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Igreja lança plataforma para desinvestimento na mineração e alerta para impactos ambientais

20 mar, 2026 - 11:30 • Olímpia Mairos

Iniciativa apresentada no Vaticano apela à “coerência ética” e denuncia efeitos da indústria extrativa em comunidades vulneráveis.

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A Santa Sé apresentou esta sexta-feira uma nova plataforma internacional de desinvestimento no setor mineiro, uma iniciativa que pretende alinhar decisões financeiras com princípios éticos e ambientais, face aos impactos da indústria extrativa.

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A conferência de imprensa decorreu na Sala de Imprensa do Vaticano e reuniu responsáveis da Igreja Católica e representantes de organizações ligadas à defesa dos direitos humanos e do ambiente. Segundo o documento oficial, trata-se de um projeto que nasce de uma “profunda convicção moral e espiritual” e que envolve mais de 40 instituições.

O cardeal Fabio Baggio, subsecretário do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, sublinhou que a iniciativa responde a uma questão central para o futuro: “Que tipo de mundo queremos deixar às gerações que vêm depois de nós?”, alertando para os impactos diretos da mineração em comunidades locais e ecossistemas.

Impactos ambientais e sociais em destaque

Durante a apresentação, vários intervenientes denunciaram as consequências da exploração mineira, sobretudo em regiões mais vulneráveis. O cardeal Álvaro Ramazzini, bispo de Huehuetenango, na Guatemala, conhecido pela sua defesa dos direitos humanos, dos povos indígenas, dos migrantes e da justiça social, deu o exemplo da Guatemala, onde projetos de extração de ouro e prata deixaram comunidades na pobreza, apesar dos lucros gerados.

Em termos de justiça distributiva: foram justas as ações de exploração mineira? Não”, afirmou, criticando a discrepância entre os ganhos das empresas e os benefícios para as populações locais.

Também D. Vicente Ferreira, bispo de Livramento de Nossa Senhora, Brasil, e conselheiro da Rede Igrejas e Mineração, destacou a urgência de uma mudança estrutural no modelo económico e energético, defendendo que a mineração continua a ser um dos pilares de um sistema que privilegia o lucro em detrimento do ambiente e das populações.

O bispo brasileiro alertou para a necessidade de abandonar os combustíveis fósseis e criticou as chamadas “falsas soluções” do capitalismo verde, sublinhando que “a mineração é, sem dúvida, a coluna central que sustenta a busca desenfreada pelo lucro”. Defendeu ainda que a resposta à crise ecológica deve envolver diretamente as comunidades locais e os movimentos sociais, valorizando soluções que partem “de baixo”.

Os intervenientes destacaram ainda que a exploração de recursos naturais tem sido muitas vezes realizada sem respeito pelos direitos dos povos indígenas e pelos limites ambientais.

“Tudo está interligado”

A iniciativa inspira-se no conceito de “ecologia integral”, promovido pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, que defende a ligação entre ambiente, economia e justiça social.

Tudo está interligado”, sublinhou o cardeal Álvaro Ramazzini, defendendo uma abordagem que tenha em conta não apenas a proteção da natureza, mas também a dignidade humana e o bem comum.

Também a irmã Maamalifar Poreku, missionária de Nossa Senhora da África (MSOLA), originária do Gana, com vasta experiência nas áreas da justiça, da paz e da ecologia integral, destacou que a crise ecológica está ligada à desigualdade social, afirmando que “a degradação ambiental afeta de forma desproporcional os mais vulneráveis”.

Desinvestimento como resposta ética

A plataforma agora lançada propõe o desinvestimento em empresas mineiras como forma de pressão para transformar o modelo económico atual. O objetivo é promover uma maior responsabilidade social e ambiental nas decisões financeiras.

O padre Dario Bossi, sacerdote comboniano com experiência em áreas afetadas pela atividade mineira e ex-conselheiro da CNBB no Brasil, coordenador da Rede Igrejas e Mineração (Rede Igrejas e Mineração), explicou que o setor mineiro está profundamente ligado a mercados financeiros globais, o que dificulta mudanças internas, defendendo o desinvestimento como “uma ferramenta concreta para transformar o modelo extrativista”.

A iniciativa convida instituições religiosas e sociais a reverem os seus investimentos e a canalizarem recursos para alternativas sustentáveis.

Apelo à ação imediata

Os responsáveis pela plataforma deixaram um apelo à ação urgente, face à gravidade da crise ambiental.

“A responsabilidade é clara, a urgência é grande e é agora que temos de agir”, afirmou a irmã Maamalifar Poreku, defendendo uma transformação profunda dos sistemas económicos e sociais.

A nova plataforma pretende, assim, reforçar a pressão internacional por uma economia mais justa e sustentável, colocando a proteção do ambiente e das comunidades no centro das decisões financeiras.

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