Padre Cartageno: "Sinto-me um transmontano inculturado no Alentejo”
20 set, 2025 - 14:00 • Henrique Cunha
Nascido em São Mamede de Ribatua, concelho de Alijó, em 1946, foi ordenado padre em 1972. Além da atividade pastoral, o padre António Cartageno tem-se dedicado à música sacra. Em entrevista à Renascença, alerta para alguma da música que se escuta na Liturgia.
“Um transmontano inculturado no Alentejo." É desta forma que o padre António Cartageno se autodefine, numa entrevista à Renascença, em que deixa a sua opinião sobre a música litúrgica em Portugal.
O sacerdote que completa 80 anos em 2026 mostra-se perturbado com alguma da música que se ouve na Igreja, em particular com “os cânticos que, se calhar, não são os mais próprios para a liturgia”, e percorre nesta entrevista boa parte da história da música sacra em Portugal, a partir do Concílio Vaticano II.
Nascido em São Mamede de Ribatua, concelho de Alijó, em 1946, António Cartageno foi ordenado padre em 1972. Além da atividade pastoral, fundou o Coro do Carmo, em Beja, colaborou na recolha de cânticos religiosos alentejanos e tornou-ese membro do Serviço Nacional de Música Sacra.
O sacerdote da Diocese de Beja foi agraciado pelo Presidente da República com a Ordem Militar de Santiago e Espada a 13 de fevereiro de 2025.
Nesta entrevista à Renascença, à margem do Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica, que decorreu em Fátima, António Cartageno avalia de forma muito positiva a evolução da música sacra no nosso país, embora deixe reparos à proliferação de composições: “Às vezes, até digo que já há músicas a mais.”
Como avalia a música litúrgica no nosso país?
Olha, eu acho que vai bem. Temos um repertório já muito bom, muito completo. Às vezes, até digo que já há músicas a mais. Já há tanta coisa que é difícil escolher e destrinçar um bocadinho aquilo que é verdadeiramente bom de outras coisas.
Mas parece-me que os compositores se têm empenhado em musicar os textos novos para a liturgia. Como sabe o Concílio [Vaticano II] trouxe muito texto novo, quer na liturgia das horas quer na eucaristia, e houve um trabalho muito sério, logo desde o padre Manuel Luís, com os salmos e outros cantos, passando pelo padre Manuel Faria, o padre Manuel Simões, o padre Fernandes da Silva e acabando no padre Carlos Silva. E, depois, ultimamente, também com esses que ainda estão vivos, graças a Deus.
Julgo que temos tentado ir ao encontro deste espírito de uma liturgia renovada e com música de qualidade. É claro que ao lado disto há outra corrente paralela, que não ignoramos, que é a de uma música mais aligeirada, especialmente para os jovens, mas os jovens também gostam de uma boa música quando são educados nela, não é? Mas vê-se ainda muito, muito, muito cântico que, se calhar, não são os mais próprios para a liturgia.
Mas, pronto... Vamos devagar e vamos fazendo, vamos propondo a qualidade para ajudar as pessoas a rezar neste sentido que o cónego Peixoto falava, de que não podemos ficar só pela rama, pela casca e não ir ao fruto que está dentro da casca. E também a música revela isso, às vezes.
Há tanta coisa que já é difícil escolher e destrinçar um bocadinho aquilo que é verdadeiramente bom de outras coisas.
Isso significa que temos tido progressos a este nível, naturalmente, com o aparecimento de novos compositores?
Vejo que sim, que, mesmo agora, outras pessoas que não têm ainda grande visibilidade... Falou-se agora do padre Bruno, que tem muitas coisas interessantes, o padre José Joaquim, que está aqui connosco... Também ainda hoje se cantaram algumas coisas, algumas propostas dele muito interessantes. E há outros. Acho que vamos no bom caminho.
É uma nova música litúrgica adaptada aos novos tempos ou tem essa dúvida?
Eu lembro-me que o falecido saudoso, o bispo de Santarém, e que foi o presidente da Comissão Episcopal de Liturgia, D. António Francisco, bispo de Santarém, uma vez disse até no encerramento deste encontro para que os compositores não se esqueçam dos jovens. Temos de ter também isso em atenção; criar música de qualidade e que tenha também algum ar que atraia um pouco os jovens, mas que não se caia na banalidade. Eu creio que algumas coisas se têm feito nesse sentido.
Até agora, para as Jornadas Mundiais da Juventude, houve experiências interessantes nesse sentido, nomeadamente na Diocese do Porto.
E também, no próprio momento das jornadas com a presença do Papa, houve algumas coisas muito interessantes.
“Às vezes até digo que já há músicas a mais”.
O canto gregoriano é algo em vias da extinção?
