12 nov, 2025 - 01:06 • Tomás Anjinho Chagas
O patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, desafia os candidatos às eleições presidenciais de 18 de janeiro de 2026 a serem protagonistas de uma campanha "sem polarização".
Em declarações à Renascença, à margem de uma talk no Colégio das Doroteias sobre a "Esperança para a Paz", D. Rui Valério lamentou a política que divide, e lançou o apelo para que os próximos meses sirvam para apresentar ideias sem que seja preciso dividir.
"As campanhas eleitorais deviam ser sempre momentos de convite à reflexão, e nunca de divisão. Há uma polarização em que normalmente se cai", considera o patriarca de Lisboa.
Questionado sobre que tipo de candidato quer ver nos próximos meses, D. Rui Valério desafia quem se candidata a Belém a mostrar as vantagens de viver em Portugal: "Quero ver nos candidatos uma esperança para contagiar a nossa sociedade, sobretudo aos mais jovens, de que viver em Portugal é um projeto, é bom".
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O patriarca de Lisboa quer ver "alguém que abrace a portugalidade, do ponto de vista histórico e dos valores", e espera por uma campanha com ideias e sem agressões.
Numa semana em que decorre a Web Summit na capital, o patriarca de Lisboa defende que a tecnologia nunca pode perder o seu lado humano e que deve sempre ser posta ao serviço das pessoas. D. Rui Valério critica a "maneira de pensar que só olha à eficiência e tapa os olhos à pessoa".
Durante a talk no Colégio das Doroteias, em Lisboa, em torno da pergunta "Há esperança para a paz?", o patriarca de Lisboa criticou a utilização da tecnologia ao serviço da guerra.
D. Rui Valério vinca que "estão a decorrer cerca de 60 conflitos de extrema e trágica gravidade" no mundo, e lamenta que tudo sirva de justificação para iniciar uma guerra: "Se alguém quer promover um conflito, basta qualquer coisa, é tão banal para começar".
O patriarca de Lisboa diz que "dá a sensação que não é preciso quase nada" para detonar um conflito no mundo. Ainda assim, rejeita a ideia de uma "sociedade corrompida", afirma que "ainda não estamos capazes de construir algo positivo".
Por sua vez, Paulo Portas, citou o Papa João Paulo II para dizer que "o mundo precisa de profetas desarmados" e vincou que a paz "não é só a ausência de guerra".
O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros e antigo ministro da Defesa pede também a "paz desarmada e desarmante", expressão popularizada pelo Papa Leão XIV.
Nesta conversa, moderada pelo jornalista Pedro Benevides, o patriarca de Lisboa foi questionado que papel deve ter a Igreja na procura da paz, numa altura em que tantos conflitos teimam em marcar a atualidade. D. Rui Valério considerou que a "voz da Igreja não cai em saco roto" e deu o exemplo do encontro entre Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos, e Volodymyr Zelensky, Presidente da Ucrânia, que decorreu na Basílica de São Pedro, na sequência das cerimónias fúnebres do Papa Francisco, em abril.
O patriarca de Lisboa defende que esse é um bom exemplo do que a Igreja proporciona e vinca que a insistência e repetitiva mensagem da Igreja nos apelos à paz funciona. Mas não deixa de lançar o desafio para que a paz seja abraçada: "Não queremos que seja uma sem-abrigo".
Paulo Portas, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros, considera que a Igreja vai ser "sempre útil" nas conversações de paz e garante que a diplomacia do Vaticano é e sempre foi admirada pela comunidade internacional.
O antigo líder do CDS deu ainda o exemplo do reconhecimento da Palestina - um passo dado por Portugal recentemente - para assinalar a posição da Igreja: "O Vaticano reconheceu o Estado da Palestina há dez anos".
Questionado por um membro da plateia se não existe o risco de uma "invasão" de imigrantes de países islâmicos sob o pretexto da tolerância e da paz, Paulo Portas afirmou que "não partilha dessa visão" e rejeita a ideia de que Portugal está a tornar-se num Estado Islâmico. O antigo líder do CDS diz que aprendeu a compreender o próximo com a Igreja. A resposta provocou um aplauso da plateia.
Já D. Rui Valério vincou que "o outro não pode ser visto como uma ameaça, mas como um semelhante" e defendeu que "não há uma relação direta" entre a imigração e a criminalidade. O patriarca de Lisboa acredita que Portugal tem o "doutoramento na integração" e recorda o passado da expansão marítima para assinalar uma especial responsabilidade em acolher.