Entrevista Renascença/Ecclesia
"É preciso promover uma Igreja de homens e mulheres"
08 mar, 2026 - 09:30 • Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)
A presidente do Centro de Reflexão Cristã diz que "continua a fazer sentido assinalar o Dia da Mulher" porque a igualdade de direitos "é um trabalho constante das sociedades". Inês Espada Vieira coloca de parte a eventual ordenação de mulheres, mas considera necessário “menos hesitações” na defesa da “pluralidade” no seio da Igreja.
A presidente do Centro de Reflexão Cristã (CRC), Inês Espada Vieira, pede mais rapidez e "menos hesitações" no reconhecimento da importância das mulheres na Igreja.
"É preciso promover uma Igreja de homens e mulheres", diz a investigadora e professora universitária em entrevista à Renascença e Agência Ecclesia, neste Dia Internacional da Mulher.
"A Igreja tem de reconhecer, assumir, promover a necessidade de uma Igreja que seja de homens e mulheres”, reforça a presidente do CRC.
A investigadora na área das Ciências Sociais coloca de parte a eventual ordenação de mulheres, mas considera necessário “menos hesitações” na defesa da “pluralidade”.
“Não é que eu queira agora a Igreja tomada pelas mulheres. Eu gostava era que não houvesse tanta hesitação em discutir isto, em abrir verdadeiramente a mulheres que querem dar o seu ponto de vista, que, às vezes, não é tão feminino assim, é só uma questão de pluralidade”, explica.
Para Inês Espada Vieira, a igualdade de direitos "é um trabalho constante das sociedades", pelo que importa que se fale insistentemente da igualdade e "continua a fazer sentido assinalar o Dia da Mulher".
"Celebrar o Dia da Mulher continua a fazer sentido e faz sentido em todos os lugares do mundo"
Noutro plano, a dirigente do CRC alerta para necessidade um combate constante aos discursos misóginos que têm ganhado dimensão nas escolas e na sociedade em geral. Ao mesmo tempo, Inês Espada Vieira mostra-se espantada com a banalização da violência sexual e a reprodução de comportamentos machistas em ambiente escolar.
"A escola tem de debater estas questões" e os seus diretores não podem alhear-se do problema, diz, numa referência à notícia de que, nos últimos dois anos, pelo menos 79 escolas públicas receberam personalidades digitais que promovem conteúdos sexuais, misóginos ou pornográficos.
“Não podemos ter diretores de escolas a dizer 'não podemos controlar tudo'", sublinha.
"É preciso não fingir que está tudo bem."
Com a evolução social das últimas décadas, há quem defenda que a existência do Dia Internacional da Mulher tende a tornar-se irrelevante. Mas quando olhamos para a realidade, sobretudo em Portugal, a subsistência de desigualdades salariais e as dificuldades no acesso a cargos de chefia provam o contrário?
Celebrar o Dia da Mulher continua a fazer sentido e faz sentido em todos os lugares do mundo. Em Portugal, felizmente, a nossa Constituição - que celebra este ano 50 anos e também estamos em festa por isso - e os últimos 51, 52 anos de construção da democracia trouxeram para a legislação a igualdade entre os homens e as mulheres. Creio que temos estes dois níveis. Do ponto de vista institucional, do ponto de vista do reconhecimento dos direitos, das necessidades e dos deveres de cada um, os homens e as mulheres são iguais em Portugal. Mas, depois, na prática…
Ainda não conseguiu concretizar-se plenamente…
Sim, e acho que é, na verdade, um trabalho constante das sociedades. Na democracia, nesse jogo entre os poderes políticos, os poderes institucionais, entre as comunidades, a sociedade, que é essa coisa muito plural, continuamos a ter de fazer trabalho. O Dia Internacional da Mulher é um dia para voltar a falar, falar insistentemente dessas situações.
