Reportagem Renascença
Voluntários em pediatria. "Se eu soubesse que isto era assim, já estava cá há mais tempo"
20 mar, 2026 - 09:30 • Ângela Roque
Há 10 anos que a "Nuvem Vitória" mobiliza voluntários para, todas as noites, irem ler histórias de embalar a crianças internadas. Estão em 15 pediatrias, de norte a sul do país, mas a associação conta chegar este ano a mais enfermarias e hospitais. E já abriu novas inscrições para Lisboa. A Renascença esteve no hospital D. Estefânia, onde todas as noites três duplas de voluntárias asseguram boas histórias e boa companhia.
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A entrada principal do hospital do D. Estefânia é o ponto de encontro. Todos os dias, de segunda a sexta-feira, seis voluntárias da Associação Nuvem Vitória reúnem-se a partir das 19h30.
No dia em que visitámos o hospital não foi diferente: Helena, Júlia, Susana Bexiga, Cecília, Ana e Susana foram chegando munidas de sacos carregados de livros. Só podem entrar às 20h00 e, entre os rituais obrigatórios, está vestirem a t-shirt que as identifica como "nuvens''. É assim que são conhecidas nas enfermarias que visitam todas as noites. São 1300 os voluntários que asseguram este apoio em 15 pediatrias de norte a sul do país.
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"Não circulamos nunca isoladas. Vamos sempre em dupla para o serviço que nos está destinado", explicam à reportagem da Renascença, enquanto se vestem junto aos cacifos, antes de tirar uma fotografia de grupo. "Tem de se ver bem a camisola", dizem. Mas, para que serve a foto?. "É para informarmos a nossa coordenadora que já chegámos e que já estamos em condição para entrar em ação. A foto depois é divulgada nas redes sociais."
ENTREVISTA
Contar histórias de embalar à noite a crianças internadas? Nuvem Vitória foi pioneira e já o faz há 10 anos
Associação criada em 2016 tem 1.300 voluntários em(...)
As três equipas seguem em dupla para os serviços destinados: infecciologia, unidade de queimados e cirurgia pediátrica. Podem ficar até às 22h00. Quando entram, as crianças já jantaram. "Em regra, sim. Mas, às vezes, ainda ajudamos a dar o jantar, a distraí-los. Contamos as histórias, lá vai mais uma colher."
Nos sacos de pano, trazem, além dos livros, bonecos e caixinhas de música de embalar, porque muitos dos que vão visitar são bebés. "Hoje, temos imensos com 16, 17 anos, mas também temos crianças com oito dias, com quatro dias..." As idades variam, mas esta ajuda faz diferença para os mais pequeninos? Garantem que sim.
"Ouvem música. Às vezes, estão muito inquietos, não conseguem mamar e, com a música, vão acalmando. Às vezes, até os conseguimos adormecer, é uma maravilha. Os pais ficam encantados por estamos ali. Mesmo que a criança seja muito pequenina, a música, o estar outra pessoa no quarto dá para a mãe ou o pai, quem esteja, descansarem um bocadinho, é sempre importante."
Acompanhamos Susana e Júlia no serviço de infecciologia, onde é obrigatório entrar de máscara. Teresa é a primeira bebé a receber a visita. Internada há quase uma semana, fica curiosa com o livro "pop up" dos animais da quinta e com a música de embalar que ouve em fundo.
"A Teresa faz 10 meses hoje", conta o pai, Francisco, que agradece a visita das nuvens Vitória. "É sempre bom ter alguém que se lembre, que se dedique a isto", assinala.
"Há o voluntariado e há a vontade de fazer estas coisas, e é importante para nós. Fico contente por isso. A Teresinha ainda é pequenina, não percebe, mas nós vamo-nos lembrar. Porque os nossos outros dois filhos também já cá estiveram e temos tido estas visitas. O mais velho, o Henrique, tem cinco anos agora, ainda se lembra de algumas coisas. É importante, e faz a diferença", sublinha.
Susana confirma a recetividade que sentem por parte das famílias. "Para os pais, é bom verem outras caras de fora, também, que vêm dar apoio. Às vezes têm a necessidade de falar um bocadinho, nem que seja do tempo que está lá fora. E aproveitam a nossa chegada para poderem ausentar-se um bocadinho."
Num quarto ao lado, estão internadas Vitória, de 8 anos, e Estrela, de 16. Sentam-se juntas na mesma cama para ouvirem as histórias. A primeira "é uma história meio adivinha. É sobre uma palavra: achimpa. Alguém sabe o significado desta palavra?", pergunta Júlia, que prossegue a leitura.
