09 nov, 2025 - 08:30 • Henrique Cunha
O padre João Torres, responsável pelo Presépio Vivo de Priscos que integra reclusos do estabelecimento prisional local em regime aberto, queixa-se, em entrevista à Renascença da "muita burocracia" e de "um sistema prisional que não privilegia a reabilitação e a reinserção”.
João Torres revela que neste momento, em Priscos, paróquia e freguesia de Braga, só está a trabalhar um preso, quando “a brigada é de quatro reclusos”.
“Estamos à espera de receber outro, mas, às vezes, é muito complexo estas pessoas serem substituídas quando saem em liberdade condicional. E nós temos de pensar mesmo se queremos reabilitar pessoas ou se queremos que as cadeias continuem a ter reclusos com penas sucessivas, umas atrás de outras”, desabafa o sacerdote.
O Presépio Vivo de Priscos, que já vai para a sua XIX edição, integra no seu projeto reclusos em regime aberto, promovendo a reinserção social através do trabalho em várias áreas, como carpintaria, jardinagem e manutenção. O objetivo é fornecer-lhes competências para a vida em sociedade e um pé-de-meia para quando saírem da prisão.
O sacerdote da arquidiocese de Braga diz que este projeto ambiciona ter “cada vez mais reclusos em que possam aqui sonhar a sua reinserção social, em que possam voltar à sociedade melhor do que quando entraram”.
“Qualquer recluso, quando chega ao estacionamento prisional de Braga, o sonho dele é chegar a Priscos e manter este sonho, criar hábitos de trabalho, horários. Isto aqui só lhes faz bem, só faz bem a eles, só faz bem à sociedade porque muitos deles, e nós temos uma taxa mais de 93% de sucesso, pois dos mais de 70 reclusos que passaram aqui a grande maioria não voltou ao meio prisional."
"Esta é também a missão do presépio de Priscos”, enfatiza.
O padre João Torres não nega que, em alguns casos, “é difícil a reabilitação".
"As nossas cadeias estão cheias de reclusos jovens”, diz, lamentado a existência de “algumas mentalidades defensoras de penas mais severas e punitivas”.
"Esses discursos querem fazer passar uma mensagem aos portugueses de ignorância, pois nós em Portugal só temos 7% - 6,7%, para ser mais exato - de reclusos homicidas, pedófilos e violadores. A grande maioria dos reclusos que estão detidos não cometeram estes delitos”, enfatiza.
“Quando adotamos o discurso mais punitivo, é para esses casos mais graves, pensando que as cadeias só estão cheias de pedófilos, violadores e homicidas; o que é mentira. Nós temos muita gente detida por multas de trânsito que não foram pagas, por não terem habilitação para conduzir, por tráfico de droga”, afirma.
“Quantos jovens nós temos presos, que são peões, como lhe chamam dentro do meio prisional. Só prendemos sardinha e, talvez, um ou outro carapau, mas nós não prendemos os tubarões, porque estes geralmente têm um colarinho branco. É difícil prendê-los porque eles, muitas vezes, estão dentro do próprio sistema”, acrescenta.
"Devíamos pensar também sobre isso e não fazer o discurso de que, no nosso país, entre a gente que está detida, são todos violadores, são todos pedófilos e são todos homicidas. Isso é mentira. E isso também merece uma reflexão da própria sociedade porque, aparentemente, esse tipo de discurso vai colhendo e vai dando votos”, remata.