"É preciso não fingir que está tudo já bem e que as mulheres só andam a reclamar"
Num artigo publicado no ponto SJ, refletia sobre o espaço que as mulheres ocupam. A verdade é que, ao lado dessas desigualdades estruturais, vemos agora crescer narrativas, às vezes profundamente misóginas, como o movimento “red pill”, que ganha cada vez mais atração entre os rapazes mais novos. Como é que explica este retrocesso e o que pode fazer-se para travar este tipo de extremismo?
Oxalá eu pudesse explicar uma coisa tão complexa. De facto, o que posso dizer é que é uma surpresa, que é um espanto. De facto, eu não tenho uma explicação, tenho um espanto e um alerta para todos nós: pais, educadores, cidadãos ativos do nosso espaço público. Temos de procurar resolver ou mudar a direção que algumas questões estão a levar. Os homens e as mulheres, os rapazes e as raparigas, os meninos e as meninas em todos os momentos da vida, têm de ser considerados e vividos, têm de ter uma experiência da felicidade, uma experiência da vida em comum, da vida familiar, da vida consigo mesmo, têm de ter uma experiência feliz, têm de ter uma experiência digna e que os possa formar como pessoas, que depois terão essas vidas mais justas.
Agora, isto é muito difícil e temos de colocar muito peso em cima da importância da escola. Não é uma responsabilidade única, mas a escola pública - no caso, o Estado - tem a obrigação de debater estas questões. Não podemos ter diretores de escolas a dizer “não podemos controlar tudo, eles também em casa ouvem”. Primeiro, se calhar, alguns não ouvem em casa e, depois, isso é a desculpa dos pais: "Eles também ouvem na escola, não posso controlar tudo.” É muito, muito assustador. Temos de olhar também para o que está a correr bem e quais são essas instituições, essas comunidades, essas estratégias, esses encontros que estão a correr bem e que transformam a maneira dos rapazes e das raparigas pensarem.
"Ninguém anda preocupado com a violência que pode haver contra as mulheres migrantes que têm 'vistos gold'"
O grau de atração e de eficácia deste discurso extremista que está a entrar de novo em voga no nosso mundo - noutras partes nunca saiu - também pode ser contraposto por discursos que sejam igualmente eficazes na perceção de que a igualdade não é ameaça nenhuma?
É uma construção constante, ou seja, nós não vamos resolver isto com um workshop ou com um curso de formação. Agora, é preciso não fingir que está tudo já bem e que as mulheres só andam a reclamar, ou que já há muitas mulheres. Não há: vamos tirar fotografias ao governo, vamos tirar fotografias à Assembleia da República…
A questão é sobretudo neste sentido: há um tipo de trabalho que é eficaz, neste caso para um resultado que não é o que se pretende, mas é eficaz. Também podemos perceber que é preciso insistir muito para chegar a resultados, com o algoritmo, com as bolhas…
Quando estamos a analisar esta questão das redes, estamos a analisar também uma parte do mundo, não é? Não é verdade que sejam todos assim, felizmente, mas, de facto, todos somos responsáveis, cada um é responsável. Entendamo-nos como cidadãos, não precisamos todos de lutar pelas mesmas causas ou de termos as mesmas preocupações, porque assim seríamos todos iguais. Mas esta dimensão da educação para uma sociedade de fraternidade, de igualdade, de liberdade e de fraternidade…
Essa é uma causa comum a todos, não é?
Sim, tem de ser, porque é isso que exige a dignidade do ser humano, senão ficamos um bocadinho sem destino.
"Os imigrantes não são uma coisa, são muitas coisas"
Quando olhamos para as margens da sociedade, o cenário vai-se agravando, porque a imagem da mulher é frequentemente usada como combustível para justificar a xenofobia contra, por exemplo, migrantes. Ao mesmo tempo, sabemos que as mulheres são as principais vítimas das redes de tráfico humano. Como podemos desmontar este discurso que instrumentaliza as mulheres para promover o ódio e passar a protegê-las de uma forma eficaz?