"Houve quem dissesse que já tinha visto achimpas, que no estrangeiro ainda as há, e que são verdes. Será que isto tem alguma coisa a ver com o Sporting?", pergunta, a brincar.
A história dá muitas voltas, para concluir que se trata de uma palavra inventada. "É que a palavra achimpa não existe! Viram? Já todos estão a sorrir! Vitória, Vitória, acabou-se a história!", remata com a frase que inspirou o nome da Associação.
"Querem ouvir mais? Temos um saco cheio de histórias", mostra Susana. Escolhem outro livro, "Acreditar", que conta a história de uma preguiça. "Venham, venham! O grande espetáculo da Floresta está a começar, a preguiça adora este espetáculo e quer participar."
"As crianças perguntam pelas nuvens, querem saber quando vêm"
Maria João Correia é enfermeira na Unidade de Infecciologia. Fala-nos do impacto que este voluntariado tem nas crianças internadas. "Tem um efeito muito positivo, não só na redução do medo e da ansiedade deles. É um momento do dia em que eles, efetivamente, desligam um bocadinho de todos os procedimentos dolorosos, de todo o ambiente hospitalar", diz.
Acrescenta que o conto de uma história à noite "também lembra a rotina de casa", porque "há muitas crianças que têm esta rotina com os pais. E proporciona também um sono mais tranquilo. Acima de tudo é um momento em que eles estão ali distraídos do que estão aqui a fazer".
E a adesão? "É muito grande e é muito positiva. Há muitas crianças mais crescidas que às vezes já perguntam se ainda demora muito para vir a nuvem, 'quando é que vem a nuvem?'"
A enfermeira sublinha a preocupação das voluntárias em trazer livros para as várias idades: "Tentam adaptar as histórias que contam, os livros que trazem, para os mais adolescentes não trazem aquelas histórias tão infantis, mas umas adivinhas, umas coisas diferentes. E para os mais pequeninos trazem aqueles bonequinhos com música, isso é importante, para as crianças e para os pais, que efetivamente têm ali um momento de maior descontração, o que é muito positivo, efetivamente."
As visitas são à noite e "o objetivo é mesmo esse: ser ao fim do dia, quando eles já tomaram o seu banhinho, já jantaram, estão prontos para descansar e é uma forma de relaxarem. Isto quebra a rotina da criança que está internada, da família, dos pais que podem estar a fazer companhia".
Para os profissionais de saúde, "também é muito positivo", uma vez que "as crianças ficam mais leves, mais recetivas. Humaniza o próprio espaço hospitalar".
10 anos de Nuvem Vitória celebrados em mais hospitais
Fernanda Freitas é a fundadora da Associação Nuvem Vitória, criada em 2016, uma iniciativa de "inovação social, que, por vezes, tem esta magia: aparece um projeto que é quase um ovo de colombo", conta à Renascença, explicando que o nome tem a ver com o final de muitos livros: "Vitória, Vitória, acabou-se a história".
O projeto começou com 12 camas e 24 voluntários e,10 anos depois, já se alargou a 15 pediatrias, de norte a sul do país, envolvendo 1.300 voluntários, que têm de cumprir uma série de requisitos e regras.
"As pessoas são obrigadas a fazer a formação, entregar o registo criminal, assinar o contrato. Criámos um manual, que agora é usado religiosamente em todos os hospitais onde estamos, para que todas as pessoas que entrem na Nuvem tenham balizas, saibam o que é que podem e o que é que não podem fazer cada vez que entram num quarto de hospital."
Este ano, a associação conta alargar as Nuvens a mais hospitais. "Em Lisboa, porque o Hospital da Estefânia e o Hospital de Santa Maria estão a pedir-nos mais voluntários, porque têm mais enfermarias a precisar de histórias de embalar. Vamos abrir também no IPO do Porto, alargar a equipa do Porto, em geral, e a equipa de Vila Nova de Gaia. Vamos querer alargar o Hospital de Braga, e já estamos em contacto com o Hospital de Barreiro, da Guarda e de Évora", relata Fernanda Freitas.
As inscrições para se ser voluntário já estão abertas, só para Lisboa (IPO e hospitais de Santa Maria e Dona Estefânia), com os requisitos habituais: terem mais de 21 anos, gostar de contar histórias, ter 3 ou 4 noites livres por mês, entre as 19h30 e as 22 horas, ter sentido de responsabilidade e identificar-se com o projeto. Há uma formação já marcada para 11 e 12 de abril, das 9h às 19h.
