade moral pelas instâncias internacionais. A Santa Sé faz muitas coisas que depois não divulga. Age muito nos bastidores, mas também temos de ser realistas e pensar que a Santa Sé não pode fazer tudo. Há certas fronteiras que não ultrapassa. Não consegue tudo. Por exemplo, a questão das mediações, das trocas de prisioneiros, da possibilidade de as crianças voltarem às suas famílias, às suas terras de origem são pequenas iniciativas de grande importância simbólica em que a Santa Sé está envolvida com alguns resultados.

Falando da questão do Médio Oriente, recentemente vários países reconheceram o Estado da Palestina, como foi o caso de Espanha, Noruega e Irlanda. O Vaticano pode voltar a pronunciar-se em breve sobre esta matéria?

A Santa Sé tem sempre defendido a existência de dois Estados naquela região, no Médio Oriente, em que o povo palestiniano e Israel possam conviver pacificamente. Essa é também a opinião da comunidade internacional e das Nações Unidas. Sabemos que é uma tarefa muito difícil, mas temos de reconhecer a existência de dois povos, a quem devem ser dados direitos de existência.

É preciso também que os dois povos queiram investir na paz. E aí está uma grande dificuldade, porque, ao longo das décadas, semearam-se tantos ódios, mas também houve muitos gestos de reconciliação e de paz. É preciso voltar a esses gestos, para que possam conviver na mesma área geográfica, respeitando os direitos de uns e de outros. A Santa Sé tem manifestado equidistância entre as duas partes, às vezes gerando incompreensões, sobretudo da parte de Israel, mas esta equidistância e a defesa da solução dos dois estados é aquela que a Santa Sé tem defendido e continua a defender

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  • Ruben Jorge Maduro C
    24 set, 2024 Praia da Vitoria 09:28
    Se me é permitido, partilho aqui um artigo que escrevi sobre a linguagem alegadamente "bíblica" que, afinal, não é mais do que uma construção tradicionalista e ritualista de conceitos quer do Antigo Testamento, quer de contextos extrabíblicos: https://vidaemabundancia.blogspot.com/2024/09/num-domingo-qualquer.html

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