16 nov, 2025 - 09:58 • Ângela Roque
O novo bispo de Portalegre-Castelo Branco não receia os desafios que o esperam na diocese do interior do país, que abrange território da Beira Baixa, Baixo Alentejo e Ribatejo. Em entrevista à Renascença, D. Pedro Fernandes, de 56 anos, diz que estar “próximo das pessoas” e dar atenção “aos frágeis e aos mais pobres” está no topo das suas prioridades. Habituado a viver em comunidade, garante que não receia o isolamento, embora admita que será um “desafio pessoal”.
Atento ao que o rodeia, considera um desafio e uma obrigação a Igreja estar atenta ao aumento do populismo, e entende que como bispo terá a obrigação de ser interventivo relativamente aos problemas da região e do país, ajudando a dar voz a quem a não tem.
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Religioso espiritano, Pedro Fernandes nasceu em Lisboa, onde viveu na Graça e em Benfica. Entrou em Direito, mas no primeiro ano de faculdade mudou para Teologia e tornou-se missionário do Espírito Santo. Estudou e Paris e em Roma. Ordenado sacerdote em 1996, integrou o primeiro grupo de espiritanos enviados para Moçambique, onde permaneceu de 1996 a 2009. Mais recentemente foi Provincial dos Espiritanos, e vice presidente da CIRP (Confederação dos Institutos Religiosos de Portugal). Quando a 7 de outubro o Papa Leão XIV o nomeou novo bispo de Portalegre - Castelo Branco era responsável pela Instituição de Apoio Social Anima Una.
A ordenação episcopal está marcada para as 15 horas deste domingo na Sé de Portalegre, numa celebração que será presidida por D. José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, que terá como co-ordenantes D. Antonino Dias - agora bispo emérito de Portalegre-Castelo Branco - e D. Teodoro Tavares, bispo da Diocese de Ponta de Pedras, no Brasil.
É um missionário chamado agora a ser bispo. Que expectativas tem para esta nova missão que o espera na Diocese de Porto Alegre-Castelo Branco?
As expectativas são boas, de uma maneira geral. Como já tenho dito, esta nomeação surgiu de modo muito inesperado, não estava propriamente preparado para assumir um ministério deste género e nesta diocese - que, aliás, era uma diocese que eu conhecia muito pouco, ou quase nada. Portanto, a minha expectativa, na verdade, funda-se em sentimentos como a confiança, confiar em Deus - e foi com base nisso que realmente aceitei esta missão -, confiar nos outros, no clero, nos padres, nos ministros ordenados, nos diáconos, nas pessoas todas que trabalham mais diretamente e mais ativamente na Igreja, confiar no povo de Deus, nas pessoas, isso parece-me que é fundamental.
A minha expectativa, basicamente, é de servir, estar ao serviço, ser próximo e partir de muita confiança em Deus e nos outros.
Em jovem quis ser advogado, mas mudou depois para teologia. Nunca se tinha imaginado como bispo?
Não, na verdade, não. Num primeiro momento, durante a adolescência, de facto, a questão vocacional começou a colocar-se, mas a orientação, num período mais amadurecido, era, de facto, ir para Direito e até concorri, até fui admitido, e depois, na hora H, decidi dar uma grande guinada e passar à Teologia, ainda como leigo, e foi no final do primeiro ano que assumi claramente a opção de uma vida consagrada em contexto de missão, e de missão ad gentes. A vocação que senti que Nosso Senhor me dava era de servir como missionário e como anunciador, evangelizador, no contexto da primeira evangelização e também ao serviço dos mais pobres e das situações mais difíceis, onde mais dificilmente se encontram pessoas que se queiram comprometer. E isso era próprio da Congregação do Espírito Santo, à qual pertenço, e foi por aí que entrei.
Como missionário espiritano conheceu outras realidades na Europa, em França, também em África, na Guiné e em Moçambique. Chegou a ser Provincial dos Missionários Espiritanos. Como o Bispo vai agora para uma diocese portuguesa do interior, desertificada. Já se inteirou das principais dificuldades?
