09 nov, 2025 - 09:30 • Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Agência Ecclesia)
Margarida Zoccoli, bióloga e investigadora em alterações climáticas lembra que as plantas “não se movem, não matam e não destroem” e que, mesmo assim, “resolvem todos os seus problemas”.
Docente na Casa Pia de Lisboa e entusiasta da metodologia" Lixo Zero" nas escolas, Margarida Zoccoli já fez várias conferências sobre a "Laudato Si" e defende a ideia de que “uma comunidade pode alterar o seu ambiente circundante se agir de forma sinérgica”.
Em vésperas do início da COP30, em Belém do Pará, no Brasil, a investigadora dá, entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia, o exemplo das plantas para manifestar esperança na obtenção de resultados no combate às alterações climáticas.
Margarida Zoccoli afirma que “se houvesse uma verdadeira consciência do estado do planeta, as pessoas agiriam de outra forma”, e citando o Papa Francisco, diz ser “urgentíssimo um pacto educativo global”.
A investigadora entende que as paróquias e as escolas católicas “deveriam ser exemplo irrepreensível” no desenvolvimento de práticas sustentáveis e aplaude o papel de liderança do Papa Francisco e do Papa Leão na defesa do meio ambiente, manifestando o desejo de que “a Igreja não desista nunca de ser exemplo e de ser referência”.
Zoccoli acusa as autarquias de não cumprirem a lei relativa à recolha de resíduos orgânicos, que apesar de ser “obrigatória faz em janeiro dois anos, ainda é residual”.
A um dia do arranque oficial da COP30, a investigadora manifesta esperança na obtenção de bons resultados, apesar das teses negacionistas do Presidente norte-americano.
"As plantas estão sempre fixas, elas resolvem todos os seus problemas só com a inteligência coletiva e nós temos muito para aprender com as plantas"
A realização da COP no Brasil, junto à Amazónia, tem um impacto simbólico e prático, esperemos, global. Que responsabilidades maiores é que esta cimeira traz para todos?
Tive o privilégio de estar na Amazônia recentemente, em julho, numa Conferência de Educação Ambiental dos Países Lusófonos. Estivemos uma semana em Manaus e, junto a um rio que passa em Manaus, dá-se o encontro das águas. São dois rios que se juntam ali, o rio Solimões e o rio Negro, que têm densidades muito diferentes, portanto, têm características físicas muito diferentes e caminham lado a lado durante muitos quilómetros. E acabam por se fundir, dando origem ao rio Amazonas. E é verdadeiramente simbólico este caminho lado a lado e, depois, essa fusão.
Simbolicamente, também representa o que esta COP pode ser. Há uma elite que está um bocadinho mais distante e há um movimento popular de tentar alterar a situação...
É verdade. E há, sobretudo, as diferenças que nós temos de fundir. A Amazónia é o exemplo mais evidente. Temos muito para aprender com as plantas, muito. O Stefano Mancuso diz isso muitas vezes e nas suas publicações. De facto, as plantas e a floresta, sobretudo a amazónica, que é um sistema complexo de grandes dimensões, esse sistema mostra como as plantas não se movem, ao contrário dos animais que fogem, matam, se for preciso, destroem e vão à procura em outro lugar. As plantas estão sempre fixas, elas resolvem todos os seus problemas só com a inteligência coletiva e nós temos muito para aprender com as plantas.
"A sociocracia é um movimento que eu defendo nas escolas e que nos leva a usar a inteligência coletiva (…) Embora seja mais lento, é muito mais eficaz"
Já que fala em aprender, como se pode reforçar a literacia ambiental nas escolas e nas famílias para transformar comportamentos e ao mesmo tempo promover uma cidadania ecológica ativa?
Exatamente, promovendo, por exemplo, a sociocracia, que é uma forma de chegar a soluções de uma forma consensual. Vai-se mais devagarinho, porque temos de aguardar que todos façam propostas que sejam aceites por todos, mas nunca se anda para trás. Ao contrário das votações por maioria, onde existe sempre oposição, existe sempre a luta contra.
Quem ganha e quem perde fica sempre em oposição e é esse o papel que é esperado das oposições. E, portanto, cada vez que ganha uma força diferente da que estava anteriormente, tratamos de refazer tudo, desfazer o que os anteriores fizeram e refazer à nossa imagem. A sociocracia é um movimento que eu defendo nas escolas e que nos leva a usar a inteligência coletiva e, portanto, a encontrar soluções que depois não são contrariadas por ninguém, porque todos concordaram com elas. Embora seja mais lento, é muito mais eficaz.