Primeiro, perdendo um bocadinho o paternalismo de que, mesmo sem querer, às vezes padecemos. Na verdade, penso que é um discurso que tem de estar constantemente a ser desmontado. Não sei como fazer, não quero aqui dar uma solução que não tenho, mas estou disposta a contribuir, disposta a pensar de que maneira o Estado, as organizações públicas, o jornalismo podem fazer o contrário: insistir, persistir, cansar os outros, também, dizer que não é verdade. A população migrante tem muitos problemas, eu costumo evitar dizer a palavra "desafios", porque, na verdade, o que têm são problemas. Mas estamos a falar dos imigrantes pobres. Ninguém anda preocupado com a violência que pode haver contra as mulheres migrantes que têm "vistos gold", embora também possa haver.
A experiência que eu tenho com pessoas migrantes surpreendeu-me também nesses estereótipos, porque eu vejo casamentos e vejo famílias completamente funcionais e tão paritárias ou igualitárias como as nossas, ou seja, sempre um bocadinho mais a pesar as coisas em cima do lado feminino, portanto igualzinho aos portugueses.
"Nós, Igreja, temos de perceber como aqueles que estão de fora da Igreja olham cá para dentro"
O seu trabalho também passa por acolher mulheres refugiadas. Sabemos que a migração tem sempre um peso maior sobre as mulheres, sobre as meninas, sobre as jovens…
Sim, os imigrantes não são uma coisa, são muitas coisas, e cada pessoa, cada experiência de família ou de vida individual traz a sua história. O que eu vejo e queria salientar, apesar das diferenças, é sobretudo a convergência, nas meninas migrantes, que venham do Médio Oriente, que venham da África. São as que eu conheço melhor na minha experiência, que é casuística, não estou a fazer ciência, estou a partilhar uma experiência. Têm exatamente as mesmas ambições, os mesmos medos que as jovens crescidas em Portugal: querem estudar, querem sair, querem ter amigos, querem saber quem são no crescimento, o que constitui a própria adolescência, querem ouvir música e querem passar nos testes. É exatamente a mesma coisa. E, provavelmente, querem apaixonar-se, não é?
Agora, há preocupações que têm a ver com a vulnerabilidade da pobreza, pelo menos de uma pobreza que é contextual. Muitas das pessoas, nomeadamente pessoas refugiadas que vêm para Portugal, não eram pobres, não tinham uma experiência de pobreza nos seus países de origem. Portanto, vêm experimentar tudo novo e têm um desafio que nós não temos: a questão de viverem numa outra língua. E eu digo mesmo viver numa outra língua, a língua como um espaço onde a pessoa tem de se procurar e encontrar. Isso é muito difícil.
"Metade da sociedade são mulheres e na Igreja não são metade (…) São mais do que os homens, mas não contam para aquilo que importa"
Passando agora para dentro de portas, como é que classifica os passos que têm sido dados na Igreja Católica, olhando para estes primeiros dez meses de pontificado do Papa Leão XIV? Sente que há uma continuidade do que foi iniciado ou estamos perante uma abordagem diferente à questão feminina?
Penso que há uma continuidade, eu diria que os passos são devagar, devagarinho, quase parados. Saiu a notícia de que há uma sugestão para que as mulheres passem a integrar a formação do clero.
Sim, é o relatório final do grupo de estudo sobre a formação dos sacerdotes...
Eu fico surpresa.
Verdade seja dita, isso já estava no...
... claro, já existe, eu conheço algumas situações.
Estamos a falar sempre do ponto de vista português, para o resto do mundo pode ser importante...
Claro, é importante para todo o mundo, mas ainda é só um relatório, estamos em 2026. E nós, Igreja, temos de perceber como aqueles que estão de fora da Igreja olham cá para dentro.
Ainda olham para uma estrutura muito patriarcal?
E é, é muito patriarcal.
E o Sínodo pode ajudar na mudança desse olhar?