Sim. Será um longo processo, o processo do conhecimento. De qualquer modo, sim, já iniciei esse caminho. Logo que foi publicada a (sua) nomeação comecei a estabelecer os primeiros contactos, fui até lá, tive longas conversas com o senhor D. Antonino, o Bispo até agora de Portalegre - Castelo Branco. Fui encontrando também sacerdotes e gente da diocese, alguns tiveram a amabilidade extrema de vir, inclusivé, a Lisboa para me encontrarem, para conversarem comigo. Tem sido já um primeiríssimo passo de aproximação e de aprendizagem.
Tenho consciência que, evidentemente, estou na pré-história desse caminho e há muito trabalho de conhecimento e de aprofundamento para fazer, naturalmente. Percebo que é uma diocese muito heterogênea, com todos os desafios próprios das regiões do interior de Portugal - despovoamento, envelhecimento. Evidentemente que há um desafio sério de evangelização, como aliás em toda a parte.
Assumo que neste desafio a sensibilidade aos frágeis e aos mais pobres tem que estar na linha da frente de qualquer homem ou mulher de Igreja, e evidentemente também do Bispo e de todos os pastores. Uma atenção especial aos jovens, à evangelização, acompanhamento e proximidade com os jovens, que são um segmento tão importante na vida da Igreja - da sociedade em geral, e certamente na vida da Igreja. Enfim, desafios não faltam. Tenho alguma perceção, mais ou menos genérica, desses desafios e agora o primeiro desafio vai ser conhecer os desafios.
Pedro Fernandes é missionário do Espírito Santo e (...)
Ia perguntar-lhe se já tinha definido as suas prioridades e essas que indicou serão algumas delas, naturalmente.
Sim. Eu diria que as grandes áreas de atenção que devem merecer o melhor das energias em qualquer igreja particular, na missão da Igreja, passa realmente por estas grandes áreas, e também, eventualmente, pela dimensão mais administrativa e económica, de repensar e continuar a pensar a orientação das infraestruturas e dos recursos económicos ao serviço da missão. Esse não é um desafio especialmente de Portalegre-Castelo Branco, é um desafio da Igreja, das dioceses e dos Institutos de Vida Consagrada. A minha experiência como Provincial também me foi mostrando isso. Portanto, também passará por aí a necessidade de alguma atenção.
No imediato é tornar-me próximo dos padres. Uma primeira prioridade de aproximação, de conhecimento de cada um dos ministros ordenados da diocese, padres e diáconos, e ir conhecendo as comunidades, o território, fazer-me próximo das pessoas que são a Igreja, não é? A Igreja são as pessoas, em Cristo, e essa é naturalmente a primeiríssima prioridade. E é a partir daí que depois começarei a conhecer a realidade e, juntamente com toda a comunidade cristã, com os seus diferentes ministérios, vocações e modos de estar na Igreja, continuarmos a discernir e a caminhar.
Evidentemente que vou apanhar um comboio que já está em andamento há muitos anos, há séculos. E é com essa humildade de quem entra num processo que já começou há muito que eu devo abordar este meu início. A posição é de aprendiz, de alguém que entra e que começa por aprender, por escutar, por dialogar, por discernir, juntamente com os irmãos e irmãs, com quem serei chamado a trabalhar.
Mas por ser, precisamente, missionário, há uma dinâmica de atuação que poderá fazer diferença?
Não sei. Eu penso que todos nós marcamos a diferença pelo facto de sermos pessoas diferentes, não é? Todos os outros bispos deste país e do mundo, e todos os padres e todas as pessoas que se empenham na Igreja, têm os seus próprios dons e vão contribuindo com esses dons, que são graça, são benção concedida por Deus ao serviço de todos. Evidentemente que eu tenho a minha própria experiência, o meu próprio caminho, e isso não vai ser alheio ao tipo de presença e ao modo de estar com as pessoas na diocese de Portalegre - Castelo Branco.
