09 jan, 2026 - 12:30 • Aura Miguel
“A guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está a alastrar”, lamentou esta sexta-feira o Papa Leão XIV, ao reconhecer que se quebrou o princípio, estabelecido após a II Guerra Mundial, que proibia os países de recorrerem à força para violar fronteiras alheias.
No seu habitual discurso de Ano Novo ao Corpo Diplomático acreditado na Santa Sé, o Papa recordou que o respeito do direito internacional humanitário não pode depender das circunstâncias nem dos interesses militares e estratégicos e deve sempre prevalecer sobre as veleidades dos beligerantes.
"Não se pode silenciar que a destruição de hospitais, infra-estruturas energéticas, habitações e locais essenciais à vida quotidiana constitui uma grave violação do direito internacional humanitário”, afirmou.
"A Santa Sé reitera com firmeza a condenação de qualquer forma de envolvimento de civis em operações militares e espera que a Comunidade Internacional tenha presente que a proteção do princípio da inviolabilidade da dignidade humana e da sacralidade da vida conta sempre mais do que qualquer mero interesse nacional”, acrescentou.
Aos diplomatas, o Papa lembrou que o orgulho ofusca a própria realidade e a empatia para com o próximo. “Não é por acaso que na origem de todo conflito está sempre uma raiz de orgulho. Vemos isso em muitos contextos, a começar pelo prolongar-se da guerra na Ucrânia, com o enorme sofrimento infligido à população civil. Perante esta dramática situação, a Santa Sé reafirma com determinação a urgência de um cessar-fogo imediato e de um diálogo animado pela procura sincera de vias capazes de conduzir à paz”, disse.
O mesmo se passa na Terra Santa, onde, apesar da trégua anunciada em outubro, “a população civil continua a sofrer uma grave crise humanitária, que acrescenta ainda mais sofrimento ao que já é vivido”. Por isso, a Santa Sé segue com especial atenção todas as iniciativas diplomáticas que visam garantir aos palestinianos da Faixa de Gaza um futuro de paz e justiça duradouras na sua própria terra, bem como a todo o povo palestiniano e ao inteiro povo israelita, “embora, infelizmente, se verifique na Cisjordânia o aumento da violência perpetrada contra a população civil palestiniana, que tem o direito de viver em paz na sua terra”.
Na sequência dos recentes acontecimentos na Venezuela, o Papa renovou o seu apelo “ao respeito pela vontade do povo venezuelano e ao empenho na defesa dos direitos humanos e civis de todos e na construção de um futuro de estabilidade e concórdia”, com vista a “construir uma sociedade baseada na justiça, na verdade, na liberdade e na fraternidade, e assim superar a grave crise que há muitos anos aflige o país".
Às suas preocupações pela ausência de paz, Leão XIV acrescentou o que se passa na região africana dos Grandes Lagos, no Sudão e no Sudão do Sul, sem esquecer as actuais perseguições, por motivos religiosos, no Bangladesh, na região do Sahel e na Nigéria e as vítimas da violência jihadista em Cabo Delgado, Moçambique.
No seu longo discurso, o Santo Padre lamentou a falta de diálogo autêntico, reconhecendo certas ambiguidades de linguagem “usadas cada vez mais como uma arma” com a qual se engana ou se atinge e ofende os adversários. “É doloroso constatar que, especialmente no Ocidente, os espaços para a liberdade de expressão estejam cada vez mais a ser reduzidos, enquanto se desenvolve uma nova linguagem, ao estilo de Orwell, que, na tentativa de ser cada vez mais inclusiva, acaba por excluir aqueles que não se adaptam às ideologias que a animam”, frisou Leão XIV reconhecendo que, “desta deriva resultam outras que acabam por restringir os direitos fundamentais da pessoa, a começar pela liberdade de consciência.”
O Papa pediu o total respeito pela liberdade religiosa e de culto para os cristãos e também para todas as outras comunidades religiosas. Acrescentou, no entanto, que “não se pode ignorar que a perseguição aos cristãos continua a ser uma das crises de direitos humanos mais difundidas atualmente, afetando mais de 380 milhões de crentes em todo o mundo, os quais sofrem níveis elevados ou extremos de discriminação, violência e opressão devido à sua fé”.
Actualmente, o fenómeno afeta aproximadamente um em cada sete cristãos a nível global e, em 2025, agravou-se por causa dos conflitos em curso, dos regimes autoritários e do extremismo religioso.
Mas as perseguições também se estendem pelo Ocidente: “Não se deve esquecer uma forma subtil de discriminação religiosa contra os cristãos, que se está a difundir também em países em que eles estão em maioria, como na Europa ou nas Américas, onde às vezes, por razões políticas ou ideológicas, se veem limitados na possibilidade de anunciar as verdades evangélicas, especialmente quando defendem a dignidade dos mais frágeis, dos nascituros, dos refugiados e dos migrantes, ou promovem a família.”
O Papa reafirmou a centralidade da instituição familiar e condenou “a tendência preocupante no sistema internacional de negligenciar e subestimar o seu fundamental papel social, levando a uma sua progressiva marginalização institucional”.
Leão XIV sublinhou que “a vocação ao amor e à vida, se manifesta de forma proeminente na união exclusiva e indissolúvel entre a mulher e o homem”, realidade que impõe o “imperativo ético fundamental de colocar as famílias em condições de acolher e cuidar plenamente da vida nascente. Isto é especialmente prioritário nos países que estão a atravessar uma dramática queda da taxa de natalidade”.
Em relação ao aborto, o Papa lembrou que a Santa Sé expressa profunda preocupação relativamente a projetos destinados a financiar a mobilidade transfronteiriça com o objetivo de garantir o acesso ao chamado “direito ao aborto seguro” e “considera deplorável que recursos públicos sejam destinados à eliminação da vida, em vez de serem investidos no apoio às mães e às famílias”.
A condenação é extensiva à gestação de substituição, “a qual, ao transformar a gravidez num serviço que pode ser comercializado, viola a dignidade tanto da criança, reduzida a um “produto”, como da mãe, instrumentalizando o seu corpo e o processo de gestação, e alterando o projeto de relacionamento original da família”.