"Estamos habituados a reagir. Treinamos a reação e temos de voltar a valorizar a ação"
Falávamos na sua apresentação da metodologia Lixo Zero e falou agora das escolas, porque ela está a ser implementada também em contexto escolar. Já é possível começar a ver resultados em Portugal?
Ainda só estamos timidamente a ousar falar em Lixo Zero porque as pessoas pensam que não é possível. O Lixo Zero é reduzirmos a 10% todos os resíduos indiferenciados, aqueles que não podemos separar de todos os resíduos que produzimos, reduzir a 10% e desviar de aterro 90%, aterro ou incineração, os outros 90% que separamos, ou fazemos compostagem, ou reutilizamos, ou reparamos.
Foi o Brasil que nos desafiou para esse movimento. O Brasil está muito à frente em relação a nós, tem muitas escolas já com certificação Lixo Zero e desafiou a escola em que eu trabalho, é um dos Centros de Educação e Desenvolvimento da Casa Pia de Lisboa, a ser Lixo Zero. E isso tem-nos obrigado a repensar todas as decisões, todo o tipo de organização da escola. E não só na escola, mas nas nossas casas também, que esse é outro aspeto muito importante.
Isso entra numa lógica de gestos pequenos em que não pensamos no dia a dia?
Exatamente.
"Eu optei, nos últimos anos, por não pensar no que não funciona e acreditar na força dos pequenos gestos, na força da convicção, mesmo contra a vontade de Donald Trump"
Alarguemos a discussão para o país, da escola para o país. O Estado português tem desenvolvido alguns projetos, no âmbito, por exemplo, da eficiência energética, mas a realidade é esta: o país todos os anos é confrontado com autênticos desastres ambientais. Falo, por exemplo, dos incêndios de verão. Há, na sua opinião, sensibilidade por parte do Estado, dos governos para a defesa do ambiente?
Existe alguma sensibilidade, mas eu penso que temos de ser nós, tem de ser a população… As escolas, aqui, podem ter um papel muito importante para chamar a atenção para aquilo que são as maiores necessidades porque, de facto, não podemos responsabilizar os indivíduos por todos os desequilíbrios ambientais. Se as políticas forem adequadas, as pessoas são levadas a agir de outra forma. Dou um exemplo, a recolha de resíduos orgânicos, de biorresíduos, é obrigatória por parte das autarquias faz em janeiro dois anos. Ainda é residual, diria eu, a recolha de orgânicos. À minha porta ainda não se faz. Eu levo os meus resíduos orgânicos para o compostor da escola. Pronto, porque eu tenho vontade de fazer compostagem.
O que vemos é que nos sítios onde existe não há uma capacidade da população em geral de fazer a distinção? Vai tudo lá para dentro?
Vai tudo e, além disso, mesmo os ecopontos que já temos há muitos anos, da separação das embalagens e do vidro e do papel, fica contaminada. Creio que se houvesse uma verdadeira consciência do estado do planeta, as pessoas agiriam de outra forma. A escola tem um bocadinho de culpa, porque nós fragmentamos o conhecimento e, portanto, temos ali caixinhas de disciplinas e eu própria também leciono uma disciplina. Mas a escola deveria funcionar de outra maneira. O Papa Francisco chamou a atenção para a necessidade de um pacto educativo global e ele é urgentíssimo, na minha opinião.
"A Igreja em saída é para fora, mas nós nem sempre dentro conseguimos fazer, quanto mais para fora!"
O Papa Francisco também chamou a atenção das comunidades católicas para a ideia de que o compromisso ecológico não é uma coisa exterior a elas. Com a "Laudato Si", de 2015, vivemos uma espécie de revolução nesta matéria. Sente que é uma mensagem que está a ser bem acolhida, em particular até pelas comunidades católicas?
Sim, sem dúvida. Existem uma série de movimentos, o próprio movimento "Laudato Si", que tem uma implementação mundial. Existe aqui em Portugal, também, a Rede Cuidar da Casa Comum, que veio também criada pela professora Manuela Silva após o lançamento da encíclica.
Há pouco mais de uma semana, foi criada a certificação "Eco Igrejas" que vai permitir que as paróquias e entidades religiosas possam certificar-se ambientalmente. E é fundamental.
E participo na Fundação Cuidar o Futuro da Maria de Lourdes Pintasilgo onde já há muitos anos a cultura do cuidado era um eixo central e temos de voltar a trazer a cultura do cuidado para as nossas escolas, para as nossas comunidades, porque neste momento estamos habituados a reagir. Treinamos a reação e temos de voltar a valorizar a ação. A ação, neste momento, é urgente.
