Situação "tranquila" na Venezuela, mas "há medo de falar"
05 jan, 2026 - 18:54 • Ângela Roque
Missionário venezuelano que assistiu ao ataque dos EUA diz à Renascença que foi uma “noite horrível”, e que intervenção militar continua a causar “perplexidade” e “expectativa”. Maioria da população permanece em casa e há restrições de circulação, mas é possível comprar bens essenciais. Igreja na Venezuela ainda não reagiu, mas organismo que representa bispos latino-americanos já enviou mensagem de solidariedade.
Dois dias depois do ataque dos Estados Unidos à Venezuela, a situação em Caracas está aparentemente calma. Há restrições à circulação, mas os transportes voltaram a circular e é possível adquirir alimentos e água nas poucas lojas que arriscaram abrir. Mas a maior parte das pessoas tem optado por não sair, diz à Renascença um leigo missionário venezuelano que, por motivos de segurança, pede para não ser identificado.
“Neste momento está tudo calmo, há uma certa tranquilidade. Pouco a pouco vai-se retomando a normalidade, mas devagar… porque ninguém sabe se não surgem grupos soltos que, por sua conta, queiram defender alguma coisa e, estando armados, possam agir com violência sobre outros cidadãos. E nem tudo está aberto Pode-se comprar alimentos e água potável, os transportes voltaram a funcionar, mas temos algumas restrições e as pessoas, para já, preferem ficar em casa”, conta.
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Diz que no ataque “cirúrgico” ao principal complexo militar da Venezuela (o Forte Tiuna), morreram os homens mais próximos de Nicolás Maduro. Admite que o número total de vítimas pode ser superior a 80, mas não há ainda um balanço oficial definitivo, apenas algumas indicações dadas pelos hospitais que assistiram as vítimas.
“Há um balanço que o regime cubano confirma, porque todo o círculo que protegia Maduro era cubano: morreram 32 cubanos e oito venezuelanos, o que faz 40. Outro balanço fala de 80 mortos. Ou seja, não há um número oficial, fala-se entre 40 a 80 vítimas. O que se sabe é que foram atendidos em hospitais militares, e há dois na Venezuela - em Caracas, concretamente, que foi onde aconteceram as coisas e houve vítimas aí atendidas”, explica.
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A trabalhar para as obras sociais da Igreja na Venezuela, este missionário diz que há na população um misto de emoções, sobretudo por não se saber como irá evoluir a situação. “Não há um sentimento único. Há, por um lado, perplexidade, por outro, expectativa de mudança. Medo não creio que haja, antes uma expectativa sobre como vai ser, porque efetivamente não está claro se se vai evoluir para um regime democrático, porque parece que o que importa agora é o petróleo, e não tanto a democracia”. Mas, confirma que “há medo falar”, até porque desde o dia do ataque que vigora no país, um decreto com 14 artigos que restringe os direitos e as liberdades dos cidadãos.
“O governo publicou um decreto que declara o chamado ‘Estado de Conmoción Exterior’ (estado de emergência) em todo o território nacional, que suspende as garantias constitucionais. Tecnicamente podem eliminar certos direitos, pode haver restrições de circulação em algumas ruas. No centro da cidade há avenidas cortadas, não se pode passar. Há restrições sobretudo na mobilidade, e na internet também, às vezes cortam-na”, exemplifica.
Para o futuro espera que se respeite a soberania e a vontade do povo da Venezuela. “O mais importante é que se possa avançar para uma normalização e democratização, que possa haver eleições e que todos cumpram a lei. É como disse o Papa Leão XIV, na mensagem de ontem no Angelus – que se respeite a soberania do povo venezuelano, que se ajudem aos mais pobres e que os grandes não se imponham sobre os mais pequenos com brutalidade, que haja respeito”.
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Até agora, a Conferência Episcopal Venezuelana não emitiu qualquer comunicado sobre a intervenção militar dos EUA, e os bispos que a Renascença contactou esta segunda-feira optaram por não gravar qualquer reação.
Um deles, cuja identidade também omitimos, enviou-nos a seguinte mensagem: “nós, bispos da Venezuela, ainda não emitimos comunicados. A situação está calma, embora muitas pessoas ainda prefiram ficar em casa, enquanto outras fazem compras por impulso. A frequência às missas ontem foi moderada. Continuemos a rezar pela Venezuela, para que Deus lhe conceda a serenidade necessária para seguir em frente”.
Mas, o Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM) manifestou esta segunda-feira a sua solidariedade para com a Igreja e o povo da Venezuela, apelando à superação da violência e à construção de caminhos de justiça baseados no diálogo e na verdade.
“Encorajamos todos os esforços para construir pontes, curar feridas e avançar na reconciliação, sem excluir ninguém. A Igreja é chamada a ser casa aberta, espaço de encontro e voz serena que anime a esperança”, refere a mensagem da presidência daquele organismo.
- Noticiário das 22h
- 13 jun, 2026










