Religião
“Não se deixem capturar pelos tentáculos do poder”, pede Leão XIV aos cristãos de rito oriental
26 jun, 2025 - 13:14 • Aura Miguel
O Papa insistiu também para que os cristãos que sofrem com a guerra e perseguição permaneçam fiéis a Jesus, “sem nos deixarmos capturar pelos tentáculos do poder”.
”A violência da guerra parece atingir os territórios do Oriente cristão com uma veemência diabólica nunca antes vista”, disse esta manhã o Papa. “O coração sangra ao pensar na Ucrânia, na situação trágica e desumana em Gaza e no Médio Oriente, devastado pela expansão da guerra”.
Num discurso aos representantes na Sessão Anual das Obras para a Ajuda às Igreja Orientais (R.O.A.C.O), o Papa lamentou a ausência física dos cristãos da Terra Santa, que não vieram por não poderem viajar, e considerou urgente avaliar as causas destes conflitos e tentar superá-los e também “rejeitar os ilegítimos, fruto de simulações emocionais e retóricas, desmascarando-os com determinação. As pessoas não podem morrer por causa de notícias falsas”, denunciou.
Para Leão XIV, “é triste assistir hoje, em muitos contextos, à imposição da lei do mais forte, com base na qual se legitimam os próprios interesses”. É desanimador que a força do direito internacional e do direito humanitário “já não parece obrigar”, tendo sido substituída pelo “presumível direito de obrigar os outros pela força". E acrescenta: “Isto é indigno do homem, é vergonhoso para a humanidade e para os responsáveis pelas nações".
Em vez de construir hospitais e escolas, destroem-nos
Neste encontro, o Papa levantou um conjunto de interrogações: “Como se pode acreditar, após séculos de história, que as ações de guerra trazem a paz e não têm o efeito contrário para aqueles que as conduziram? Como se pode continuar a trair os desejos de paz do povo com uma falsa propaganda de rearmamento, na vã ilusão de que a supremacia resolve os problemas em vez de alimentar o ódio e a vingança?”. E lamentou: “As pessoas desconhecem cada vez mais a quantidade de dinheiro que vai para os bolsos dos mercadores da morte e com a qual se poderiam construir hospitais e escolas; e, em vez disso, os que já foram construídos são destruídos!”.
Leão XIV pediu aos cristãos para rezar e dar testemunho: “Além de nos indignarmos, levantarmos a voz e arregaçarmos as mangas para sermos construtores de paz e promovermos o diálogo. Cabe-nos a nós fazer de cada notícia e imagem trágica que nos atinge um grito de intercessão a Deus”, afirmou.
As feridas da história curam-se com a mansidão da cruz
O Papa insistiu também para que os cristãos que sofrem com a guerra e perseguição permaneçam fiéis a Jesus, “sem nos deixarmos capturar pelos tentáculos do poder”.
Leão XIV compara a atual situação ao modo como Herodes e Pilatos governaram: “um, por medo de ser deposto, matou crianças, que hoje continuam a ser dilaceradas por bombas; o outro lavou as mãos, como corremos o risco de fazer diariamente até ao limiar do irreparável”. Neste contexto, o Papa pede aos cristãos que olhem para Jesus, “que nos chama a curar as feridas da
história somente com a mansidão da sua cruz gloriosa, da qual se libertam a força do perdão, a esperança de recomeçar, o dever de permanecer honestos e transparentes no mar da corrupção”. Ou seja, “sigamos Cristo, que libertou os corações do ódio, e demos o exemplo para escaparmos à lógica da divisão e da retaliação".
O Santo Padre reforçou a sua estima ao dizer que “gostaria de agradecer e, idealmente, abraçar todos os cristãos orientais que respondem ao mal com o bem: obrigado, irmãos e irmãs, pelo testemunho que dais, especialmente quando permaneceis nas vossas terras como discípulos e testemunhas de Cristo”.
Falta cumprir o desejo de João Paulo II
Leão XIV reconheceu o desconhecimento que se verifica na Igreja Católica relativamente à “luz de sabedoria e salvação” que testemunham os cristãos do Oriente. “Ainda há muita ignorância sobre o assunto e, em alguns lugares, a fé corre o risco de ser asfixiada”.
O Papa recordou “a feliz esperança expressa, muitas vezes, por São João Paulo II”, quando há 40 anos afirmou que “a Igreja deve reaprender a respirar com os seus dois pulmões, o Oriental e o Ocidental (Carta Apostólica Orientale lumen, 24)”. Como este desejo do Papa polaco não se concretizou, Leão XIV propõe agora que se organizem cursos básicos sobre as Igrejas Orientais nos seminários, faculdades de teologia e centros universitários católicos.
E mais: “Há necessidade de encontro e partilha da ação pastoral, porque os católicos orientais de hoje já não são primos afastados que celebram ritos desconhecidos, mas irmãos e irmãs que, devido à migração forçada, vivem ao nosso lado”. Por fim, o Papa reconhece que “o sentido do sagrado, a sua fé cristalina, tornada granítica pelas provações, e a sua espiritualidade, que cheira a mistério divino, podem beneficiar a sede de Deus latente, mas presente no Ocidente”.
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