Claro que eu fui formatado para a missão da primeira evangelização, para a opção pelos mais pobres, para a grande proximidade às pessoas e grande atenção à sua cultura, ao seu modo de estar, uma particular valorização das culturas e dos modos de estar dos diferentes grupos e das pessoas, como o lugar onde Deus também nos fala. Essa atenção à diversidade como um lugar onde se constrói a comunhão, a unidade, que é sempre dom de Deus, dom do Espírito Santo, mas ao mesmo tempo também compromisso nosso, naturalmente. Esta sensibilidade penso que a recebi, necessariamente, da minha pertença à Congregação do Espírito Santo, portanto, será como missionário espiritano que irei servir esta igreja, com toda a bagagem, com todos os limites, que são muitos, e também com todas as potencialidades, que são algumas, e que tenho que agradecer a Deus e pôr ao serviço.
Como missionário está habituado a viver em comunidade, a tomar decisões em comunidade. Receia, de alguma forma, o isolamento que a nova missão poderá implicar?
Vai ser, de facto, um desafio pessoal, precisamente por não viver, pelo menos no imediato, numa comunidade religiosa onde sempre vivi. Mas, por outro lado, não receio propriamente um isolamento no sentido de que não estarei isolado, estarei com as pessoas da diocese, com os padres e com todos os irmãos e irmãs que vão estar próximos de mim, e de quem já senti, aliás, muito afeto e muita solidariedade, muita proximidade, que agradeço muito, e eu próprio vou tentar estar à altura dessa proximidade, desse afeto e dessa solidariedade. Portanto, vai ser um caminho conjunto.
Como dizia, não estou habituado e não quero habituar-me - Deus me livre! - a trabalhar sozinho, ou a decidir sozinho, ou a discernir sozinho. Não quero habituar-me, e não é possível sequer habituar-me, porque isso não existe. Não existem discernimentos solitários, o discernimento em Igreja tem de ser precisamente assim, em Igreja, com os outros, na escuta de Deus, nas vozes, nas sensibilidades de todos.
O Papa Francisco insistia muito neste tema e toda a problemática, todo o tema da sinodalidade leva-nos por aí. Não é uma descoberta nova, naturalmente, mas se calhar é um aprofundamento indispensável e uma valorização mesmo essencial para que a Igreja continue a ser missão. Somos missão na medida em que nos abrimos àquilo que nosso Senhor nos pede e só acontece se escutarmos Deus nos outros e vivermos no diálogo, no discernimento, na busca dos sinais de Deus no mundo contemporâneo e na Igreja contemporânea.
Considera importante que os bispos façam ouvir mais a sua voz relativamente aos problemas do país? Também pretende ser um bispo interventivo, no sentido de ajudar a Diocese e os seus habitantes, crentes e não crentes, a terem voz?
Olhe, eu tentarei ser um bispo disponível. Disponível àquilo que a própria Igreja, a comunidade e os diferentes órgãos, entidades da Diocese, forem percebendo como importante. Nesse sentido sim, na medida própria daquilo que é o Ministério Episcopal e daquilo que é o serviço que o bispo é chamado a prestar à Igreja e ao mundo, eu estarei disponível para prestar esse serviço no tempo e no modo que eu próprio, e em diálogo com os outros, com as diferentes equipas de trabalho - algumas bastante institucionais, até - me forem finalizando.
Acho importante que o bispo, como aliás todos os outros cristãos e cristãs, se sintam profundamente responsabilizados e comprometidos em mostrar Jesus Cristo ao mundo, mostrar a pessoa viva de Jesus, contribuir para que as pessoas o encontrem e mostrar também os valores do Evangelho. Isso muitas vezes implica denunciar os contravalores e as resistências ao amor, à justiça e à paz que existem no mundo contemporâneo. Essa denúncia é importante e não estaremos a ser fiéis, naturalmente, à missão que nos é concedida pelo nosso batismo - e depois, para aqueles que recebemos o Sacramento da ordem, a mesma coisa, pelo ministério ordenado - não estaríamos a ser fiéis a essa missão se nos furtássemos a ser essa voz profética, que só será profética se, de facto, refletir Deus e o Evangelho, e não os nossos instintos imediatos.