O alargamento do projeto implica despesas e requer investimento, e só avança porque há condições para o fazer. "Com este nível de profissionalismo dentro dos hospitais temos de fazer investimentos, nomeadamente os seguros, as t-shirts que os voluntários usam, a formação, que é obrigatória. Para ter noção: para abrir um hospital precisamos de cerca de 10 mil euros. Isto garante a formação de 60 a 70 voluntários e um ano de ações", explica Fernanda Freitas.
"Quando fazemos formação é quando surge, por exemplo um prémio, um sponsor, uma empresa madrinha, como gostamos de chamar. Por exemplo, abrimos agora inscrições para Lisboa, e em breve também para o Porto e para a Vila Nova de Gaia, graças a prémios que ganhámos, mas também à consignação do IRS", lembrando que esta é a altura de o fazer.
"Posso dizer que do ano passado para este ano, a verba que recebemos da consignação do IRS de Portugal vai dar para abrir pelo menos mais três hospitais."
Fernanda Freitas diz que não têm dificuldade em angariar voluntários, e conta que muitos dos que o fazem já usufruíram deste apoio. "Acontece imensas vezes, em dias de formação, olhar para algumas pessoas e pensar 'eu conheço esta cara de qualquer lado', e a pessoa durante o coffee break vem dizer 'estou aqui porque vocês visitaram o meu filho que estava internado'. Mas, em Setúbal temos pela primeira vez como voluntário um dos meninos a quem lemos histórias quando era mais pequenino, e que agora já tem 21 anos. É absolutamente extraordinário quando isto acontece!", sublinha.
"Estarmos aqui com estas crianças faz-nos sentir especiais"
Às voluntárias é pedido que assegurem quatro dias por mês - em média, uma vez por semana. As equipas de Nuvens não são fixas, mas há sempre alguém de prevenção, para o caso de alguém ter de faltar no dia estipulado.
Para todas as voluntárias ler histórias a crianças internadas é um momento "especial" e "gratificante". Susana Bexiga está grata por fazer parte da equipa.
"Eu adoro crianças e tenho algum tempo disponível. Andei à procura de um voluntariado que fizesse sentido para mim e encontrei este da Nuvem Vitória, que eu nem sequer sabia que existia. E é maravilhoso arrancar o sorriso de uma criança, arrancar o sorriso de um pai", sublinha, contando que na família e no trabalho já todos sabem que há dias dedicados a esta causa. "Sabem que há aquele momento que é para a nuvem, eu digo 'vou para a nuvem', e já toda agente sabe.
Ana valoriza esta ser uma atividade pós-laboral. "É o ideal e veio na hora certa. Estavam a abrir o núcleo da Estefânia quando entrei. À medida que conheci o projeto ainda mais apaixonada fiquei, em termos de organização, desde a formação que nos dão, a forma como nos recebem, o acompanhamento diário, se fôr preciso falar com o psicólogo. Está muito bem estruturado", sublinha.
"Se eu soubesse que isto era assim, já estava cá há mais tempo!", acrescenta Cecília, já reformada. "Assim que deixei de trabalhar inscrevi-me e vim logo, e realmente é fantástico".
Helena diz que sempre gostou de "ler e de contar histórias. É dedicar um bocadinho do meu tempo em prol destas pessoas, que podem estar aqui a precisar de um sorriso, de uma brincadeira, de uma história".
Júlia, que já teve um neto hospitalizado, pôde aferir o que significa este apoio. "Teve um impacto enorme nas nossas vidas. É muito curioso que as crianças àquela hora já sabem que as nuvens vão, e esperam por elas. E o meu neto perguntava 'e a nuvem, quando é que vem?'. É muito gratificante nós irmos no corredor e alguém dizer ' olha, a Nuvem já chegou', e irem para o quarto porque vão ouvir uma história".
Susana diz que tem sido uma "experiência fabulosa", um "enriquecimento pessoal" e um "crescimento inexplicável".
"Também sou mãe, já tive um filho internado nos cuidados intensivos do Santa Maria e estava com muito receio, porque sei perfeitamente o sofrimento que os pais estão a ter. Mas, a verdade é que isto transforma-nos! Estarmos aqui com estas crianças faz-nos sentir também especiais, porque estamos a dar-lhes um pouco de alegria", remata.
- Noticiário das 6h
- 18 mai, 2026
