Não, de modo nenhum. O canto gregoriano é sempre uma fonte de inspiração. É a música eterna da Igreja. O problema é sempre a língua, não é? Não podemos, na minha opinião, estar a abusar de cânticos em latim, quando as pessoas já não entendem nada. Em todo o caso, há uns tantos cânticos tradicionais - Salve Regina, as Antífonas Marianas, do Ordinário da Missa, Santos e Kirie - que são melodias sempre agradáveis. Algumas delas até bastante simples.
Por exemplo, o Victimae Paschali Laudes que é uma sequência pascal, é lindíssimo. É um canto que já vem da Idade Médica e que é sempre bonito ouvir. Embora haja já alguma tentativa de parafrasear, ou melhor, de, inspirado nessa música modal, adaptar em português, há algumas tentativas interessantes também nesse sentido, e o canto gregoriano está sempre lá presente.
O canto gregoriano é sempre uma fonte de inspiração. É a música eterna da Igreja.
Prestes a completar 80 anos, que obra gostaria de ter feito e ainda não fez?
Não tenho ideia sobre isso, porque tenho até composto coisas que nem esperava compor e acabei por compor obras, assim, de maior fôlego, nomeadamente a cantata de Santo Agostinho, que ainda há dias, em Leiria, se fez mais uma vez. Já foi apresentada umas 19 ou 20 vezes. Não é pouco, não é? Fiz outras coisas, assim, de grande fôlego para coro e orquestra, que nunca esperava até ter feito. Fui solicitado nesse sentido e acabei por fazer. O que lhe direi? Gostei de fazer e fico contente por as ter feito.
Mas há alguma que lhe falte?
Eu acho que não. Porventura, admito que poderia ainda musicar alguns textos da liturgia que ainda estão por musicar ou, eventualmente, aceder a algum pedido que me possam formular. Às vezes, tomo a iniciativa, sobretudo quando noto que algo ainda não está feito, mas há coisas que estão feitas e bem feitas e, se vou fazer, faço pior. Então, é melhor deixar estar o que está bem feito.
Por isso, sinceramente, não tenho opinião sobre isso, sinceramente não tenho ideia: "Ah, eu gostava tanto de fazer isto e ainda não fiz." Não, não posso dizer nada sobre isso.
Falemos um pouco dos grandes compositores da música litúrgica em Portugal. Por exemplo, Ferreira dos Santos...
É um nome incontornável. É um pecado não ter falado do Ferreira dos Santos, porque atenção: é um nome cimeiríssimo da música litúrgica em Portugal. Tenho um grande respeito pela sua figura como padre, como pessoa e como compositor. Um grandíssimo compositor.
Então, posso dizer que me sinto um transmontano inculturado no Alentejo.
Queria falar-lhe de dois em particular, porque talvez sejam aqueles que mais composições têm em Portugal: o cónego Ferreira dos Santos e o padre Manuel Luís. Estes dois em particular foram, de alguma forma, fontes de inspiração? Como é que os recorda?
O padre Manuel Luís é aquela figura de quem estou mais próximo, porque o conheci muito bem no Seminário dos Olivais, onde estudei, e lidei muitas vezes com ele. E até recebi dele alguns gestos bonitos de incentivo. Mesmo depois de terminar o curso de Teologia nos Olivais, tinha ousado escrever algumas coisas que ele viu e ele disse-me mesmo: "Olha, tu tens talento e tal, mas precisas estudar mais. Se quiseres, vem cá a Lisboa uma vez por semana. Ficas em minha casa e eu ajudo-te." Fez isto. Nunca foi possível concretizar, mas devo-lhe essa atenção. Esse gesto fantástico de partilha, que nunca se concretizou porque morreu. Infelizmente, morreu muito cedo.
E até foi por causa da sua morte qu acabei por ir estudar para Roma. Houve alguns bispos que sugeriram o meu nome para, de alguma maneira, preencher o vazio que ele deixou. E fui. Tenho feito da minha parte o melhor que posso e sei.
Como gostaria de ser lembrado? Como o jovem que nasceu em São Mamede de Ribatua ou como o alentejano em que se transformou?
As duas coisas. Porque eu não deixei, nunca, nem posso deixar a minha costela, a minha costela duriense, transmontana, mas também não posso passar ao lado da minha vida no Alentejo. Então, posso dizer que me sinto um transmontano inculturado no Alentejo.´
Tenho feito também muito pela música no Alentejo, nomeadamente a recuperação do canto popular religioso do Baixo Alentejo, que foi e continua a ser uma grande fonte de inspiração. Sabe que nós temos um reportório riquíssimo de cantos populares religiosos, que até estão gravados em CD e que, aliás, a Rádio Renascença transmitiu. Lembro-me de que até nos programas de D. Manuel Clemente, às vezes, ele colocava-os. Isso é fruto desse trabalho de recuperação e eu sinto-me uma pessoa bastante identificada já com a cultura alentejana. Mas não esqueço a transmontana.
- Noticiário das 18h
- 12 jul, 2026








