Entrevista ao líder da Igreja greco-católica na Ucrânia
"Precisamos de parar de nos matar. Deus encontrará caminhos para curar as feridas dos nossos corações"
26 nov, 2025 - 07:08 • José Pedro Frazão
Figura de referência dos católicos de rito oriental na Ucrânia, o arcebispo Sviatoslav Shevchuk diz que enquanto houver guerra não haverá reconciliação com os russos. Em entrevista exclusiva à Renascença, este sacerdote fala num "caminho" que os ucranianos terão que percorrer até que o ódio pelos russos saia dos seus corações. Ao Patriarcado de Moscovo deixa críticas pelo silêncio em relação ao sofrimento ucraniano.
O chefe da Igreja Greco-Católica Ucraniana, arcebispo Sviatoslav Shevchuk, esteve recentemente em Portugal durante vários dias, para um encontro de bispos europeus em Fátima e visitou também a comunidade emigrante ucraniana.
Os católicos ucranianos mais numerosos seguem o rito oriental e o arcebispo Sviatoslav Shevchuk é a figura proeminente da comunidade. À margem da passagem por Fátima, o prelado falou à Renascença sobre ódio, perdão e paz e também da mensagem mariana e dos testemunhos dos Papa Francisco e Leão XIV.
Que contactos diretos teve já com o Papa Leão XIV?
Recebeu-me em audiência privada, mesmo antes da sua entronização como sucessor de Pedro. Foi um dia muito simbólico, porque nesse mesmo dia, simultaneamente, em Istambul, começou um encontro entre delegações ucranianas e russas, como um promissor processo de paz.
A primeira impressão é a de que o Santo Padre é autenticamente o Papa da paz. Não apenas pelas suas declarações e pela primeira palavra que pronunciou na varanda da Basílica de São Pedro, mas pela sua maneira de ser: não fala apenas sobre a paz, ele incorpora-a em si mesmo. E, falando com ele, tive a sensação de estar na presença da própria testemunha da paz.
A nossa conversa foi muito tranquila. Eu estava um pouco nervoso, mas a forma como ele ouviu e fez perguntas foi muito calma e gentil. Ele estava muito interessado em saber como o povo da Ucrânia estava a sobreviver durante a guerra. Qual o papel da nossa igreja? Como estávamos a testemunhar Cristo em circunstâncias tão trágicas?
Nessa ocasião, pedi-lhe um favor: no dia 28 de junho, fizemos a peregrinação jubilar da nossa igreja à Basílica de São Pedro e pedi-lhe que viesse, que estivesse connosco e abençoasse os peregrinos ucranianos da esperança. E ele veio, dedicou tempo para estar connosco e rezou connosco.
Esteva disposto a rezar com as mães que perderam os seus filhos na linha da frente. Estas mulheres estavam de pé com as fotos dos seus filhos falecidos. Além disso, trouxemos uma exposição especial de ícones feitos em caixas de munições, que assim se transformaram em objetos sagrados para a adoração.
Ele quis rezar e abençoar aqueles ícones e as palavras que nos preparou foram muito inspiradoras. Ele disse: "Não é fácil falar-vos da esperança, mas a esperança vem apenas da presença autêntica de Cristo entre vós."
Pressentiu a vontade de o Papa de, talvez um dia, visitar a Ucrânia?
Claro, o nosso Presidente [Zelensky], o nosso Sínodo e eu convidámo-lo imediatamente a visitar-nos na Ucrânia. Mostrou-se muito disposto a ouvir-nos, mas ainda não obtivemos resposta. Esperamos que um dia nos venha visitar à Ucrânia.
E sentiu também a vontade de mediação neste conflito?
A própria palavra "mediação" significa um mecanismo especial para ser implementado no âmbito diplomático. Para que um Papa possa mediar, é necessário que receba um pedido de mediação de ambas as partes. Além disso, ambas as partes devem comprometer-se a implementar os conselhos ou recomendações do mediador. É preciso obedecer ao mediador.
Até à data, não há indícios de que ambas as partes solicitariam ao Santo Padre tal mediação e que obedeçam às suas ordens. Por isso, o Santo Padre expressou a opinião de que talvez tal mecanismo não seja efetivamente possível neste momento, mas ofereceu o Vaticano como espaço para o encontro e a reunião.