"Estamos todos ligados, nós somos um só, mas o que nos diferencia dos outros seres vivos é a responsabilidade e a obrigação de cuidar dessa criação que nos foi dada"
Que papel devem ter as paróquias e as escolas católicas no desafio de conversão ecológica e também no desenvolvimento de práticas sustentáveis?
Eu penso que deveriam ser exemplo irrepreensível. Até porque a mensagem cristã é isso que nos diz, não há forma de fazer outra leitura. Nós estamos todos ligados, nós somos um só, mas o que nos diferencia dos outros seres vivos é a responsabilidade e a obrigação de cuidar dessa criação que nos foi dada.
O Papa Francisco é muito claro no exigir que os cristãos tenham um papel ativo e visível. A Igreja em saída é para fora, mas nós nem sempre dentro conseguimos fazer, quanto mais para fora! Mas é um trabalho que se está a fazer e que os cristãos têm mesmo de agarrar nas suas mãos e assumir a responsabilidade.
"Desejo que a Igreja não desista nunca de ser exemplo e de ser referência, como o Papa Francisco foi (…) E desejamos que o Papa Leão XIV continue. E penso que sim, que vai acontecer"
Nós falamos ainda pouco da vasta rede de instituições católicas que foram inspiradas pela "Laudato Si"... Há também uma vasta rede de instituições católicas que há muitas décadas trabalham com a população que é mais diretamente afetada pelas alterações climáticas. Esta presença de responsáveis de institutos da Igreja Católica, que levam para a COP30 a realidade concreta das populações que são afetadas pelas alterações climáticas, pode ajudar a decisões mais ambiciosas?
Eu espero que sim. Não tenho a certeza de que isso vá acontecer, mas desejo muito que sim. Desejo que a Igreja não desista nunca de ser exemplo e de ser referência, como o Papa Francisco foi durante estes anos todos, reconhecido por todos, mesmo não crentes, como um verdadeiro líder mundial. E desejamos que o Papa Leão XIV continue. E penso que sim, que vai acontecer.
Já teve alguns gestos nesse sentido…
Sim. A Igreja mostra com estes líderes que, pode de facto, ser uma referência e pode, de facto, puxar para outra dimensão este drama que temos, que é o grito da terra e o grito dos pobres.
"Otimismo é esperar que corra bem. Esperança é fazer tudo para que corra bem, independentemente do resultado (…) A nós, cristãos, penso que nos cabe fazer tudo para que corra bem"
Eu não quero ser pessimista, mas qual o grau de sucesso que a COP30 pode ter quando uma das principais potências, os Estados Unidos, se rege por aquela teoria negacionista?
Eu optei, nos últimos anos, por não pensar no que não funciona e acreditar na força dos pequenos gestos também, mas na força da convicção, mesmo contra a vontade de Donald Trump.
Vindo da biologia, eu olho muito para a evolução dos seres vivos e de toda a Terra e para como fomos tendo sucesso como espécies. E, de facto, também há estudos que mostram que uma comunidade pode alterar o seu ambiente circundante se agir de forma sinérgica.
Portanto, eu acredito que nós consigamos, de alguma forma, influenciar. Mas temos de estar juntos, temos de estar unidos.
Mesmo contra a vontade de Donald Trump?
Mesmo contra a vontade de Donald Trump. Caramba! Os cristãos conhecem o fim da história e, portanto, não vamos desistir agora, não é? Nós sabemos qual é o fim da história e sabemos que é uma história bonita, uma história de amor. E, portanto, é isso que nos tem de motivar.
"Se houvesse uma verdadeira consciência do estado do planeta, as pessoas agiriam de outra forma"
Nesta véspera de início da COP30, que mensagem gostaria de deixar aos ouvintes? Como é que cada um de nós pode agir no seu contexto para cuidar desta casa comum?
Eu acho que, em primeiro lugar, não perder a esperança. Embora nós estejamos numa... Eu não estou otimista neste momento, mas tenho esperança. Li no outro dia a diferença entre otimismo e esperança. Otimismo é esperar que corra bem. Esperança é fazer tudo para que corra bem, independentemente do resultado.
E a nós, cristãos, penso que nos cabe fazer tudo para que corra bem porque é essa a nossa obrigação também e esse o nosso compromisso. Portanto, temos de acreditar num futuro e acreditar num futuro belo e não ficar entregues à realidade. Não podemos deter-nos com a realidade. Temos de olhar para aquilo que há à nossa volta, que de facto, nos traz alegria.
Rob Hopkins publicou recentemente um livro “E Se... Libertássemos a Nossa Imaginação para Criar o Futuro que Desejamos?” E é muito importante desejarmos um mundo belo e fazer por isso, independentemente do resultado.