D. José Bettencourt, anfitrião português de Leão XIV: "O Papa quer entrar na profundidade e no coração de África”
25 fev, 2026 - 11:00 • Aura Miguel
“Desde o Rio dos Camarões e Angola à Ilha de Fernando Pó há um fundo comum do qual nós todos, cristãos, nos orgulhamos porque toca a nossa história portuguesa”, diz à Renascença o núncio apostólico nos Camarões e na Guiné Equatorial.
O núncio apostólico nos Camarões e na Guiné Equatorial, D. José Bettencourt, natural dos Açores, é o diplomata da Santa Sé, responsável pela organização de duas das quatro etapas da viagem papal a África. De 13 a 23 de abril, Leão XIV cisitará Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial).
Em entrevista à Renascença, D. José Bettencourt partilha as suas expectativas e alguns detalhes do programa
Como encara a preferência de Leão XIV por estes países africanos?
O Papa Leão XIV, enquanto religioso, é um grande admirador de Santo Agostinho, que foi um grande santo e doutor da Igreja, e nasceu e morreu em África. É óbvio que Leão XIV, enquanto filho de Santo Agostinho, tencione visitar a terra do seu pai espiritual. Mas toda a viagem revela que o Santo Padre quer entrar na profundidade e no coração de África, o que é motivo de grande alegria. A sua visita será um momento de graça para este continente e estas terras.
Encontrou-se com o Santo Padre por diversas vezes. Enquanto núncio apostólico, sensibilizou-o para visitar os Camarões e a Guiné Equatorial?
O Santo Padre já tinha algumas ideias, mas claro que falamos destas terras. O programa da visita revela a importância de ir até os Camarões, um país com 33 milhões de habitantes, com mais de 250 etnias e com uma extensão que vai desde o Atlântico até ao deserto do Sahara. É um país rodeado por sete países vizinhos e que também sofre com alguns conflitos.
Conflitos relacionados com o terrorismo?
Aqui há três tipos de conflitos: os da região separatista anglófona, no noroeste e sudoeste, depois temos o Boko Haram, no Norte, e também um grande número de refugiados. Mas, no seu todo, trata-se de um grande país. Creio que Camarões é o único, entre os 54 países de África, com duas línguas oficiais: o inglês e o francês. E também tem merecido a escolha dos Papas, pois já tivemos três visitas pontifícias: João Paulo II veio duas vezes, em 1985 e em 1995, e o Papa Bento XVI esteve aqui em 2009. Portanto, há já uma história e uma missão que ligam os Camarões ao Papa.
Além da capital, que outras etapas o Papa vai percorrer nos Camarões?
Depois da sua chegada a Yaoundé e do encontro, obviamente, com o chefe de Estado, está prevista, no dia seguinte, uma visita a Bamenda, ao coração de uma região em conflito. Portanto, vamos receber o Papa, cujas primeiras palavras quando foi eleito foram "a paz esteja convosco”. E este eco vamos tornar ouvi-lo em terras onde se vive a guerra já há nove anos. Tem sido terrível com muitas mortes e famílias deslocadas. E o Papa tem a coragem de visitar esta zona. Nem todos lá vão... Creio que a presença aqui do Santo Padre será uma mensagem muito importante, capaz de unir e juntar outros setores da sociedade, a nível religioso, inter-religioso e ecuménico, mas também os diferentes setores da sociedade civil para juntos renovarem um empenho, uma missão para a paz.
Quem está envolvido nessa guerra?
É um assunto interno entre a região anglófona e a região francófona. Há um movimento a favor da separação e da independência face ao poder central. O conflito tem causado muito sofrimento e muitas mortes. Trata-se de uma região separatista com seis mil habitantes e onde se encontram cinco dioceses católicas.
A visita também inclui a maior cidade dos Camarões…
Sim, a cidade de Douala, no litoral. É uma grande metrópole, com cerca de sete milhões de habitantes, é o centro económico do país, onde se encontram os portos mais importantes. Douala congrega diferentes povos e etnias. O Santo Padre vai celebrar missa e terá ocasião de visitar um hospital e falar diretamente aos jovens. Aqui, a idade média da população é de19 anos. Portanto, falar para os jovens é falar para toda a população.
Como é a realidade dos católicos?
Têm uma fé muito viva. A celebração da Santa Missa pode juntar oito a dez mil fiéis. No Natal, estive no grande Norte, mesmo vizinho da República Centro-africana, e vieram mais de quatro mil pessoas assistir à missa do dia de Natal. As celebrações aqui são muito vivas e coloridas e prolongam-se porque as pessoas vêm para estar na celebração litúrgica. Como sacerdote, devo dizer que é muito enriquecedor e cheio de significado.
E a visita à Guiné Equatorial?
É o único país de África de língua espanhola, com cerca de dois milhões de habitantes e que, em 1982, foi visitado por João Paulo II. É também oúnico pais do mundo que tem o chefe de Estado há mais tempo no poder [Teodoro Oblang Nguema Mbasogo é presidente desde 1979].
O Santo Padre vem por causa dos fiéis. Ele vem para se encontrar com todas as pessoas de boa vontade. A Providência não escolhe momentos, mas predispõe-se às situações que existem. Eu creio que os fiéis aqui estão preparados e têm grande desejo em se encontrar com o Santo Padre. A sua visita vai trazer muita esperança e pode ser ocasião para muitas e boas coisas, tanto nas questões de paz, como em questões inter-religiosas e no campo do desenvolvimento social.
O que destaca na visita à Guiné Equatorial?
O Santo Padre aterra na capital, em Malabo, na ilha do Bioco também conhecida como a Ilha de Fernando Pó [nome do navegador e explorador português que descobriu esta ilha em 1472]. E, como sabe, também foram os exploradores portugueses que, na mesma época, chegaram ao Rio dos Camarões, que, mais tarde, deu origem ao nome de outro país.
Em Malabo, o Papa celebra missa, encontra-se com o mundo académico e outras instituições. Depois, visita Mongomo, onde se encontra a segunda maior Igreja de África - a primeira é em Yamoussoukro, na Costa do Marfim. Trata-se de um santuário nacional dedicado a Nossa Senhora da Imaculada Conceição e muito festejado no dia 8 de Dezembro, onde também existem escolas e várias outras instituições.
Por fim, Leão XIV visita a grande cidade de Bata, no litoral. É o centro económico da Guiné Equatorial e ali haverá um encontrocom os jovens. Portanto, será uma visita muito cheia e rica que permitirá encontrar vários setores da sociedade.
Entre Camarões e Guiné Equatorial, Leão XIV também visita Angola. Já não é a sua área de missão como núncio, mas diz muito aos portuguesa não é?...
Angola tem uma história muito rica. Gosto de recordar, aqui em África, que o primeiro bispo africano sub-saariano era um filho de Angola. Foi bispo por 10 anos e tinha uma diocese imensa que ia até o Japão, o que revela a importância que a Igreja sempre deu à África. Também gosto de recordar que o primeiro embaixador junto a Santa Sé da zona Sub-saariana era um filho de Angola que está sepultado na Igreja Santa Maria Maior. Ou seja, desde o Rio dos Camarões e Angola à Ilha de Fernando Pó há um fundo comum do qual nós todos, cristãos, nos orgulhamos porque toca a nossa história portuguesa.
- Noticiário das 19h
- 13 mai, 2026