Eu acho que pode ajudar, mas parece que estamos todos a fazer favores. Vai ajudar e tem de se fazer este caminho. Mas são passos devagar, devagarinho, quase parados. Desculpem dizer assim.
As mulheres não precisam de favores, nem precisam de um espaço para as consolar ou para dizer que temos igualdade. Vamos pôr uma mulher agora em cada seminário? Não é isto.
A Igreja tem de reconhecer, assumir, promover a necessidade de uma Igreja que seja de homens e de mulheres. Eu não estou a falar de coisas radicais.
"Não é que eu queira agora a Igreja tomada pelas mulheres, eu gostava era que não houvesse tanta hesitação"
Não estamos a falar de ordenações...
Não, embora também pudesse ser falado, não é? E tem sido discutido. Mas tem sido sempre discutido para dizer que não há discussão.
Aliás, eu acho que se a Igreja quer estar no seu tempo, que é sempre um tempo mais lento, mais pensado, mais pausado, isso é bom. Mas inspirado, porque é preciso dar tempo à inspiração do Espírito Santo, eu acredito nisso.
Não venho aqui, que era um atrevimento demasiado, propor coisas. Mas quero dizer que eu, e, agora, sim, como mulher, e outras mulheres, e outros homens pensamos que é preciso mais, mais rápido, menos hesitações. Estamos no século XXI. Metade da sociedade são mulheres e na Igreja não são metade. Ah, sim, as mulheres são muito importantes, dizem que sim...
Mas na Igreja são mais do que os homens, não é?...
Sim, mas não contam. São mais do que os homens, mas não contam para aquilo que importa. E há um esforço extraordinário da realidade e de algumas realidades paroquiais, pelo menos em Portugal. E aí as mulheres são ouvidas, claro que sim. Ouvidas, tidas em conta, participam... Mas noutras não há espaço para isso. E, portanto, as mulheres são mais para arranjar as flores, passar a ferro os paramentos, ser zeladoras, dar a catequese, claro, a pastoral, a missionária, as beneficências... Mas quem é que está no altar? Desculpem o atrevimento. Não é que eu queira agora a Igreja tomada pelas mulheres, eu gostava era que não houvesse tanta hesitação em discutir isto, em abrir verdadeiramente a mulheres que querem dar o seu ponto de vista, que, às vezes, não é tão feminino assim, é só uma questão de pluralidade.
Eu tenho falado sempre nesta palavra: "pluralidade". É fundamental. Mesmo para fazermos asneiras juntos, já agora, para acabar com esse argumento que aquilo é só homens. Não. Portanto, acho que é muito importante estarmos juntos. E essa experiência, que é uma experiência que depois se torna física, também. Nós precisamos dessa experiência física, do convívio, da discussão, da pausa para café.
Que desafio prático, que lugar é que gostaria de propor que as mulheres possam reivindicar na sociedade, como forma de assinar este dia ao longo do próximo ano todo?
Isto é muito difícil. O desafio prático: cada uma a decidir com audácia, com coragem, que é preciso, às vezes, para se expor no sentido da reivindicação. Não é uma reivindicação de gritos na rua, embora também haja lugares em que isso faz sentido, mas que nos seus espaços comunitários de trabalho, na família, exigir com firmeza e doçura, mas exigir um pouco mais de igualdade.
E os homens também, porque, felizmente, o feminismo não é exclusivo das mulheres. Aliás, o feminismo não é o contrário do machismo. O feminismo é a igualdade. E é essa reivindicação, talvez, essa voz, essa voz visível que seja necessária trazer para continuar, como dizia há bocado, a brincar, a fazer asneiras juntos, mas, sobretudo, a prosseguir um caminho para mais justiça, para mais paz, mais fraternidade e mais riqueza também para o nosso país, para podermos enfrentar tanta desigualdade.
- Noticiário das 15h
- 16 mai, 2026