Infelizmente, a proposta foi imediatamente rejeitada pela Rússia, acompanhada de críticas sarcásticas. Mas o lado ucraniano recebeu o sinal de forma muito positiva. Esperamos que um dia esta mediação - não como mecanismo político ou diplomático, mas como inspiração e apelo - encontre apoio em ambos os lados desta guerra atroz e blasfema.
Nos últimos três anos na Ucrânia, ouvimos muitas declarações do lado ucraniano, nem todas simpáticas para com o Papa Francisco. Algumas declarações do Papa Francisco foram interpretadas de uma forma pouco positiva. O que pensa do trabalho e da missão do Papa Francisco na Ucrânia durante o seu pontificado?
O Santo Padre Francisco era um grande amigo meu. Conhecemo-nos na Argentina, antes de ele ser eleito Papa e de eu ser eleito chefe da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Nessa altura, eu era bispo dos ucranianos na Argentina e ele era bispo auxiliar do Arcebispo Metropolita de Buenos Aires.
Conhecíamo-nos há muitos, muitos anos. E o Papa Francisco era realmente muito empático com o sofrimento do povo ucraniano.
Escreveu uma carta aos ucranianos, texto que não era muito conhecido. Lemos esta carta em cada uma das nossas paróquias, mas não foi muito bem recebida pelos jornalistas, pois não se tratava de um texto polémico, mas sim de um texto sobre a paternidade. Creio que este texto deve ser redescoberto como matriz para a interpretação da mentalidade do Papa Francisco na sua relação com toda a situação na Ucrânia.
É certo que muitas vezes passamos por crises mediáticas devido a determinadas interpretações das suas palavras. Fiquei com a impressão de que houve um grande mal-entendido e uma má interpretação das suas palavras.
Diria que o Santo Padre não era um mestre dos conceitos. Era um mestre dos gestos, de transmitir mensagens muito claras através do seu encontro pessoal com as pessoas. Muitas vezes, na Ucrânia, era eu quem tinha de explicar ao meu povo porque é que Francisco falava de uma maneira e não de outra.
Por vezes, não era uma tarefa fácil. Muitas vezes, eu mesmo tinha perguntas para o Santo Padre. Assim, imediatamente, eu viajava para Roma e ele mostrava-se sempre disposto a receber-me. E explicava o seu significado autêntico e original, de bom grado. As minhas recordações do Papa Francisco são de que foi um bom pai para o povo ucraniano.
O Papa Francisco disse que a guerra não é a solução. Que solução existe?
A guerra em si é um crime. É uma blasfémia contra Deus e um crime contra a humanidade. A guerra na Ucrânia é uma grande tragédia. A Ucrânia não começou esta guerra. Fomos obrigados a defender a nossa pátria e o nosso povo.
A guerra foi imposta à nossa nação e devo dizer que não estávamos preparados. Nunca tivemos sequer um pesadelo de que um dia este tipo de guerra começasse. Mas preciso de lembrar que a guerra não começou em 2022, mas em 2014 com a ocupação da Crimeia e a destruição do Donbass ucraniano. E só graças à resistência e resiliência do povo ucraniano é que a invasão em grande escala ocorreu em 2022.
A guerra não é a solução. Esta guerra precisa de parar. Se a Rússia deixar de atacar a Ucrânia, a guerra terminará. E se os ucranianos deixarem de se defender, a nação ucraniana deixará de existir.
Mas, estando aqui em Fátima, tenho a sensação de que a mensagem de Fátima é vital, tanto para a guerra na Ucrânia como para a esperança de paz nos dias de hoje. Eu rezei pela conversão da Rússia na União Soviética, ainda como filho da igreja clandestina e perseguida. Nessa altura, provavelmente, não compreenderíamos o contexto destas mensagens, desta revelação divina.
Voltando ao contexto histórico da mensagem de Nossa Senhora de Fátima, estávamos em maio de 1917. Esse ano ficou marcado por duas revoluções no Império Russo. Foi um ano em que nações inteiras envolvidas na Primeira Guerra Mundial estavam realmente exaustas.
As nações estavam escravizadas pelo demónio da guerra. Ninguém sabia, naquela altura, como pôr fim à guerra, embora o desejo de paz e tolerância estivesse a crescer. Então Maria encontrou estes pequenos pastores, estas crianças, e deu-lhes a receita para acabar com a guerra.
E qual é a mensagem moderna de Fátima?
Oração e conversão. Vejo muitas semelhanças e paralelismos com o momento atual. A Europa, a Ucrânia, até mesmo a Rússia estamos cansados desta guerra.
