"Que peguem no assunto". O protesto da Associação Coração Silenciado
27 set, 2025 - 18:05 • João Maldonado
Manifestação da associação que representa as vítimas de abuso sexual na Igreja teve lugar à frente da Assembleia da República. Organização critica Rute Agulhas e entrevistas conduzidas pelo Grupo Vita. Querem que os processos de indemnização acelerem e apelam ao Parlamento para alterar as prescrições de crimes sexuais.
O protesto estava marcado para as 15h, mas não contaria a Associação Coração Silenciado com a forte chuva que a essa hora caía sobre a escadaria da Assembleia da República. Protegidas com guarda-chuva, estavam cerca de 20 pessoas na manifestação. O objetivo era duplo: criticar a Igreja Católica Portuguesa e o Parlamento.
Aos deputados, a Coração Silenciado apela a que sejam assumidas responsabilidades na proteção sexual de crianças no país. Nas palavras do porta-voz António Grosso: "Continuamos a lutar contra a prescrição dos crimes, o trauma e o sofrimento não prescrevem, a lei não o podia permitir quando a maior parte das vítimas só abrem a boca depois do períodos de prescrição - o que é ridículo e absurdo".
À Igreja deixa críticas acerca da maneira como está a ser conduzido o processo de indemnizações: "Claro que
a maior parte das vítimas que já tinha contado a sua história na Comissão Independente não quis ir contar a sua história outra vez ao Grupo Vita, que acabou por fazê-lo de forma vitimizadora".
Abusos na Igreja
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Coordenadora do Grupo Vita sublinhou que os prazos(...)
António Grosso reprova o modus operandi como diz estarem a ser conduzidas as entrevistas pela equipa coordenada por Rute Agulhas, reafirmando que há "situações tão sórdidas que as pessoas têm vergonha de contar".
Indo contra o afirmado pela responsável do Grupo Vita, também em declarações à Renascença, a organização garante que são feitas nas entrevistas "perguntas muito abusivas". "Fomos apertados, espremidos para testar a verosimilhança, nós entravámos para essas entrevistas só com a roupa do corpo, era proibido telemóvel, papel e caneta, não podíamos tomar nota de nada", salienta o porta-voz da Coração Silenciado.
Presente no protesto está Olímpia Soares. Garante ser uma vítima, lamentando ter sido excluída do processo de indemnizações porque "não acreditaram no que disse". Dá um passo em frente e pede o microfone para avançar, com voz trémula, o caso próprio. "Estou a reviver tudo, não consigo ultrapassar, não tenho à-vontade para contar detalhes que são demasiado nojentos, não tive ajuda suficiente", aponta.
É entre chuva severa que termina o protesto que teve lugar um dia depois de a Conferência Episcopal Portuguesa ter reafirmado a previsão de concluir os processos financeiros até ao final deste ano e ter sublinhado que a Comissão de Fixação da Compensação entra ainda este mês em funcionamento. De acordo com a CEP, foram apresentados 84 pedidos até ao momento, tendo sido validados 77.
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