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Religião

“Na Igreja não há estrangeiros, nem irmãos de segunda”, diz o novo bispo de Portalegre-Castelo Branco

16 nov, 2025 - 18:27 • Ana Catarina André

D. Pedro Fernandes, ordenado este domingo na Sé de Portalegre, lembrou, ainda, a “posição crónica de carência e desigualdade” da população da região e afirmou-se como opositor a “todas as formas de intolerância”, numa celebração que contou com a participação de centenas de fiéis.

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A meia hora do início da Ordenação Episcopal de D. Pedro Fernandes, novo bispo de Portalegre-Castelo Branco, já não havia lugar no interior da Sé de Portalegre. À entrada, os fiéis iam sendo encaminhados para o claustro onde, através de um ecrã gigante, poderiam assistir à Missa.

É para lá que as catequistas Antónia Ramalhete e Odete Silva se vão dirigindo. Vieram da cidade de Castelo Branco “para receberem o novo Pastor”, mas quando chegaram já não tinham lugar no interior da Igreja. “Gostávamos de entrar, mas o mais importante é estarmos presentes”, diz Antónia Ramalhete, contando que “o que gostava mesmo era dar um abraço” a D. Pedro Fernandes, o espiritano de 56 anos que o Papa Leão XIV nomeou bispo em outubro.

Ao lado de Antónia Ramalhete, Odete Silva constata que faz parte de uma "diocese muito grande”, com “muitos desafios”. “Peço ao novo bispo que tenha em conta a falta de sacerdotes que temos. Vim para lhe dar as boas-vindas, mas também para me despedir de D. Antonino Dias que esteve connosco durante 17 anos e que tentou fazer tudo o que pôde”, constata.

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Entre os fiéis há quem tenha vindo de outras dioceses, como Porto ou Lisboa. Melissa Martins, de 20 anos, veio com duas dezenas de jovens do Casal da Mira, na Amadora, onde D. Pedro Fernandes esteve recentemente. “O padre Pedro, agora bispo, chegou à nossa comunidade e mostrou-se pronto a fazer com que a voz dos jovens fosse ouvida e tivesse uma intervenção direta. Essa atitude do padre de olhar para os jovens e perceber que têm potencial – até por sermos de uma capela, num bairro social – é muito importante".

"Muitas vezes somos marginalizados na sociedade e ter uma pessoa que olhou para nós tocou-nos muito”, considera Melissa Martins, dizendo que, por D. Pedro Fernandes ter passado por vários países, enquanto missionário, lhe deu “um leque de competências que o torna apto a agir com todos”. “Foca-se nas pessoas e no seu potencial”, sublinha.

À entrada da Sé, o escuteiro José Rasquinho, chefe do agrupamento 142 de Portalegre, vai ajudando a encaminhar os crentes que ali chegam. “As nossas comunidades estão com muita esperança. Temos um bispo novo em todos os sentidos”, afirma, constatando que “nos tempos que correm”, é preciso “voltar a acreditar, voltar a ser solidário, voltar a ser amigo do próximo”.

Um bispo que se opõe a “todas as formas de intolerância e exclusão”

Na celebração, que contou com a presença de dezenas de famílias, religiosos e religiosas, padres, bispos e dois cardeais, o novo bispo de Portalegre-Castelo Branco sublinhou a sua oposição “a todas as formas de intolerância e a exclusão injusta”.

“Peço a Cristo que nos conceda a graça de estar ao serviço dos mais frágeis, assumindo os quatro verbos que os Papas Francisco e Leão XIV sublinharam para descrever a solicitude cristã relativamente aos migrantes: acolher, proteger, promover e integrar. Se naturalmente tais verbos se aplicam aos migrantes, aplicar-se-ão também com igual pertinência a todas as pessoas magoadas pela exclusão, pelos discursos de ódio ou pela indiferença que mata”, disse. E sublinhou: “Na Igreja não há estrangeiros, nem irmãos de segunda”.

D. Pedro Fernandes disse, ainda, querer “resistir a todas as formas de falsidade que destroem a família, os valores autenticamente humanos e o respeito pela liberdade e pela dignidade das pessoas, sobretudo as mais frágeis”, e lembrou a “injusta redução para uma periférica situação de interioridade secundarizada e não suficientemente atendida” que “tem posto a população destas terras numa posição de crónica carência e desigualdade”. “Estar ao lado do povo de Deus é subscrever também esta causa da igualdade e da justiça”, sublinhou.

No seu discurso, o prelado garanti, ainda, querer caminhar com todos. “A Igreja somos todos nós. Que cada um se sinta chamado a dar a vida por Cristo. Somos todos missão”, disse, acrescentando que quer ser próximo dos jovens. “Muitos se interrogam sobre o sentido da vida. Como João Paulo II, repito: não tenham medo, escancarem as portas a Cristo”, afirmou. “Os pobres têm de estar no coração das nossas atenções”, frisou.

“Um serviço à comunhão e não à exclusão”, pede D. José Ornelas

Na homilia, D. José Ornelas, que presidiu à celebração, lembrou que a nomeação de D. Pedro Fernandes “resulta de um processo de escuta, de reflexão e discernimento que envolve toda a Igreja”. “Este processo de consulta exprime o desejo de que o ministério, que agora começa, seja iniciado de modo sinodal ao serviço de uma Igreja concreta, para que caminhe unida”, afirmou o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).

Dirigindo-se a todos os diocesanos, D. José Ornelas lembrou que o serviço de cada um “deve ser um serviço à comunhão, à não exclusão”. “É por isso que permanecendo fraternamente unidos ao bispo, estais unidos, através dele, a todos os bispos da Igreja em Portugal, e ao Papa que representa a Igreja em todo o mundo”, afirmou. E sublinhou: “A Igreja Sinodal, que estamos empenhados em construir, é essa rede de relações”.

A Ordenação Episcopal de D. Pedro Fernandes, de 56 anos, teve como bispos co-ordenantes D. Antonino Dias, agora bispo emérito de Portalegre-Castelo Branco, e D. Teodoro Tavares, bispo da Diocese de Ponta de Pedras, no Brasil.

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