Há criminosos que estão a alimentar a guerra, que estão a investir milhares de milhões de dólares para matar pessoas na Ucrânia hoje. O demónio da guerra está a escravizar as mentes destes criminosos. Todos estão cansados da guerra.
Todos têm a certeza de que esta tragédia deve ser imediatamente interrompida. Como? Aqui em Fátima, podemos ouvir a voz de Maria, a oração e a conversão. Esta não é uma receita ingénua para a solução. Por isso, rezamos, mas também rezamos pela conversão daqueles que nos matam. Milhares de ucranianos de Portugal, Espanha, Canadá e Ucrânia estiveram na Peregrinação da Esperança neste lugar sagrado de Fátima.
E fomos primeiro à confissão porque precisávamos de nos converter a Deus. Pedimos perdão e reparação para aqueles que ainda cometem crimes contra Deus e contra a humanidade. E rezámos pela conversão da Rússia.
Como repórter, senti muito ódio na Ucrânia durante esta guerra. Observei muita raiva no povo ucraniano em relação à situação. Como lidar com esta raiva, com este ódio? Como forçar a reconciliação? Como amar os inimigos? Esta é, sem dúvida, uma grande tarefa para a vossa Igreja...
O amor não pode ser imposto, mas sim oferecido. A mensagem de Fátima não é a de impor algo, mas sim a de convidar. Foi um convite. O mesmo se aplica ao perdão. Convidamos as pessoas a perdoar, mas não podemos impor o perdão.
E devo dizer que consigo ver essa capacidade heróica dos ucranianos de não desumanizarem os nossos inimigos, de não os tratarem como animais. Muitas vezes, os russos desumanizavam os ucranianos, especialmente os civis. Espero que um dia esta dor profunda, que agora aumenta em nós, seja vencida pelo perdão.
Tem mesmo essa esperança?
Precisamos de tê-la. Se nos deixarmos escravizar pelo ódio, o nosso inimigo já terá vencido, pois terá escravizado os nossos corações. Para sermos pessoas livres, para defendermos a liberdade pela qual lutamos, precisamos de rejeitar o ódio.
Esta é a mensagem de Fátima, para nós, hoje. Mas este ato de perdão e reconciliação é um caminho, uma viagem, uma peregrinação. Primeiro, precisamos de começar pelo pessoal, pela conversão pessoal e também pelo perdão pessoal.
Não é fácil falar com uma vítima sobre o perdão, mas estamos aqui para a convidar. Porque perdoar significa curar, sarar a própria ferida. Se conseguirmos ultrapassar, ainda que minimamente, o trauma da guerra, creio que esse será o momento para falarmos da reconciliação entre as nações e as sociedades.
Primeiro, precisamos de parar de nos matar. Em primeiro lugar, precisamos de acabar com a guerra. E, então, a graça de Deus encontrará um caminho para curar as feridas dos corações humanos.
Por fim, tem falado na instrumentalização da religião. Penso que se está a referir ao lado russo. Há pessoas com quem falar do outro lado, mesmo na esfera religiosa, nos ortodoxos russos, muito ligados ao poder político em Moscovo? Há boas almas, mesmo em diferentes confissões, do lado russo?
De momento, ainda não. É uma pena e diria que é uma grande incógnita o porquê de o Patriarca de Moscovo nutrir ódio contra os ucranianos. Porque é que nenhum dos seus bispos se manifesta contra a guerra? Porque é que aqueles padres que oravam pela paz foram afastados das suas funções sacerdotais?
Talvez haja uma grande máquina de escravização da consciência em ação na Rússia, neste preciso momento. Talvez essas almas boas não sejam livres para expressar o seu desejo genuíno de paz.
Essas pessoas existem?
Acho que sim, provavelmente. Porque não? O Espírito Santo está a atuar no coração de cada ser humano. Mas não os conseguimos encontrar agora. Há algumas vozes contrárias à posição do Patriarcado de Moscovo e à ideologia do mundo russo, mas estão fora da Rússia. Ninguém na Federação Russa é capaz de ir contra a corrente.
Essa é a situação hoje. Quanto ao amanhã, Maria prometeu que, no fim, o seu coração imaculado prevalecerá. E essa é uma questão para as esperanças cristãs para o futuro.
- Noticiário das 0h
- 16 mai, 2026