Resumindo, a resposta à sua pergunta, evidentemente, é sim, no sentido que estou disponível, juntamente com toda a Igreja, com os meus irmãos e irmãs, particularmente com os padres, a ser essa voz do Evangelho que formos discernindo como necessária e pertinente.
Estar disponível e estar também atento ao que o rodeia. Olhando para o atual contexto do país, o que é que mais o preocupa nesta altura?
Se calhar bastantes coisas... Preocupa-me um certo esvaziamento de valores, de uma forma geral. Preocupa-me a necessidade de reintroduzir referências sólidas que ajudem as pessoas a caminhar com algum sentido de segurança e a libertarem-se do medo. Preocupa-me os sinais de medo que me parecem existirem na sociedade portuguesa e que depois podem refletir em formas muito perigosas, como a discriminação, o preconceito, os discursos de ódio, a radicalização de posições, por exemplo face aos imigrantes. Isso preocupa-me, todo um discurso e toda uma atitude simplória, simplista, redutora, que analisa de maneira fácil problemas difíceis, que dá resoluções imediatas a problemas complexos.
Todas as formas de populismo que tendem a reduzir a capacidade de abertura, de tolerância, de escuta, de diálogo, de integração das diferenças, e, portanto, de unidade na diversidade.
Todas estas formas que ferem a justiça social e a paz, claro que me preocupam e parece-me que têm de ser, realmente, um ponto de muita atenção por parte da Igreja para que sejamos, justamente, proféticos, comprometidos com o Evangelho e especialmente comprometidos com os mais pobres e aqueles que são frágeis, e que precisam de ter voz, já que não a têm.
É um desafio a toda a Igreja?
Completamente. Não especialmente a mim, obviamente, a todos nós.
A todos os cristãos?
A toda a Igreja, por sermos cristãos, sim. E eu diria a toda a sociedade, mesmo àqueles que não partilham da nossa fé, ou até não têm qualquer religião, mas que têm alguma sensibilidade e alguma solicitude pela verdade, pela justiça, pela paz e pelos grandes valores humanos. Se realmente há essa liberdade interior de buscar o melhor, o bem comum - e esta solicitude pelo bem comum parece-me ser um dos grandes desafios das sociedades contemporâneas ocidentais, em Portugal também -, se esta solicitude existe, esta urgência de estar atentos aos contra sinais e às formas de violência, às vezes muito subtis e subliminares, que possam existir nas nossas sociedades, e nessa atenção denunciar o mal e propôr o bem, parece-me que é um grande desafio para nós todos, para as nossas sociedades também, sobretudo se quisermos preservar uma identidade que valoriza a liberdade, o respeito e a igualdade entre as pessoas, a democracia, naturalmente, como um sistema que de alguma forma reflete fortemente estes valores de liberdade, verdade, de bem e de respeito pelas pessoas.
Para finalizarmos, que mensagem deixa à Diocese que agora vai passar a ser também a sua casa?
Olhe, uma mensagem de muita comunhão, de muita esperança, de muita confiança em Deus, presente em cada um dos meus irmãos e irmãs da Diocese de Portalegre - Castelo Branco, nestas regiões diferentes, que são o Alto Alentejo, a Beira Baixa, ainda um pedaço do Rio Ribatejo, em toda esta diferença deixaria esta mensagem de esperança e de confiança em Deus e nas pessoas, e ao mesmo tempo uma mensagem de disponibilidade. Parto ao serviço da Diocese, ao serviço dos meus irmãos e irmãs, essa será sempre a urgência, será sempre a opção. Podem contar comigo como servidor de Cristo e do Evangelho, ao lado de tantos outros irmãos e irmãs que procuram fazer o mesmo e viver o seu batismo.