Ouvir
  • Noticiário das 15h
  • 16 mai, 2026
A+ / A-

Dez novos estudantes cristãos paquistaneses com bolsa em Portugal

18 jan, 2026 - 13:00 • José Pedro Frazão

Joel Sahotra, ex-deputado provincial no Paquistão, pertencente à minoria cristã, assinala que os cristãos de Portugal mostram uma abertura para este projecto sem paralelo na Europa. Em entrevista à Renascença, denuncia ainda a exploração laboral e sexual de trabalhadoras cristãs no Paquistão e descreve as perseguições que dizem sofrer num país esmagadoramente muçulmano.

A+ / A-

Dez novos estudantes paquistaneses de minoria cristã vão poder estudar em Portugal, no próximo ano letivo. Juntar-se-ão aos quatro jovens cristãos paquistaneses a estudar na Universidade Católica no Porto.

Joel Sahotra, cristão paquistanês e ex-deputado na província do Punjab, veio a Portugal pedir novos apoios para os jovens paquistaneses que pertencem à minoria cristã de 1% da população daquele país.

"Esperamos dez alunos no próximo ano. Ficarão cá o tempo que dura o seu o período de estudo e, após a sua conclusão, os alunos regressarão ao Paquistão. Têm de se candidatar diretamente na universidade, de modo online, são entrevistados e, quando são aprovados, precisam de pedir um visto em Portugal", explica este ativista pelos direitos dos cristãos no Paquistão, na sua passagem por Portugal.

Em entrevista à Renascença, Joel Sahotra assinala que os cristãos de Portugal mostram uma abertura para este projecto sem paralelo na Europa.

"Portugal estabeleceu um precedente a este respeito, porque temos procurado este tipo de oportunidades em diferentes países europeus. Chegámos mesmo a visitar a Hungria, a Polónia, a Espanha, a Itália. Todos estes países também são católicos, mas devo dizer, em nome da juventude cristã paquistanesa, que devemos mostrar a nossa gratidão ao povo de Portugal por terem demonstrado a sua preocupação com a comunidade mais marginalizada do Paquistão", diz Sahotra.

"Imigração ilegal deve ser desencorajada"

Joel Sahotra reuniu-se ainda com deputados de múltiplas forças políticas em Portugal, abordando também a situação de cristãos paquistaneses que vivem em Portugal.

"Todos demonstraram preocupação e discutimos com eles que realmente precisamos de oportunidades de emprego para a nossa comunidade cristã do Paquistão, pois somos menos privilegiados e menos favorecidos na nossa sociedade. Por isso, se alguém tiver a oportunidade de conseguir um emprego em Portugal, faz sentido que, quando ele envia dinheiro para a sua família no Paquistão, a família prospere e isso também altere o seu estatuto social", responde este ativista cristão.

Nas conversas com os deputados ficou claro que "a imigração ilegal deve ser desencorajada em todas as partes", mas Joel indagou sobre a possibilidade ou oportunidade "para que eles possam vir para Portugal dentro dos limites legais, o que seria realmente útil". Na resposta, relata este ex-deputado, os parlamentares portugueses "pareceram muito positivos"

Joel Sahotra acredita que os cristãos paquistaneses integrar-se-ão muito bem na sociedade. "Conhecem as normas familiares, conhecem os valores da igreja, por isso, serão mais úteis para preparar uma sociedade mais forte em Portugal", explica na Renascença.

Leis, práticas e discriminação

A comunidade cristã paquistanesa queixa-se de múltiplas violações de direitos e agressões num país maioritariamente muçulmano. Joel Sahotra, que reconhece que a Constituição paquistanesa inclui disposições importantes, embora não cumpridas.

"Nós, Paquistão, somos pioneiros desde a nossa criação em 1947. Os nossos antepassados escreveram na Constituição do Paquistão que todo o cidadão deve ser tratado com igualdade. Mas infelizmente é difícil, pois a situação no Paquistão é completamente diferente. 98% dos paquistaneses são muçulmanos e os outros grupos - das comunidades cristã, hindu e sikh - enfrentam este tipo de problemas no país", explica Sahotra, identificando os desafios da implementação dos direitos constitucionais e a da mudança de mentalidade da sociedade paquistanesa.

