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Religiões no Porto

“Há sete mil pessoas que rezam” a Alá na cidade do Porto

28 out, 2025 - 12:57 • Henrique Cunha

O número é revelado à Renascença pelo vereador da Coesão Social da Câmara Municipal. A Carta das Religiões do Porto já está disponível no site da autarquia. Para além da identificação dos locais de culto na cidade, o documento disponibiliza informação sobre as diferentes religiões identificadas.

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Há pelo menos sete mil pessoas que frequentam regularmente mesquitas na cidade do Porto. A informação foi confirmada à Renascença pelo vereador Fernando Paulo.

Em entrevista à Renascença, a poucos dias de terminar mandato como vereador eleito pelo Movimento de Rui Moreira, Fernando Paulo diz que “foi uma pena” não ter sido possível concretizar o projeto de criação de três novas mesquitas na cidade, mas admite que as dúvidas levantadas em relação à iniciativa, em vésperas das eleições autárquicas, justificam a decisão de “se ter retirado o assunto”.

O autarca entende que, “ultrapassadas algumas questões”, o novo executivo deve “reabrir o processo”.

A Carta das Religiões do Porto, desenvolvida pela Universidade Lusófona ao longo dos últimos dois anos, identificou 135 locais de culto na cidade, relativos a nove “tradições religiosas”. Leia a entrevista na íntegra.


Como e quando foi desenvolvido o projeto de Criação da Carta das Religiões do Porto?

Nós percebemos que a dimensão religiosa no Porto tem vindo a ganhar um papel cada vez mais importante na cidade. E apercebemo-nos também de que o diálogo inter-religioso é uma realidade forte no Porto, o que constitui uma oportunidade para nos podermos também aproximar mais das comunidades e promover um projeto de inclusão, reforçando a tolerância e educando para a diversidade.

Lembro que, por exemplo, a Diocese do Porto e, em particular, o seu bispo também têm vindo a fomentar o ecumenismo e esta abertura ao diálogo inter-religioso ajudou a criar a oportunidade para conhecermos melhor os espaços de culto e os grandes grupos de tradição e de prática religiosa na cidade. Foi daí que surgiu o convite à Universidade Lusófona para desenvolver este trabalho, ao longo dos últimos dois anos.

Sempre apostamos na perspetiva de não descrever apenas a presença física destas comunidades, mas sobretudo valorizar o seu papel social, bem como o seu apoio às comunidades migrantes e o seu envolvimento em iniciativas comunitárias. Para nós, faz todo o sentido que a cidade cada vez mais se abra e possa por esta via criar uma oportunidade para uma maior abertura à diversidade, ao diálogo intercultural e sobretudo à respeitabilidade pela dimensão fundamental da vida urbana contemporânea que é reconhecer esta diversidade para reforçar a tolerância e a inclusão.

"A dimensão religiosa no Porto tem vindo a ganhar um papel cada vez mais importante na cidade"

É possível ter acesso à Carta das Religiões? Qual é, no essencial, o seu conteúdo?

Já temos um PDF disponível e acessível no item da coesão social e, portanto, a Carta das Religiões pode ser já consultada. Temos o trabalho completo e ele descreve em pormenor a realidade no Porto. Tem um mapeamento onde foram identificados 135 locais de culto que estão agrupados em grandes grupos ou tradições: Cristianismo, Islamismo, Judaísmo, Fé Bahá’í , Hinduísmo, Budismo, o Sikhismo, Tradições Japonesas e Doutrinas Espiritualistas.

A classificação representa a riqueza e a diversidade das expressões da fé que estão presentes na cidade. Na Carta, pode-se conferir também todos os espaços e as suas moradas, os horários das práticas de culto e também uma descrição de cada uma destes grandes grupos ou tradições, o que é que representam, qual a diferença entre elas. Achamos que é também um trabalho muito interessante para todos aqueles que se interessam por esta área das crenças e das práticas espirituais e é também interessante o facto de abordar também do ponto de vista social aquilo que é o trabalho desenvolvido por estas comunidades e o papel que têm no apoio à integração dos migrantes, mas também da população em geral. Aborda a intervenção social que está presente em muitas destas religiões.

Estas nove diferentes religiões no concelho do Porto espelham a o fluxo migratório dos últimos anos...

Sim, sem dúvida. A cidade de Porto começou a registar, mais ou menos desde 2017-2018, esse aumento que se tem intensificada de ano para ano. Há, de facto, um aumento muito grande de migrantes na cidade e isso reflete-se naquilo que é a prática religiosa e a própria cidade também acaba por atrair alguns espaços de culto, não só para aqueles que estão na cidade, mas também para as comunidades que integram o anel mais próximo da cidade e da área metropolitana.

Por exemplo, muçulmanos nas mesquitas nós temos cerca de sete mil pessoas. Ou seja, haverá sete mil pessoas que praticam, que vêm aqui às mesquitas do Porto fazer as suas orações. Estamos a falar de um número crescente e algumas destas religiões já têm uma expressão bastante significativa.

"Faz todo o sentido que a cidade cada vez mais se abra"

Por esta ordem de ideias, não teria sido acertado ter-se avançado com o projeto de criação de três novas mesquitas na cidade, um projeto entretanto abandonado pelo atual executivo?

Considero que é importante desenvolvermos políticas públicas mais inclusivas e integradoras e devemos, de facto, considerar que a dimensão da fé está muito presente nas pessoas e é uma dimensão que tem de ser considerada em qualquer programa de integração. O Estado em Portugal é laico e, sendo laico, não pode haver, do ponto de vista de apoio público, apoio direto ao culto, aos espaços do culto, porque esses têm de ser assumidos por cada uma das religiões. Isso não invalida que não haja parcerias e que não haja um trabalho conjunto no sentido de facilitar e de criar condições para que cada uma destas religiões e espaços de culto possam ter a dignidade e sobretudo as condições de segurança.

Na minha opinião, o que estava previsto - e julgo que foi pena não ter sido concretizado - era a disponibilização de um espaço, que não era a título gratuito, dado que havia uma renda a ser paga. Repito: acho que foi uma pena, uma vez que iria resolver alguns problemas de espaços de culto que neste momento estão disponíveis, mas sem condições de segurança.

"A dimensão da fé está muito presente nas pessoas e tem de ser considerada em qualquer programa de integração"

Agora, também se percebe que a proximidade das eleições autárquicas e o entendimento diferenciado de alguns partidos sobre a solução encontrada, assim como algumas dúvidas sobre o projeto e a necessidade de clareza naquilo que era proposto, levou a que o assunto tenha sido retirado. Julgo que, agora, com toda a serenidade, no novo mandato, o assunto que deverá ser retomado e equacionado, assegurando que está a ser cumprida de facto a legislação.

Ultrapassadas algumas questões, julgo que o município deve estar aberto e deve trabalhar com todas as entidades, associações culturais, empresas, instituições religiosas e organizações que estão por bem na cidade e que têm um papel e uma missão a desempenhar. E julgo que o município deve criar condições para facilitar e não criar obstáculos e problemas.

O presidente da Câmara, percebendo que havia ali uma situação de facto de conflito, retirou o assunto para que ele pudesse ser ponderado depois de passar esta fase das eleições e eu acho que me pareceu prudente essa situação. Agora, espero que no futuro o município venha de facto a reabrir o processo e a debruçar-se sobre ele, criando as condições que estejam ao seu alcance para ajudar a resolver problemas de segurança e sobretudo também de cumprimento daquilo que é a missão de cada uma das instituições dentro daquilo que é o Estado de Direito e aquilo que é possível fazer e apoiar por parte do município.

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