No plano económico, a discriminação é constante, alega Joel. "Não importa se tem um mestrado ou se é um grande especialista numa área porque, mesmo no setor público, quando descobrem que pertence a uma comunidade cristã, não lhe oferecem um emprego nem bons cargos". Por isso os cristãos paquistaneses fogem do país devido a questões socioeconómicas e à discriminação religiosa, explica este ativista.

Abusos sexuais sobre mulheres cristãs

A denúncia de abusos sobre a minoria cristã tem alguns focos particularmente agudos. É o caso das trabalhadoras das fábricas de tijolos no Paquistão, onde a maioria da força de trabalho é cristã.

" É lamentável que as nossas jovens sejam assediadas e abusadas sexualmente como trabalhadoras nas fábricas de tijolos, e ninguém se preocupa com elas. Não há voz que se levante por elas. Infelizmente, vivem como escravas, geração após geração, durante 40 a 50 anos, nas fábricas de tijolos. Esta questão também deve ser levantada na comunidade internacional, para que sejam tomadas medidas pelo Ocidente", denuncia Joel Sahotra nesta passagem por Lisboa.

O ex-deputado provincial paquistanês acusa o Ocidente de não dar respostas positivas às denúncias de abusos dos direitos humanos dos trabalhadores da construção civil ou sobre as mulheres cristãs.

"No Paquistão, temos boas ligações com os diplomatas do Ocidente. Eles estão interessados, gostam de ouvir falar sobre o problema, preparam relatórios, mas, no momento da ação, na maioria das vezes recebemos respostas do lado deles: 'a nossa constituição é liberal, não nos permite ajudar-vos com base na religião", lamenta.

A fogueira das alegadas blasfémias e das múltiplas conversões

A este quadro juntam-se as acusações constantes de blasfémia que condenam os cristãos de forma sumária no Paquistão. "Se alguém é acusado de ter cometido alguma blasfémia, deve haver alguma investigação por parte das autoridades. Mas, devido à mentalidade, ninguém se preocupa em esperar", reclama Joel Sahotra, explicando a razão de diversos incidentes de pessoas queimadas vivas ou, como num caso recente, de mais de 250 casas cristãs e mais de 20 igrejas incendiadas no Paquistão.

Joel Sahotra diz que, na maioria dos casos, estas pessoas não foram protegidas pela polícia. Mais complexa é mesmo a aplicação da justiça à minoria cristã nos sistemas de Sharia (lei islâmica), que coexistem no Paquistão com um outro sistema secular.

"Num tribunal da Sharia, um advogado ou procurador que não seja muçulmano não é elegível para comparecer em tribunal. Um caso contra um não muçulmano pode ser julgado em tribunal, mas o advogado tem de ser muçulmano. Mas, uma vez que 98% da população, um advogado também sofre pressão pública e, ao abrigo da lei islâmica, também precisa de proteger a sua vida", descreve este político cristão.

No capítulo das conversões e casamentos forçados, a lei é clara na proibição "mesmo para raparigas com menos de 18 anos". No entanto, denuncia Joel Sahotra, "devido à pressão imposta pelos mullahs (sacerdotes islâmicos) e pelo tribunal da Sharia, ninguém se importa com isso.

Apelo a Portugal como voz do Paquistão cristão

Joel pede aos portugueses que sejam uma "voz forte" dos cristãos paquistaneses, denunciando que não estão a ser tratados com igualdade num país onde, diz este ativista, ainda se vive numa "era de perseguição onde não existe o conceito de que todo o ser humano deve ser tratado com igualdade, e que, devido às diferenças religiosas, não deve ser tratado como um cidadão de segunda classe"

O político paquistanês apela a um "forte apoio" moral e financeiro "para fortalecer a comunidade mais marginalizada e pobre do Paquistão".

Ouvir
  • Noticiário das 15h
  • 16 mai, 2026
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Vídeos em destaque